do fundo de um corpo
sai sempre um grito
como a lagarta sai
duma maçã quase serôdia
mas tentadora na sua
flora esplêndida
viajas através de mim
oculto no vagão do sonho
e como passageiro clandestino
ocupas um leito vago
sem pedir licença ao mundo
e assim o sangue escorre
na via láctea do meu corpo
com as tuas marcas rubras
como sevícias de lobo
a sulcar a carne
a lavrar a nuca
sempre para a foz do dorso
até aos caminhos que
se cruzam no meu ventre
quando no teu desejo
te derramas sobre mim
demente
aos lábios por vezes
o pensamento assoma como
no horizonte um barco
e no poema a dor pungente
é um ciclo de penumbra
que se acende num instante
e ilumina a cidade escondida
aos cantos da boca
revirados como vírgulas
vê-se a curvatura do medo
na tiara espantosa do horizonte
como se todas as verdades
flutuassem à boca da noite
a desaguar numa ria de incertezas
amputadas pela lâmina da mente
se as não soltas como clave de sol
a abrir os claustros do silêncio
formam talvez um arco de desalento
nos lábios onde se esculpe o que sentes
por isso o que pensas e não dizes
bem podia ser como o silvo das garças
que nunca leram silogismos, mas
reconhecem a transparência das águas…
Parte I
As palmeiras oscilavam como plumas nas mãos de escravos indóceis e o vendaval varria incansável o areal da praia. Noite de demónios soltos nos caminhos, escuridão eterna na face obscura da noite sem lua. Rugia o mar invectivando as rochas e o temporal penetrara-nos a fundo nos ossos e sentidos. Barcos apitando nervosos entre as vagas, a barra sul com seus baixios e o farol amigo do Bugio, rodando sereno na sua voz de silêncio. E em terra a esperança de um abrigo, um sucumbir à tempestade num sono frio de pesadelos e lutos pressentidos.
Por isso, porque naufragava um barco perdido no meu peito, antes de chegares, tomei no bar um leve aperitivo. Lembro-me do olhar recolhido, o medo do mau tempo, a excitação de te esperar e a raridade de me encontrar naquele hotel, tão indefesa construção frente ao mar. Recordo-me que o empregado me cerzia os olhos dos seus, curioso de uma mulher que espera um homem, para mergulhar com ele naquela noite de breu, num pacato hotel à beira de um mar encrespado. E eu com a noite no ragaço, ruborizada de antecipação com aquela sensação de nudez no estendal do olhar, nívea de vergonha pela exposição óbvia do meu sentir. Entretanto o tempo era um relógio sem corda pausado e lento na cadência absolutamente louca das vagas contra a costa. Então, a meio do meu aperitivo tu chegaste.
Enlaçaram-se os olhos na fita colorida do sorriso e as mãos unidas. Palma a palma a textura ressequida no reconhecimento da pele. Éramos os amantes do vendaval. Não havia susto nas nossa pupilas, mas apenas o lustro do mais puro ardor nos varria o olhar e uma coisa indefinida, rolando pelas pálpebras no pestanejar dos olhos. Algo como um rubor de ternura, a vontade de um abraço mais profundo que o negro oceano, mais forte que o rumor das vagas nos rochedos.
Subimos, conversando muito pouco e pouco calmamente, atropelando palavras, respirando olhares com aquela inexactidão dos amantes que ainda o não são, mas que levam um abraço no horizonte dos seus passos. No elevador premiste-me contra o teu corpo, e não foi de ternura apenas ou de desejo o teu enlace, foi da urgência de nos sentirmos e nos tocarmos como reais para além do sonho, sentindo o volume dos corpos, as suas curvas, os seus contornos desconhecidos, como exploradores que abarcam a montanha a escalar.
Quando entrámos na nossa intimidade de uma noite, o meu corpo era já teu, aladas as tuas mãos no meu pescoço, nos meus seios, no meu ser de carne e osso. E eu ria, ria nervosa, com aquele riso em cascata que acende mais e mais o desejo, mas por um momento parei e senti o magnetismo do teu olhar em mim seriamente posto. Ficámos assim por um segundo, um mirando o espelho do outro, prisioneiro da sua imagem, lendo-se no olhar à sua frente. E nesse instante mágico, soubemos que o abraço era inevitável e durasse embora a
eternidade de uma vaga, seria o mais forte abraço dos nossos maduros dias.
Parte II
Leves teus dedos sobre o meu peito trémulo. A pele encrespada como as ondas no vendaval, o frio intenso, o rubor febril das faces e aquele vento rugindo nos teus olhos… Eu nua no horizonte do teu corpo, a madrugada longe ainda, a despedida ancorada na eternidade do momento que sabíamos roubado à corrente dos dias.
