Serena Lua
Vogo sem rumo entre a espuma dos dias e o luar azul dos sonhos. Escrevo-me numa neblina de palavras, rasgando as noites brancas e as claras madrugadas...
Domingo, Junho 17, 2007
Diário

Música: Bon Jovi “You want to make a memory”

afago a tua inquieta solidão sem mais dizer, desculpa, mas é este o meu modo de dizer-te que estou presente. ouço o rumor da tua noite e é como se ouvisse ao longe o mar a romper a escuridão. não é um canto de apelo, o que te ouço, nem o estertor último das estrelas ao porvir da madrugada, é o momento em que me amas em segredo, nas tranças das minhas palavras. e eu fico a ouvir-te, cisne e poeta, a beber com gelo a última lágrima que me emprestas. desculpa, não te disse antes, mas a noite é o momento em que me pertences, como me pertence o luar e o lume das estrelas. é verdade. é tarde, tudo escureceu e só restaram as minhas mãos, que vim conjurar sobre o teu corpo. sei sem saber as palavras e as penas do branco linho do teu leito e guardo o sabor do teu corpo como se guarda o aroma das manhãs no zumbido álacre das abelhas. conheço-te nas palavras poupadas que me dizes
quando a noite te consome a espera. nesses momentos, em que me tinge o veneno da doce poesia quisera ser um manto e da mais pura caxemira, para te tapar os males do mundo e envolver os teus sonhos, que sonhas sem saber, porque o sonho que sonhamos não nos perdura.

desculpa dizer-te tão tarde que hoje a noite não me chega para ficar a olhar-te entre as frestas da poesia. queria ser ave da noite e nunca ser dia, vestir-me de um voo tão altivo que todo o tempo da paisagem fosse nosso d’ora em diante. mas não navego a noite pelo centro, nem o teu coração me pressente assim tão dentro. trago-te só as minhas mãos, assim tão leves, para que as tomes como duas rosas rente ao coração. prende-as como um diadema que te dou, quando pouco mais te posso dar, tanta a noite cansada sobre os ombros. muitas ainda me sobram irisadas de fogo ou de degelo, mas contenho a noite, como um glaciar que quer despenhar-se no oceano sem ser tempo.

desculpa se te surpreendo com a minha fala a meio de uma noite apagada e bela, mas enquanto o vento do deserto me soprar para dentro da minha tela tudo que posso fazer é deixar ficar as mãos e dizer-te o que tanto já te disse. nenhuma estrela me cintilará nova na palavra e porém tudo se espalha em teu redor, como o meu corpo de mulher. eu sei, é inútil esforçar a fala, a brisa hoje é só levemente cálida, a tua voz chegou-me estava eu já no outro lado da noite, nas ternas ameias do teu castelo. sonhava. deixo-te as memórias que te quero presentes, no dia em que me chamares e eu seja outra, ou já não seja. quero que me prendas os cabelos com as flores do sonho para lá da morte e que exista em todos os lugares esta fuga para o lugar do corpo. sobre as areias do deserto viveremos sempre ocultos como rochas, eu sei, ainda é cedo para o fim nos chegar sempre, e hoje há este tapete que nos flutua dentro, sempre dentro do olhar para esperarmos o sol que venha ver-nos, esperando que cedo nos chegue o amor ao tempo.

Assinado por: aziluth • 09:17 PM • (1) Comentários

cisne e poeta. é o que és!
e não poupas as palavras (ainda bem).

um beijinho

Comentado por:  em  06/18  às  07:12 PM

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