Music by David Arkenstone - Atlantis
recordo a casa plantada à chuva num laranjal distante. vemo-la lá no horizonte, louros os olhos do trigo que nos espera no regresso. a viagem ronda a ilha numa esperança posta nas origens do sangue. dizia-se que os primeiros atlantes haviam surgido do nada, com a pureza original dos filhos de Eva e o brilho metálico dos génios ou dos poetas. a ilha sabia-se também emersa de um caos no avesso profundo do mundo. navegou em vagas de ouro durante milénios, até se fixar naquele límpido oceano, onde finalmente os seus profundos seios haviam encontrado o peito amantíssimo do mar. a ilha aromática e bela como uma mulher coberta de flores e de estrelas, a ilha era um novelo de nuvens e brumas que apenas o capricho do sol vinha quebrar em rasgados horizontes. sabíamos-nos os filhos dilectos de um deus distraído que nos soube ungir a fronte com as estrelas do levante, sem nos iluminar os passos em direcção à sua luz evenescente. recordo a pequenez da nossa espera na grandeza do horizonte. a ilha envolta nas brumas róseas de mistério, as estrelas no avesso da memória que então não tínhamos. era bom existir apenas no fundo do amor, em zénites que nos uniam na velocidade isocrónica do pensamento. a rosa de chá que tu tocasses viria afagar-me o seio, por vontade expressa do teu corpo e se eu respirava para te sentir, todas as partículas do ar se irisavam para te levar esse momento. éramos o próprio mosaico do tempo, feito de luas, atrás de luas e de sóis atrás de sóis e tudo era o prodigioso milagre da ténue existência das flores.
um dia o céu tingiu-se de vermelho e o sol chorou lágrimas de prata e de lava, ácidas facas no colo diamantino das nuvens e a cintura de bruma escureceu na cinza da partida. as nossas túnicas ondearam pela última vez o linho da sua brancura no cimo de rochas avançadas sobre a espuma. respiramos em conjunto aquela lonjura e, à distância, ainda pude ver o aceno que o mar logo te tragou. abracei um artefacto flutuante, era talvez um deus de bambu, cortado por mãos atlantes, os deuses haviam abandonado os homens na sua riscada coroa de amores deambulantes e, no curso de um instante de tremura, toda a nossa ilha nos afundou, mármores e colunas, torres e construções gigantes, tudo ruiu nas estacas sensíveis das coralíferas fundações. não mais vi sob a complacência do sol a arquitectura formidável de um presente que não parecia ter fim. ficámos de repente tolhidos a meio de um gesto e então conhecemos o tempo. nunca mais te vi, nem as marcas dos nossos passos, nem a flora luminosa dos anilados campos, tudo o mar bebeu na fome das fragas, a lembrar gárgulas gigantes.
a lenda vive dentro de mim que a aportei no naufrágio dos olhos, em terras migrantes. recordo como éramos felizes sem sonhos, porque nos sonhos vivia a luz do dia e os dias eram os próprios sonhos. no veio dos corpos luminosos e na transparência dos cristais, o pensamento fluía-nos através da chuva, ou dos maiores temporais. mesmo agora, sempre que o céu se derrama sobre nós, na sua líquidez piedosa e as brumas cerram memórias de ruínas e de gestos, nestes momentos de agora, a ilha beija-me e tu unes-te a mim no mistério que ainda nos respira. cerco-te em cada lua estival, em cada solstício, em cada fonte. às vezes no mar é que te encontro, no carinho suave das águas quentes do mar desértico. deixei-me perder por dunas vivas sem memória, sou uma austera forma de vida crestada de erosões que vive a pele no vagar com que nos alimento. bebo a energia das pedras, a ideia de nós, nos rebentos raros e nos musgos que a seca poupa. mas ao respirar as rosas, apenas então, algo na tua tez atlante, loura e leal como o trigo de antes, algo à tua volta sorri, porque eu sei que a ilha se ergue comigo de rompante e o nosso mundo torna a estar presente. estou segura que te ouço sorrir levemente agora que a fala também me floresce, sim, sorrirás cindido pela fala, pela palavra impronunciável, sabes como a ilha é o espelho que nos precede. se me encontrares um dia, entre altas sebes, diz-me, ensinas-me o caminho de regresso para o fundo do tempo, o lugar onde os dias não tinham história e os laranjais nos frutificavam (tanto) nas raízes de dentro?
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