busco o lugar onde semear o amor, o meu amor apátrida vagueia vagamente indigente e cego. à minha frente as mil e uma léguas por sofrer na sofreguidão das areias. atrás de mim os ventos ruminam a ruína dos tempos. sinto no estômago o vórtice da vida mendicante, peço amor ao amor que me margina, sem que ao longe as nuvens congeminem monções. nenhum lugar me parece perfeito para despir o pó da viagem. nenhum lugar tem cascatas bastantes para me banhar contigo, nem as águas caem eufóricas sobre o selo do silêncio. queria-te num lugar onde só os olhos pudessem falar, não as bocas, nem as gargantas que, essas, de secas sucumbem sempre. nem as palavras nos satisfazem, são escolhos trôpegos atravessados nas bocas, eu e tu somos uma torre de Babel que alcançou apenas o rasto das estrelas, mas não se organizou para as absorver no corpo. isto porque as línguas fulminantes trajam tropos e as paredes desmoronam sem ogivas nem arcos resistentes, porque é imensa a área sensível da pele que a torre acende. só as nossas mãos estendidas nos circundam, só o barco imenso que navegamos em torno do amor sustenta o reino utópico do sonho. e como são fortes as veias válidas da tua carne, o rosado da tua tez, a tácita timidez da palavra, a doçura arredondada do teu olhar que, meigo, margina e sustém o meu lado da torre. do teu vêm corvos insistentes, parados ficam no meu lado, como se fossem gente. então eu sei que a nossa Babilónia dispensa o rumorejar das vozes e a rispidez das línguas vigentes. sabemos onde colocar a pedra seguinte. sempre soubemos fundear e sílaba e assentar as fundações, ao escavar nos escombros do silêncio. hoje a torre gravita à minha volta, e eu apenas sei que o meu lado é em frente, em círculos à volta do presente, no sentido único do teu olhar, na direcção dos ponteiros do tempo, a lateral sombria do teu corpo. diz-me, velho guardião da torre, como construímos o andar seguinte desta nossa altitude maior que ainda não nos alcançou dentro, nem inundou com a azul das estrelas a nudez dos nossos corpos originais, do pecado e da dor ainda isentos.
Olá Maria José, só os olhos sim, só eles cruzam a máscara de pó. E eu fiquei tão contente pela tua viagem até aqui!
nenhum lugar é perfeito. o pó da viagem, em camadas, é uma máscara que nos deturpa.
só os olhos.