Serena Lua
Vogo sem rumo entre a espuma dos dias e o luar azul dos sonhos. Escrevo-me numa neblina de palavras, rasgando as noites brancas e as claras madrugadas...
the morning stares - going home
Quinta-feira, Novembro 16, 2006
Poesia

a casa situa-se no verso recitado, dantes, a viva voz. ler a casa é recitar o verso de frente para trás no fio condutor de qualquer memória.  os objectos são sobreviventes de todas as análises compulsivas feitas ao espelho da mente, reflectidas só na imagem do tempo em que os arrumas em lugares sempre diferentes.  procuras revirar o pó que receias vir a cobrir-te na morte.  mas tu habitas o inverso da casa e dentro de ti está já o reverso de tudo. o sofá alonga-se para te receber múltiplice no pensamento e nos corpos com que te debates, e ainda todos os que te sangram no ventre.  logo tu és o teu próprio inverso e eu no teu verso serei uma possibilidade de reverso do que sou, face ao que és. é natural que me tenhas passado a ciência narrativa, que solenemente aceito. serei um narrador omnisciente que só conhece o inverso do verso e se passeia no teu reverso, desfragmentando as lacunas do teu ser controverso.

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Quarta-feira, Novembro 15, 2006
Poesia

Havia na noite um covil de almas
uma fogueira de ciganos apagada
um respirar de feras inflamadas
e o jugo intermitente dos chacais

Havia na noite um êxtase lunar
um afagar de corpos desnudados
mulheres incandescentes e sombrias
sexos afagados - pura aleivosia

e havia uma caverna de Platão
um choro de criança entrincheirada
e o sonho era negro e inacabado
e a vida uma imagem desfocada

A luxúria dos deuses - casulo vazio
com seus cálices, seus corpos frágeis
seus risos de chuva seus olhos voláteis
seus frémitos de prazer selvagem

Mas uma serpente de ouro no seio da terra
veio iluminar todos os escombros
e uma nova Atlântida emergiu do mar
trazendo aos homens um novo assombro

Era uma alazão azul, um belo unicórnio
um feitiço digno do velho Demónio
o crepe, a seda o linho na noite fria
os corpos alvoroçados de alegria

E o amor tremeu nas mãos dos homens
os afagos a suavidade das palavras
os murmúrios encheram as manhãs alvas
e a noite das bestas agonizou nas calçadas

As cidades choraram de tanto espanto
o silêncio incendiou a solidão e os amantes
esses seres celestiais que a noite encanta
provaram a doce maçã da tentação

Desde então seremos anjos desnudados
e há sob os nossos pés as rosas e os espinhos
a febre a sede a fome e o desejo ardente
de um corpo em nós impresso eternamente

6 de Maio de 2004

Assinado por: aziluth • 09:08 AM •
Sexta-feira, Novembro 10, 2006
Poesia

Demoradamente retenho o tempo dentro, entre portas o tempo invade a sombra e a luz, no enquadramento único do real que me detém, perto ou longe demoradamente entro e fico ali, à entrada da tela onde reluz a sombra das horas a vir. Não me resta a opção de entrar ou de partir. Vivo na tela que um génio incógnito pintou, habito-a como forma ornamental de vida a ocupar o tempo como corpo que me seduz. Às vezes vejo nela um ponto de fuga a visar o infinito e fujo, apanho o comboio que passa no olhar, um apeadeiro ocasional - talvez breve - e sigo na carruagem com a insconsciência de quem se conduz sabendo-se conduzido. Escolho um assento virado para a frente, nunca fixo a paisagem que se esvai lá dentro, sem nunca atravessar os vidros para sair. Demoradamente o tempo é uma paisagem veloz, alucinante, lúcida como a estação para que nos conduz. É uma estação que apodrece os frutos e as flores e os átomos e só deixa ficar a luz da forma que fomos. Mas entre a estação seca e este momento único, porque irrepetível, da minha escrita há ainda um ritual a desferir na paisagem. Dias brancos, noites poetas, manhãs ternurentas, nascidas da branda luminosidade do sol que venha. Na textura da tela anunciam-se relevos incipientes, como as rugas dos sorrisos nessa demora das mãos sobre a pele e as palavras belas a reabilitar da obsidiante noite escura, o despojar de tudo nas mãos que se estendem, a banda sonora das gargalhadas, dos sublimes momentos de ternura todos demoradamente prontos a renascer no branco dos minutos.  Demoradamente na tela, fico. Um turbilhão de luz no ponto de fuga que busco e… partir é ficar a adiar o abismo onde submergem as rosas de todas as cores nascidas antes ou depois do tempo. Demoradamente sinto que há elipses presentes que não visitei ainda no futuro. 

