Pintura de Brenda Harthill
Heavenly Bodies with Moonstruck Lovers
Collagraph with silver leaf in collaboration with Mychael Barratt - 76cm x 60cm 30” x 23”
S i m p l i c i d a d e
Simplicidade somos nós fugazes no tempo
trocando mãos e suaves afagos, bebendo
o riso louco das nascentes em fogo fátuo
Simplicidade é tudo que nos veste para o amor:
a cama breve, a cambraia dos teus dedos,
o meu riso sem inocência, a tua voz enrouquecida
São os meus sonhos peregrinos, descalça em
chão de lírios, pétalas pisadas pelo meu corpo
dançando em toada muda à beira do teu fascínio
São as palavras novas que nos oferecemos
e em cálice de sagrada líbido, as bocas impuras
nos bebemos - travo de imensidão e doçura…
São as carícias que trocamos em dedos de
cristal fino; os lamentos do vento em noites
de prodígio; as madrugadas em pedra refundida
Nesta simplicidade das rosas desfazemos
os fios enredosos e as lianas da selva de
candelabros onde tocam trémulos violinos
E nessa simplicidade a poesia vem sedutora
como lágrima que se foi, um suspiro que cessou,
um gesto de amor que recôndito se recria
Ah, quando partes, amor, vem a poesia…
ATÉ 2007! BOM ANO NOVO PARA QUEM PASSAR!
(há uma musiquinha, ali à esquerda)
as palavras são como as flores,
alguém as planta, alguém as nutre
alguém as corta, alguém as junta
e dispõe conjuntivamente mortas
como aves frescas já defuntas…
perdoa-me as flores secas que ressuscitei
e não viste nascerem na tua boca
A geada cai paulatinamente em todos os telhados, mesmo no casebre onde mora o primo Vitorino sozinho com o seu cão e o fundo virgem dos olhos velhos, ainda belos e celibatários. Esta noite não o conseguimos arrancar à torpe realidade da casa familiar, derruída, desertada pelos sete irmãos, ninguém vem passar o Natal com o Vitorino e ele prefere ficar no local donde só sairá para onde tem de ir, trabalhar, o primo Vitorino só aprendeu a trabalhar, não sabe nada do mundo nem nunca teve tempo de conhecer mulher, ocupado a criar tantos irmãos, que vida a tua, que vida a tua, mas ele não quer saber, há pessoas que às vezes não querem ver o sol para não ficarem depois a querer vê-lo mais dentro. Nós insistimos, Vitorino, as filhoses, o vinho doce, aquele ponche que te fez rir no ano passado, o nosso calor nas tuas mãos calosas de calceteiro da vida, não o Votorino prefere mergulhar o olhar numas sopas de couves e lembrar os pais e a malga comum donde dantes todos retiravam o seu quinhão de consoada. Levo-lhe um bandeja com iguarias, poucas, as que o nosso Natal permite e volto. O cão anima-se e bate a cauda, o Vitorino sorri, mas não me vê.
Estamos todos na casa grande, nós, uns são ramos de outros troncos, outros troncos de outras árvores, mas estamos todos ali porque o tio está a morrer. Nós sentados à braseira da grande camilha aquecendo a ideia de Natal, o menino Jesus a nascer longe dali e o tio a morrer no quarto ao lado, tão perto, tão perto, o ar que lhe falta bebemo-lo nós na garrafa de Cartuxa que nos quiseram servir por ser Natal e o tio estar a morrer, o tio gostava de bom vinho e nós guardamos ainda no olhar um travo das suas libações em volta do vinho, o tio o nosso “enfant terrible” que já nada diz, aguarda apenas que as suas palavras se recolham na miragem de ter existido.
