Gostava quando as palavras caíam do cimo do céu como estrelas cadentes e acendiam serpentes no meu seio. Às vezes o meu olhar estalava de espanto e respondia com a voz mergulhada em profundas raízes desconhecidas. Foi quando senti a luz das palavras e percebi que há fortes ligações entre elas e a vida. Antes do primeiro impacto eu via apenas meras palavras nas palavras. Serviam para falar, diziam o mundo e era fácil acreditar na fidelidade das palavras. Depois passei a encará-las como recados da natureza, ou do amor. Guardava as palavras em pequenos cofres, como se fossem únicas e irrepetíveis, perdi-os em dilúvios vários, incêndios passionais. Depois vi que as palavras podiam ser precisas e cortantes como mão de alfaiate a desenhar os fatos da moda. Vestidas de organzza ou seda ou linho ou caxemira, as palavras não permaneciam muito tempo no palato. Fugíam-nos. As palavras podiam ser apenas um caminho assinalado a rosas. Um caminho para a morte. Estudei as palavras e separei-as como naipes. Havia palavras em jogo e palavras que jogavam por nós o jogo das almas. Perdi algumas palavras importantes e os jogos todos que jogava. Algumas jogadas foram minhas e ganhei-as nas palmas das minhas mãos cegas. Recolhi as fichas ganhas e troquei-as pelas palavras indispensáveis, as que uso junto ao coração, cofres de coral, nas fundações do sangue. Lá dentro a paixão, intocável, intensa. As palavras e eu formamos uma espécie de domínio, rodeado de altas muralhas, paredes grossas e frágeis ferrolhos, uma cidade secreta entre montanhas de eternas neves e um deserto de lava substância. Recolhi-me entre palavras, esperando que um dia elas chegassem ao ritmo da pulsação e se me fizessem o rio do sangue. Eu e as palavras vivemos densamente fundeadas num lago sem mistério, afogo-as entre os dedos, já não as interrompo, quero-as ancoradas nas areias, as palavras têm vida, movem-se pelo meu corpo, respiram-me na fala, as palavras colam-se na pele, as palavras têm gente dentro, as palavras são belas e eu tenho medo que um dia, inesperadamente, as palavras me sucedam e me devorem o corpo como vermes.
Boa noite, Ricardo!
Obrigada! Desculpa o lugar-comum, mas a verdade é que me faltam as palavras, para agradecer, como merecias, as tuas, sedutoramente, poéticas.« Gastámos as palavras, meu amor.»
Um beijo, sabendo a marecia,
Violeta(s)
Corrijo: onde se lê marecia, deve ler-se maresia.
sem dúvida que as palavras te habitam. como uma casa cheia de vida. mas enquanto as transbordares assim, fluidas, não deves temer que te devorem.
Pois, pois. “palavras para Dó, palavras para Lá e palavras para Si” Estas coisas até já nem querem dizer nada…
palvras belas. sempre. as tuas.
venho matar saudades delas.
beijos
F A S C I N A D A ! !
Tuas palavras me enchem o coração de vontade de correr ao papel e escrever de novo. Qualquer coisa que fosse.
Já soube o que era sentimento no papel. Hoje me limito a observar…
Sucesso!
como é possível só agora ter descoberto este blogue?
e… já acabou. não, não me digas que acabou este blogue…
PENSAMENTOS
´´ se amar é viver!!!
porque muitos morrem mesmo estando amando?``.
´´um amor não apaga outro;
apenas, modifica-o``.
de todos os teus sítios, este, para mim, o mais querido.
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tomo sempre o cuidado de não parecer intruso «nos teus passos largos»; e arrasto-me em grande asseverar - atrevo-me a protestar - quase demente em supre memória, diante do silêncio árido do teu solo – aquele (o) que domina ou cria e nunca se ouve - invisível desde muito cedo, de indícios raros, sem relatos –; mas é tão fácil, tudo está ali á vista – «mas eu não vejo, nem num instante; como uma sombra sem pensamento inteiro, de andar ligeiro e a todo o momento como uma inquietude demorada, escondesse o rasto, quero dizer: em algumas ocasiões, já o disse – que me acenas com o teu corpo e em teus passos me arrastas cego sem que os veja seguros e meus traços. – e nem sequer depois, tantas vezes, queremos ver, a verdade.»; tomo sempre o cuidado de não parecer amarrado e murmuro como se perguntasse, à maneira de um “apesar de tudo”: «sigo-te ao entardecer, assim tentando pendulado seguir-te os passos em fim de tarde, ser escravo sem remediar, sem rapina, sem derramada, seguir-te por efeito, sem defeito tão-somente a ti colado.»
“
© ricardo biquinha, in “um quase nada”
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