Assinado por: aziluth • 10:09 AM •
Quinta-feira, Novembro 09, 2006
Poesia

Foto de Fernando Figueiredo “O Espirito da Memoria -III”

Imagina que a memória é o espírito e que o espírito é uma espécie de memória fatiada em camadas sobrepostas sobre o real que te habita. Imagina que ainda guardas o tic-tac do relógio na extensa aula da infância ou o sugar sincopado do teu filho no teu seio, ou o rumor da primeira chuva que se te interiorizou pelo telhado; imagina que sentiste o que a seu tempo foi sentido e o recordas sentidamente nítido. Então concluiremos que tudo que faz de nós o que somos é uma e a mesma manifestação desse espírito e que este não passa de memória em catálise permanente. Se assim pensares verás que o ontem e o hoje são ainda o agora e que afinal se uma memória persiste é porque é uma manifestação da divindade única que foste ao vivê-la. Assim sendo, tudo que sentes que sentias e sentes que ao lembrar ainda sentes, mas te parece memória, é tão somente aquilo que és presentemente, nem mais nem menos.

Assinado por: aziluth • 11:16 PM • (0) Comentários
Sábado, Novembro 04, 2006
Poesia

GUSTAVO ADOLFO BÉCQUER, poeta sevillano, (1836-1870)

Um poema de Bécquer: “La gota de rocío”

La gota de rocío que en el cáliz
duerme de la blanquísima azucena
es el palacio de cristal en donde
vive el genio feliz de la pureza. 

Él la da su misterio y poesía,
él su aroma balsámico le presta;
¡ay! de la flor si de la luz al beso
se evapora esa perla.


... respondo-lhe com uns versos antigos:

Que dizer do amor na boca dos poetas?
uma flor insensata rompendo os lábios
uma palavra deserta criando gente?
a alma oprimida criando espaço?
mãos que se estendem num doce abraço?

Que dizer do tempo no olhar dos poetas?
pequenos cataclismos de cores diversas
um mar imenso um mar de giestas
manhãs de aromas, luas perversas
a noite os toma e o dia os cerca
a morte os leva…

Que dizer do sol no corpo dos poetas?
uma capa de luz cheirando a erva
a sintaxe que brota no chão da serra
palavras quentes que a boca doura
e o outono cresta

Que dizer da paixão na alma dos poetas?
um grito de solidão numa ilha deserta?
Não. Uma forja de metais em puro estado
um magma de flores incendiado
uma rosa aflita procurando o sol
uma palavra teimosa querendo descer
na neve astral das coisas por viver

Assinado por: aziluth • 09:38 AM •
Sábado, Outubro 28, 2006
Poesia

Prince Valiant de Harold Foster, (1892-1982) Dessinateur canadien

As crianças dormem
serenas em seus sonhos
A noite amornece sem gritar;
abre-se algures um luar
transido de betão
e no silêncio crepitam luzes
de uma outra margem por alcançar.
Somos pontes
e o mundo abeira-se de nós pelos seus arcos,
como os gemidos do vento hoje cálido
e nenhuma nuvem se sente perdida,
porque é imenso o dossel
azul do céu,
onde as estrelas sonolentas
quebram o som da cor
e desenham sabores,
arabescos no firmamento,
um vento que já não sopra no deserto,
mas aflora
em brisas de luar o coração menino,
cavalgando por magia e em tropel
um bravo Cavaleiro da Dinamarca
feito em dobras de papel…

Assinado por: aziluth • 11:58 AM •
Terça-feira, Outubro 24, 2006
Poesia

nem epicurista, nem estoica, nem panteísta, nem céptica
a vida é o ser e o ser é a essência da vida, logo
tudo que digas é apenas uma manifestação
não epicurista, não estoica, não panteísta, não céptica
mas a busca de uma ataraxia onde nem Lídia te pressinta
ao passear distraidamente o corpo efémero
à beira de um rio, de magnólias à cintura

Respondes-lhe :

“Azuis os campos que estão longe param.
De eles a mim o vário campo ao vento, à brisa,
Ou verde ou amarelo ou variegado,
Ondula incessantemente.
Débil como uma haste de papoila
Me suporta o momento. Nada quero.
Que pesa o escrúpulo do pensamento
Na balança da vida?
Como os campos, e vário, e como eles,
Exterior a mim, me entrego, filho
Ignorado do Caos e da Noite
Às férias em que existo”
(1)