O grande lume na praça, uma pira onde se queimam memórias de tantos anos, as pessoas vão e olham, estendem apenas as mãos ao que ainda não têm, bebem o calor e rosam as faces de cristandade, já nasceu o menino, cantemos antes da açorda com bacalhau que faremos de madrugada, e os homens começam a ensaiar o canto ao menino em redor do lume, Eu hei-de, eu hei-de dar ao menino, um casaquinho de feltro… Ai esta noite, esta noite de Natal, é de grande merecimento, por ser a noite primeira que Jesus nasceu no tempo, trai la ri, trai lari lari lolé… Há sempre uma primeira que rasga a escuridão e desperta no alto o estremecimento das estrelas, cintilamos naquela voz, as outras vozes atacam certas e certeiras a nota seguinte, só vozes de homem, as mulheres no Alentejo cantam depois, ao lado, mais tarde, depois, e eu quase ventríloquo definho a minha voz para que se não ouça, mas entoe no meu coração o canto do menino, o tio a morrer e eu a cantar surdamente, como antes se cantava, e o tio que fazia sempre uma primeira profunda a vibrar as colunas da igreja, tanta lágrima, tanto Natal a cantar no fundo da nave, baixinho para não ser ouvida…
Esta noite o tio morre e ainda não se ouviu cantar na praça, e mais ninguém tem agora voz que chegue às estrelas, lembro o meu pai que me sentava ao lume e me cantava ao menino entre copinhos de aguardente e nostalgia. Atiçava o lume e faiscavam histórias dos seus Natais passados nos montes, a amplitude magnética das suas histórias de lobos e fantasmas brancos na casa dos patrões, os homens da família partem todos, as mulheres ficam a um canto, nem cantar lhes resta, outros mortos passam pela nossa mesa, sentam-se sem ser lembrados já, apenas eu os acolho e deixo partir para onde a neve cobre o olhar. A garrafa de Cartuxa desce, o tio abre os olhos visionário e vê os filhos que vieram de longe, já não os quer lá, quanto antes os quis e nada, aguardam a partilha da coutada em doces rabanadas, estão ali à espera para depois levar e partir, ou partir e levar.
Já ninguém canta ao menino com lágrimas ao canto do olhar, as pessoas vestiram o Natal de vermelho e engordaram-no de refrigerantes cáusticos, renas em papel de seda, relógios Cartier, consolas, telemóveis, tudo última geração, e eu que busco a velha geração, os últimos que foram pilares do meu mundo e agora partem, como o tio, e eu passo a ser um pilar na nave da minha igreja, tão frágil, tão pobre, sem sequer saber cantar como o meu tio cantava. Os primos começam a rir aquecidos do vinho e da braseira, as brasas enrubescem lentamente, amolecem, esfriam também para eles e eles nem sentem. Batem à porta, parece a morte ou é o vento, estremecemos todos no fundo abstracto dos pensamentos, ninguém é esperado, nem nos espera ver ninguém mais no momento, talvez o Vitorino, o seu fantasma vivo, venha reclamar o seu lugar no mundo, todos salteamos receios e só eu me levanto. Alguém mandou o padre antes da morte chegar, a missa do galo adiada e o tio ainda não quer morrer, mas também não sabe ficar. Vem o padre porque o tio era ateu e o padre sabe que mesmo com uma vida convulsa, combustível de muitas outras, rastilho de dor, quem canta ao menino como o tio cantava só pode ter perto Dele um sereníssimo lugar. Deus ou o Diabo, um dos dois havia de chegar primeiro. O tio ainda não morreu e já o querem levar, e eu enquanto posso bebo o cálice frio da minha última ceia de outros tempos.
eu devia escrever sobre os anjos que não têm rosto
os meninos que nasceram sem uma estrela no peito
as mães que parem sós na cama de um hospital
os carpinteiros que não nos consertam o telhado
e os homens que se tapam com as estrelas
num catre de papelão sem palhas nem reis magos
mas em vez disso falo-vos do sangue alucinado
que nos acelera em frente em mais uma curva
até chegarmos ao primeiro hipermercado.
