Quando a noite se vai de nós
e o dia assoma,
há nesse limbo de filigrana
um espaço em que
o sonho ainda é realidade
e a realidade ainda sonho.
Saímos de nós com a dificuldade
dos amantes apartados
ou das crianças que perdem
o doce calor do seio
e a quentura do colo materno.
Vagueamos pela casa
ainda sonho, mas já utilidade
e pragmatismo.
O sonho ainda nos pode prepassar
ao girar a maçaneta de uma porta,
ou ao erguer os olhos
do café.
Mas será uma sombra fugidia,
um último aceno,
por cortesia,
de uma encenação
para jamais revisitada.
Durante todo o dia
ainda podemos repetir gestos
sem se saber o seu destino,
ou pensar em fiapos de nada
com sentido.
Mas nunca saberemos
onde estivemos
nem porquê,
nessa via sacra entre o ser e o nada,
entre o viver e o não-viver.
o dia que nos abre os seus muros
a noite que não os fecha de vez…
Bom dia! - dizemos, mas ainda não
somos nós, nem a nossa voz
e sim talvez a de um qualquer
agrimensor de impressões…
13 de Maio de 2003
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