“Temo, Lídia o Destino. Nada é certo.
Em qualquer hora pode suceder-nos
O que nos tudo mude.
Fora do conhecimento é estranho o passo
Que próprio damos. Graves numes guardam
As linhas do que é uso.
Não somos deuses: cegos, receemos,
E a parca dada vida anteponhamos
À novidade, abismo”
(2)

(1) e (2) Odes de Ricardo Reis

Assinado por: aziluth • 08:12 AM •
Domingo, Outubro 22, 2006
Poesia

Ando para entender a chuva como
coisa que desenha esta nostálgica brandura
um sacrário de água inteiramente seco de lágrimas
sensações de seda suaves de silêncio.
Leda a voz da chuva nutre a doce melancolia
das janelas embaciadas dos rios, quando
em tardes de linho se tecem os minutos
no tear dos corpos e os olhos navegam altos,
cortam a aguarela do céu, fendem nuvens
e elementos e no vento ousam seguir
o rumo exacto das gaivotas.
O tempo retrai-se em cavadas reentrâncias
despojos de espuma em dia de tormenta,
a ousar abismos que afinal são o esvaziar
total das águas presas.
É assim que se produzem vendavais
de palavras frágeis exímias no prazer
dos corpos antes da bonança.
É assim que cruzo a chuva e conto as ondas
que hão-de vir. Na sétima virá transcrito
aquele que sulca o meu corpo-mar e virá vogando
ao sabor do desejo, filho da bruma e do vento.
E eu serei praia e areal que o recebo e reinvento
como chuva apaziguadora da volúpia e do medo.

(Manhã de tempestade
de 13 de Abril de 2003)

Assinado por: aziluth • 01:18 PM • (0) Comentários
Domingo, Outubro 15, 2006
Poesia

Litografia de Marc Chagall

esta rosa que vos guardo
é, senhor, a rosa do meu sangue
donde o silencio me escapa
em finos feixes de luz

esta é a longa rosa dos meus dias
langorosa e frágil nas suas pétalas irreais

Assinado por: aziluth • 10:34 PM •
Sábado, Outubro 14, 2006
Poesia

Retrato de Angelina Beloff, 1918. Óleo sobre tela, 114 x 146 cm. Diego Rivera. 

Escrevo porque a mão não
colheu ainda a inércia do
pensamento em fuga.
Escrevo porque um barco
não pára quando se quer
nem quando as águas
se fazem lisas de morosas
paradas de profundas.
Escrevo num movimento
de propulsão alheio ao
pulsar do sangue. Escrevo
sem paixão, sem desencanto,
sem saudade, sem magia,
sem sangue alucinado
ou sombra de sofrimento. Escrevo
porque sim, na indiferença
dos tolos, no cinismo dos
vis, no inocência dos
rabiscos infantis, que nada
dizem a não ser à mão
que os fez. Escrevo porque
há um livro branco e um
álbum branco de faces
e sorrisos e outras coisas
brancas que ficaram por
revelar. Escrevo porque há
uma câmara escura
a aprisionar a espuma
branca das ondas que não
chegaram ao areal.
Escrevo porque há um
silêncio nos meus dias e
é de algodão o seu toque.
Escrevo porque não quero
branco o dia de hoje, branco
sendo já o manto do céu e
branco o meu pensamento.
Escrevo para encher o vazio
que a bruma deixará em
branco ao levantar. Escrevo
porque brando é o sol e
brando o dia. Escrevo porque
escrever é desassombrar
a morte ao queimar friamente
a branca essência da poesia.

Assinado por: aziluth • 11:46 AM •
Domingo, Outubro 01, 2006
Poesia

o jogo é o gesto
o gesto é o jogo
a peça a queda o prémio
a luz a parada cega
no tabuleiro do rosto

em cada novo lanço
jogo a cegueira que não tenho
e empenho a lucidez que escondo

Assinado por: aziluth • 12:54 PM •
Sábado, Setembro 23, 2006
Poesia

Pintura de Graça Martins: 

mais bela que a nuvem
só a sua imagem reflectida
num lago de veludo
fragmentada em moribundas
sombras a imitar o mundo
porque no inverso dos sentidos
mora o sentimento mais puro
uma praça azul com pombas mudas
e uma fonte distraída
na sua esgotada imagética
os símbolos bebem-se devagar sem pressas
para não se injectar uma overdose
de luz na pele

