Serena Lua
Vogo sem rumo entre a espuma dos dias e o luar azul dos sonhos. Escrevo-me numa neblina de palavras, rasgando as noites brancas e as claras madrugadas...
the morning stares - going home
Domingo, Junho 24, 2007
Poesia

Gostava quando as palavras caíam do cimo do céu como estrelas cadentes e acendiam serpentes no meu seio. Às vezes o meu olhar estalava de espanto e respondia com a voz mergulhada em profundas raízes desconhecidas. Foi quando senti a luz das palavras e percebi que há fortes ligações entre elas e a vida. Antes do primeiro impacto eu via apenas meras palavras nas palavras. Serviam para falar, diziam o mundo e era fácil acreditar na fidelidade das palavras. Depois passei a encará-las como recados da natureza, ou do amor. Guardava as palavras em pequenos cofres, como se fossem únicas e irrepetíveis, perdi-os em dilúvios vários, incêndios passionais. Depois vi que as palavras podiam ser precisas e cortantes como mão de alfaiate a desenhar os fatos da moda. Vestidas de organzza ou seda ou linho ou caxemira, as palavras não permaneciam muito tempo no palato. Fugíam-nos. As palavras podiam ser apenas um caminho assinalado a rosas. Um caminho para a morte. Estudei as palavras e separei-as como naipes. Havia palavras em jogo e palavras que jogavam por nós o jogo das almas. Perdi algumas palavras importantes e os jogos todos que jogava. Algumas jogadas foram minhas e ganhei-as nas palmas das minhas mãos cegas.  Recolhi as fichas ganhas e troquei-as pelas palavras indispensáveis, as que uso junto ao coração, cofres de coral, nas fundações do sangue. Lá dentro a paixão, intocável, intensa. As palavras e eu formamos uma espécie de domínio, rodeado de altas muralhas, paredes grossas e frágeis ferrolhos, uma cidade secreta entre montanhas de eternas neves e um deserto de lava substância. Recolhi-me entre palavras, esperando que um dia elas chegassem ao ritmo da pulsação e se me fizessem o rio do sangue. Eu e as palavras vivemos densamente fundeadas num lago sem mistério, afogo-as entre os dedos, já não as interrompo, quero-as ancoradas nas areias, as palavras têm vida, movem-se pelo meu corpo, respiram-me na fala, as palavras colam-se na pele, as palavras têm gente dentro, as palavras são belas e eu tenho medo que um dia, inesperadamente, as palavras me sucedam e me devorem o corpo como vermes.

Assinado por: aziluth • 02:49 PM • (0) Comentários

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