...onde não se vende amor, como em nenhum outro lado…
Boas festas, em família, ou onde o calor humano se sobreponha à palha luminosa....
provavelmente a cidade desfez-se
camadas de cal esboroadas sob os dedos
e o que ficou é a miragem da cidade que foi
aquela em que nos desfizemos um no outro
presos de todas as estações do desejo
pedra a pedra construídos num muro
de silêncio e sal de rosto
provavelmente as ruínas hoje
são a única montanha alçada ao pensamento
penso-te pedra quente e doce, e ouço-te
narras a passagem do amor em alvoroço
e a litania velha de um mundo poderoso
onde o conhecimento possui todas as coisas
e o exílio existe no labirinto do outro
não importa se é tarde e não chegámos a tempo
para erguer cidades transparentes
resta-nos tactear a realidade o mundo fosco
para medir na voz a intensidade do oceano
quando o lançamos à deriva do nosso sonho
meu amor, as amarras soltas o rumo incerto
os caminhos onde às vezes despontas
são a minha liberdade ancorada e forte
entre as libações matinais da realidade
a noite a paixão e a morte
manhãs douradas tão doces,
tão vagas, tão dóceis de amar
esta câmara escura ruborizada
pela ampla luz do teu vago olhar
a cor que se acende no voo cansado
do velho albatroz
são redes cercadas de peixes felizes
no regresso aflito ao corpo do mar
a palavra voga, a lua navega o rio
rente à foz - a cidade que baila ébria de luz
é a nau que prossegue na proa azulada
da tua alta voz
tanto sal, meu amor, quando a noite atracar
no farol ardente do meu louco olhar…
Bom fim de semana!
Cliquem na musiquinha ali à esquerda!
Perdidos. Dançámos ao ritmo
de um blue já esquecido,
chorámos os dias passados
amarfanhados em neblina,
na dúvida de existirmos.
Corremos no areal da paixão,
enlouquecidos pela voz do mar
em tanto búzio, em tanto
gesto já esquecido. Nascidos do mar
os soluços, as algas do prazer,
os castos beijos. Porque os temporais
submergem os faróis, matam o riso
e fazem fortes as rochas e corais e
os homens que no mar
andam perdidos. Recolhemos o
excesso de conchas e os búzios
trazidos por marés mil, mais
vagas de dor, ternura em sal nos
corpos apartados, doçura imensa
ancorada no porto azul da saudade.
E de nós escorreu a salinidade possível,
na nudez do entardecer, no céu
crepuscular, opalino e triste,
na infinita certeza de que a serenidade
existe. Fizeste-me então um colar de luz
e o teu sorriso clareou o ocaso persistente.
Encontrámos a voz do tempo ainda longo
ainda lento, a barca bela
a marulhar segredos novos ao firmamento,
murmúrio esse apetecido e a tua voz irreflectida
irrompe em flores nos meus ouvidos e nessa
barca louca e leda infanta e bela adormecemos
enfim perdidos…
2 de Dez. de 2003
(versão revista)
De madrugada,
tenho a minha serra
nem sempre o sol a beija
e a proclama rainha absoluta
das florestas feiticeiras
na sua orla de sonho em redor do rosto
nem sempre colho as flores bravas,
ou sacio a sede no orvalho
por vezes refresco-me nas ervas
proclamo mil primaveras
na pureza úmbria
do relento e o sol reclina-se
em tons de verde luminoso intenso
mas sempre caminho,
subo, trepo e elevo-me
nesse santuário de silêncio
em festa de frescura aparelhado,
concha nocturna que se abre
e se enfeita
para se entregar ao dia tão esperado
sempre me sinto ave precoce
que se ergue temerária
e faz em segredo
o doce ninho
no buraco húmido de um rochedo
busco a brancura do pensamento
o instinto avaro da minha espécie
queria ser absorvida na paisagem
quando a minha serra escorre lágrimas
de vapor e maresia
junto à velha árvore
que morta de pé, caiu de vez,
abraçando com seus ramos,
esmagando com o seu tronco
imenso
o solo que a nutriu e absorveu
ser a festa anunciada
quando a manhã se esclarece
e a minha serra pinga já o riso
das gotinhas ávidas de musgo
e exala o odor de arbustos
na renovação dos corpos caídos
em novo e fértil húmus
porque assim a vida se move pressurosa
no bosque fechado que é o nosso mundo,
o que foi passa a ser algo havido
preso entre os lábios
no caule de um sorriso sempre mudo
sei que na minha serra sou nada
sou muito pouco
como na vida que me abraça
e empurra a não ser mais do que isto:
talvez o sopro de vento que (a) beija
e (a) consola do sol em luto,
mas (lhe) absorve suavemente
o (seu) manancial de infinito
23/02/03 (versão revista)
é o rio sobre o cascalho
e depois o caudal rolando as pedras
na inquietude da pele alagada
frescas flores nas margens sinuosas
é a corrente impetuosa
a desferir golpes na escarpa amordaçada
até quebrar a dureza das palavras
é o silêncio no coração das águas
remoinhos de vésperas
nunca tão doces celebradas
é aquele mármore de algodão depois do amor
(Recordas como a tarde nos falava?)