Assinado por: aziluth • 11:22 PM •
Segunda-feira, Setembro 18, 2006
Poesia

no dealbar do tempo erguemos já a chama
uma tocha acesa nos jardins celestiais
há-de aquecer-nos nos braços do inverno
com doces tisanas de ervas existenciais
entre luas ardentes, sonos glaciares
somos lobos mendigando a palavra na
desértica estepe do olhar

confio-me ao regaço da noite e
em tua intenção já desdobro o meu fiar
és o fio condutor da matéria inorgânica
cobre, zinco, lã, linho, sisal
as linhas que sabemos ambos entrançar
e se entrecruzam em poeira sideral
um destino oposto e porém simétrico
o ser e a sombra - a presença que vive na
íris oculta da alma
e nos ingere lentamente como uma bela flor
de raiz carnal

pois que assim o queres
aqui decido, meu amor, que te terei
brevemente
com a voracidade de um estrela extinta
na compressão da matéria final
serão de filigrana as dobras do meu lençol
onde a paixão nos há-de enfim avidamente
amortalhar

Assinado por: aziluth • 01:58 PM • (2) Comentários
Sexta-feira, Setembro 15, 2006
Poesia

Pintura de Turner: “War. The Exile and the Rock Limpet” - exhibited 1842

reúno nas mãos búzios, conchas, pedras e corais
em cada maré que vem da outra margem
faço um colar de dias, dádivas irreais
e o tempo é o fim único da existência
admiravelmente fresca de sombras
e luzes outonais

visto a neblina de Turner no laranjal
do poente - a beleza fugaz do exílio
dentro de cada um de nós - talvez
sem tempo para respirar devagar o corpo
o olhar enamorado a radiosa foz

Assinado por: aziluth • 11:31 AM •
Sexta-feira, Setembro 08, 2006
Diário

O dia reclina-se para a noite com cavalheiresca bruma. É a hora em que pousa a vida, por entre o espanto das gaivotas, desprevenidas em terra por alguma tempestade pressentida. Ouvem-se os rumores da metrópole longínqua, sirenes, travagens, buzinas, um comboio que passa, um avião, vozes de garotos, sinais do mundo em que agora te refugias, porque desaprendeste o vento e vestiste a negra capa da banalidade, como quando um homem caminha e escurece na própria razão que o habita. Para mim, podia ser apenas mais um dia que termina, mas hoje o tempo rasgou dois faróis nesta vaga neblina, mostrando o portal que leva à terra dos sentidos.

Talvez ainda encha de novo a taça para te saciar de luz. Talvez as forças intemporais me soltem os cabelos e me levem até ti, surpreendido a meio de um gesto, por uma qualquer forma, imagem, ângulo vazio, ou tela simples, um esboço, uma palavra isolada, uma inflexão de voz sozinha na estrada. Quero soltar os cabelos para ti, soprar a poeira do dia, contratempos e demoras, mergulhar no gelo, no riso, nas lacunas da memória que tu preencherás com as tuas mãos nas minhas, para sentir na tua cor a marca de água que teremos deixado porventura em nós um dia. Depois deixarei que brandamente me prendas o corpo na gravidade tua, coladas faces, cegas as mãos trabalham contra os minutos as horas e os dias, paremos agora de girar, os ponteiros decidem a cadência única da entrega, o gelo nos dedos em cálida carícia, já rendida a música inunda as velhas termas e nós voltamos ao nosso tempo, para nos perdermos num corredor de ecos profundos… talvez dancemos, talvez rodopie apenas o mundo ao redor, ou nos rasgue o corpo um lancinante acorde de saxofone - a alma que desperta e corre para o lugar onde suspendeu o sonho, cadeiras de bambu e um livro de poemas, a minha bebida esquecida sobre a mesa. Talvez a beba até ao fim, talvez a faça descer por dentro do decote e imagine que estás aqui.

Ouves este oboé rasando o vento?  O espumante efervescente na taça esguia, a cintura que se oferece a mão que a guia?  Os passos que se afastam, o esmorecer da música? É o nosso universo onírico que regressa, as velhas termas, as palavras que cicias e que as paredes absorvem ciosas de embriaguez e de poesia. Podes encher de novo a taça. Esta estava pouco cheia. Bebi-a.

Assinado por: aziluth • 06:43 PM •

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