não me olhes com o teu olhar apascentado
como se fosses guardador de rebanhos
e de rosas cuidasses entre os dedos
banha-me com a fonte cintilante das
madrugadas que usamos ao deitar
e vem morar-me nas noites do deserto
porque as areias segredam-me receios
e os teus olhos, inadvertidos, tocaram-me
cedo, muito cedo, e já os pendurei
entre as estrelas por serem belos
e verdadeiros e me clarearem as noites
quando me caem os medos
não me olhes como se me embalasses
os ombros inacabados para depois
me retirares o xaile dos teus afagos
quando estes rasam os meus lábios
como rosas de repente frias
já desceu sobre nós a hora alada
quando o tempo despe o tempo
e a terra se enlaça à alvorada
sem pudor o tempo vem e o teu olhar
tão alto apenas se ergue sobre o meu
e não pressente que o corpo fala
e rasga em nós as madrugadas mudas
amplifica a pele na pálida luz dos espelhos
e nós juramentados seres ainda assim
rubras rosas esmagamos entre os dedos
falo de ti como de um rio de rara raiz
um rio plantado entre os sulcos da pele
e a estratosfera funda do olhar
um rio lavado e limpo a nado no silêncio
no meu corpo submersamente
o teu rio afluente lavra, imenso
Bom dia!
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