é o rumor único do vento
nas margens secas despenhadas
o canto alucinado das cascatas
o silêncio azul maravilhado
onde pastam os teus dedos
depois de descermos juntos
o caudal do rio arrebatado
momentos estes sempre
a medida exacta das estrelas
na mão aberta que descai
litanias estas de frágeis contornos astrais
digo o teu nome e tremo
sinto o teu corpo e sei-me
a paisagem quente deste outono
numa noite de infinitos siderais
sim - palavras cravejadas de silêncio
nas doces águas soltas flores deste meu reino
e no teu olhar dois unicórnios
guardam o meu sonho que lavro sereno
porque te amo sou estas águas
mansamente despenhadas plenas
a desaguar na boca como magma
sempre que juntos mergulhamos
nesta troca irreversível das línguas e das almas
Bom fim de semana
a quem passar!
era um dia assim entre a chuva e a noite, mas podia ser quase manhã, pelo cheiro das flores no teu busto viril. saímos para os jardins de eras mudas, daqueles tempos em que as pedras ainda tinham o rosto de deusas profundas e o mármore luzia ao sol das manhãs. percorremos todos os cantos do silêncio, sempre unidos pela vasta neblina. deste-me a tua mão de pedra e eu convidada para o paraíso, dei-te o meu braço de hera, na maçã do teu sorriso. fomos homem e mulher no éden das serpentes por colher. sombras remanso sol e húmus, enleados em vales de prazer, nós dois formosos seres acabados de produzir numa qualquer fábrica de sonhos. aranhas entre as árvores, teias verdes de consumo, incautos como aves fomos, sem ver que nos sobrepúnhamos na vastidão do sonho. tomámos entre mãos a seda fina, envolvemos em véus a mente pegajosa, o visco que nos traiu quando nos saiu uma aranha apressada da voz. sonhava-te então louco vagabundo dos bosques, sonhava-me ninfa dos desertos montes. sonhámo-nos os mesmos através de outros. uma cascata impetuosa este real que fomos, a água sublime que inunda a casa onde nos frutificamos unos. a rocha mágica aberta em flores, uma gruta de tesouros entreabertos ao lume do corpo, todos os sonhos sobrepostos e confusos, no baú aberto ao mundo. vejo-te nos olhos da aranha, na teia mental que presumes enfeite cantos sombrios, quando afinal a casa está limpa, arrumada, fresca de flores e todas as teias arderam em guichos de loucura, para que possas sonhar em paz com a fuga da morte a montante, sempre para diante dos teus dias. o brilho inebriante da mesa posta para o amor, a cama submersa em águas profundas lianas e juncos a afagar os corpos navegantes mudos, ébrios dos afagos em que à tona do prazer me punhas. ficámos assim no tempo das flores, a entrançar jasmim, navegando em nenúfares sem fim as águas impulsivas dos sentidos. recordo-me que adormeceste dentro, profundamente imerso como as fontes subterrâneas, na secura dos montes. memoravelmente o sonho que tive reúne numa só voz a casa que ocupamos na garganta e o lugar de onde nunca me viste partir - um penhasco arborizado no limite de todas as reentrâncias permanentes. e o rio revolto sereno barco a sono solto.