Fomos de súbito apenas pele contra pele, a sede daquela seda de dois corpos que se reconhecem de alguma plataforma etérea do tempo em que não foram, não existiram, e no entanto eram já sombras da doação de si. Como lança aguda em suave ferimento, havia uma chama que doía e reacendia a geada inerte do corpo que renuncia ao derradeiro sopro, porque uma música inaudível cobria a crispação do olhar que não via mas ardia nos meus seios, nos meus lábios os teus dedos febris, tuas mãos na minha cinta, a seda que sou em trapo finda e de novo acetinadamente lisa…
Brandamente, em sonhos seguia a cor que guia a tua mão na clamorosa espuma do meu ventre, onde se espraiam outras fontes, onde se despedem outras algas e o toque se faz música por demais dolente. E assim, loucamente apaziguámos os solstícios no vendaval dos meus seios, na curva serena do teu dorso ameno, na levitação prodigiosa dos sentidos, esse silêncio feito de palavras emudecidas de prazer. E a madrugada estava de súbito a nosso lado, na nossa cama ocasional, a meio dessa vigília sonolenta da suspensão do desejo.
Poderia o mundo perder o seu viço violeta, ou os imersos ciclos das estações, que nunca, nem nessa noite, nem no dealbar do tempo, a seiva partiria dos nossos corpos emergentes, essas frondosas fontes de prazer, mesmo que agora ausentes, e dissolvidas naquela magia de um amargo nascer de sol…
Alguém gritou pelos amantes e a lua crispou-se de sol em seus lamentos, desaparecendo no dia povoado do espanto das gaivotas. Partimos.
E eu deixo fluir do meu olhar a lágrima derradeira nesta aragem quase quente de muitas luas volvidas, neste regresso a um sentir que foi candeia, xisto, barro, mármore amadurecido…
Os nossos olhares voltariam a ancorar 20 anos volvidos e nós ainda prisioneiros do impossível. Rimos impavidamente emocionados, no meio daqueles cujos destinos abraçámos… E tu ainda pudeste ciciar-me, numa curva inesperada do tempo dos olhares: Sabes, eu nunca consegui esquecer-te…
Seremos, meu amor, os amantes do um vendaval que haverá de perdurar para sempre na reentrâncias mais recônditas da nossa memória e esse mar dos sentidos banhará para sempre os nossos corpos, enquanto durar a floração perene do tempo a vir… Nunca saberei por que não guardei o teu cartão… Não quero, talvez, perturbar a voz da tempestade…
por hoje apenas
abre o diário e lê-me
rasga-o e possui o que resta
do que foste
há que alcançar a outra margem
um dia de cada vez
e emergir da escuridão
com um resto de fôlego
aspira as razões
que apedrejaste num
lago sereno de nenúfares
folheia a dor dos cisnes
no veredicto do meu corpo
cismo quando escrevo a
intimidade dos sons
murmurados na nuca
com um beijo
domestico o fogo sobre o gelo
na dança do teu olhar
agora cego
não há prodígio algum
no milagre da multiplicação
do desejo
Que o silêncio se faça
ave migratória
que nasce e renasce
e se conforma
a esse pulsar da alma
estrito e belo que alumia
os passos longínquos
em noite negra
na nossa ilha esbelta
silhueta de sombra e luz
e de tormenta
que nos conduz à salvação,
ébria vitória sobre o medo
e a oferenda inútil
de nós mesmos.
Que a noite se feche
sobre o silêncio
aberto ao grito atroz
das feras soltas
e nos livre novamente
das nossas línguas
argutas
foneticamente
gritantes de loucas.
sei quantas impressões
repete o tempo
em passagens de tinta indelével
sépia talvez
na celulose da pele
a superfície
onde se imprime a dor do sol
ou aguarelas sonhadas
de navios costeiros
a rumar
sem rumo no cais do desejo
quem sabe
quantas fustigadas areias
apagam lumes
no interior dos poemas?
que sismo agita
as ruborizadas flores
do cume dos seios se
um corpo
é uma marca de água
no olhar de abrigo
nada mais que uma enseada
virada para o tempo
perdido?
Dentro desta luz branca
a clausura do desejo
um círculo de pertença
em movimentos íntimos
do pensamento
como um habitáculo estreito
onde só estamos nós
e o corpo
num silêncio (im)perfeito
que perdura até à
morte do tempo
Na caverna de Platão, cada vez mais o mundo de Sofia, (1) se reveste de sombras iluminadas por uma estranha claridade, daquelas que fizeram das trevas medievas o irrepetível século das luzes. Agora tudo lhe parece claro e cristalino como a rocha que lhe marca o rosto e a reveste das intemporais rugas de todas as mulheres de todos os tempos. Sofia lê no atrito o movimento curvilíneo do pensamento. Todas as erosões minuto a minuto registadas no universo terminam e crescem do mesmo ponto. Um ponto único num espaço de escuridão iluminado pelo brilho da clarividência. O verde agreste da animalidade? Lince? Leoa? Animal acossado que se estende pela flora da encosta, esmeralda orgânica onde os seus olhos se camuflam e espreitam o movimento de rotação da terra na inversa ordem dos seus dias. Animal que cria as crias do tempo e as nutre de palavras, parco alimento para mitológicos seres vestidos do verde das ramagens. Palavras que reúnem os pedaços das vidas de todos os animais e de todas as crias que se interceptaram no espaço tempo sem um único objectivo para além da procriação cega, onde instinto e paixão são lâmina da mesma adaga. Palavras que celebram todas as cópulas de todos os tempos, todos os ciclos de cio e recolhimento. Palavras que alimentam o acto de amor que se produz no escuro dos tempos entre olhos e mãos que não se tocam e no escuro se sentem. O pensamento e a palavra. E porém o animal…
Sofia percebe finalmente que entre as filosofias que o homem inventou para explicar o Ser apenas uma tem a luminosidade das trevas e a incoerência da luz. Nunca nascerá em toda a criação um bicho igual a outro bicho, fera igual a outra fera, homem igual a outro homem e nenhuma consciência iguala a (in)consciência simples de SER, uma solidão astral na procura da satisfação própria, comum a toda a espécie animal, leoas paridas, bichos rastejantes, éguas em cio, aves emplumadas, serpentes bífidas. A caverna onde repousam as ideias é um labirinto vazio e oco onde rastejam apenas os bichos que não distinguem sequer a luz das sombras.
Sofia sabe agora que, apesar das feras que o habitam, é ainda no homem que a natureza assenta as pedras monolíticas do pensamento e porém a fragilidade do seu sistema. Homem algum pode extravasar a sua própria essência, por muito que a caverna sombreie a consciência de quem aí viva e como sombra múltipla se imagina e aos outros como tal incensa. Reduzida a um arquétipo, resta à pessoa humana a busca da individualidade possível no rasto indelével da sua imagem felina. Uma leoa parida que vasculha no restolho o odor das suas crias perdidas. Mas, tal como a inocência de Sofia, já as feras partiram para tão longe quanto os últimos redutos da (in)consciência do homem lhes permite…
(1) inspirado em O Mundo de Sofia de Jostein Gaarder, Uma Aventura na Filosofia, Editorial Presença
lá longe a noite branca
onde as constelações parecem
leves pombas
no centro da muralha incendiada
o último vendaval
que acometemos de riso
e a cinza desse olhar
parece o pó luminoso
das estrelas doutros reinos
breves cisnes langorosos
no lago dos violinos
quebrados remos e o barco
por entre o gelo
cortando
refundindo…
agora é o tempo do silêncio
o tempo que esperas
sem saber que apenas traças
linhas paralelas
sentidos, apeadeiros,
na rota cega
rumo ao ao destino
atrás do nevoeiro
agora é tempo
de rasgar as sombras
procura um lugar
entre viagens sem regresso
dessas impressas
nos trilhos que escutas para
lhes captar
o silêncio
e verás, meu amor,
tudo permanece
imperturbável como a
superfície lisa do tempo
até a memória se abrir
no lugar onde nos apeámos
só por um momento…
Vogo sem rumo entre a espuma
dos dias e o luar azul dos sonhos.
Escrevo-me numa neblina de
palavras, rasgando as noites brancas
e as claras madrugadas…
Neste caderno dos dias conto as horas
os minutos, os silêncios e os sonhos
colho as rosas resgatadas da memória
em tantas luas adiadas tantas vozes e desejos
reencontro o meu olhar aceso
onde há astros navegando no silêncio
serenas luas, navios, faróis perdidos
no tempo…
Nomeio uma a uma a cor das sombras do luar
escrevo para entender quem nelas vejo remar…
Assim abro este livro azul lunar que espero
dê conta de alguma serenidade, precisamente
o que aqui venho procurar…
Não sei se é poema
Mas sei que se escreve na pele
Se sente na pele e se diz com o corpo
Não será poema
Mas tem a tua voz
Essa inflecção suave de astro louco
com os teus olhos caminheiros
acesos na maré dos sonhos
Palavras serão intermitentes
Como o farol sereno que me leva
A navegar em águas doces
Na entoação do teu nome
Como se palavra fosses
Diz-me
como poderia ter rima
Se não tivesse luz
O cristal puro das estrelas
A lua incandescente nos meus seios
A espada que reluz na escuridão
E fere e mata e luta e espanta
Estas sombras que cobrem as palavras
As palavras…
móveis cobertos de panos
Como janelas abertas para o espanto
Destapadas certezas que afagamos
Aquela serra onde nos vemos
Um mar de verdura no olhar
O corpo intenso o bosque astral
E as mãos?
As mãos a lavrar o corpo
Até à foz do desejo…
Não, na verdade
Não sei se é poema
Embora arda na seiva dos dedos
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