No bairro rosa, as gaivotas beliscam o sol alegremente
no bairro há gente apressada e há gaivotas com tempo
que ensaiam um voo diferente das planuras tontas
em dias de bruma ou tempestade.
Aqui as pessoas nunca são diferentes, mas as pessoas
no meu bairro também não têm tempo, nem para
ver as gaivotas ensaiar a dança do momento
nem para se enquadrarem na moldura do seu mundo
e eu hoje vibro com o meu quinhão de natureza
porque tenho tempo para estudar o voo das gaivotas
e das pessoas
para lhes roubar a curvatura silenciosa da existência
com que enfeito os meus versos citadinos.
A vida na cidade também nos move para dentro,
como essas aves. Também na cidade há magníficas
manhãs que são torres em que nos descobrimos
reunidos com a vida e iluminados por uma luz inacessível
e porém líquida nos arvoredos do sangue.
Aliso o meu mundo para me posicionar no tempo.
E sei que estou bem onde vivo. Mas a cidade exilou-me
num quadrado de luz, de onde não vejo todas as gaivotas
nem o silêncio das árvores por plantar me seduz.
Acena-me um refúgio interior e íntimo, no meu mundo
construído nas pedras velhas doutros tempos
entre as árvores que me crescem no pensamento.
Árvores que plantei com os meus dedos e
há muito não vejo na sua inquestionável existência.
Tudo me espera onde não sou esperada nem (pre)sentida.
Busco as águias arrogantes lá nos céus
a indiferença intemporal com que me acenam
busco-me sem tempo no fogo, nas brasas ardentes da lareira,
na salamandra intensa, na quentura das pedras,
no soalho de madeira, nos pinhais ardentes,
nos uivos nocturnos das feras, na noite agreste e inocente.
As gaivotas voltarão ainda ao bairro e virão sempre
trazer a inquietação dos mares onde navega o tempo
e eu escreverei versos citadinos sem os escrever realmente
porque a poesia está naquilo que os olhos vêem, a pele sente
e dizemos silenciosamente por dentro com um simples
voo de palavras na memória simples do presente.
Bom fim de semana!
Mário Cesariny de Vasconcelos (1923-2006)
poema
Faz-se luz pelo processo
de eliminação de sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz mas do próprio seio dela
intensamente amantes loucamente amadas
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem
Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina realmente os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como amantes
de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos e na boca
Mário Cesariny
... e eu digo,
vieste cedo demais ao encontro da morte
e ainda ontem brotavam flores das tuas mãos
e os teus passos de nuvem apareciam
à porta do teu quarto de existir
deixaste palavras impossíveis de quebrar
nas amarras frágeis dos dias insulares
iluminaste as sombras profundamente amadas
das madrugadas ledas que partiste
e num suspiro amante libertaste
em palavras loucamente presas
vogando frágeis num batel
para além do teu mar
para lá de qualquer mar
o farol súbito de amar
Tapeçarias de William Morris
a carta de hoje vem molhada por escrita oblíqua que não entendo nem entenderás tu, porque não sei que mais me move a escrevê-la, para além da simples necessidade de confirmar a minha existência. há uma história inacabada no tear com que te teço os sonhos, por isso talvez valha a pena dizer-te que os meus dedos tiritam de frio pelo nada que te posso dar, nestas noites assim de chuva lateral, em que o pensamento se recolhe para este interior inconsistente como plasma, um filme que passa sem tela, projectando-se nas árvores em sombras de morte. falar-te de como o cansaço se me pegou à voz e das coisas que te diria, se não estivesse suspensa na chuva, um bailado oblíquo nos braços do tempo. ouço-te ao longe, entre tanta voz que mal sei reconhecer a tua. o carteiro engana-se constantemente a mandar-me cartas que não são para mim, porque eu não existo. reconheço-me vagamente como um ponto, talvez uma mancha na tua pele, uma translucidez que tanto pode ser comiseração na tua voz, como devaneio na minha. tudo pode ser e não ser. o meu cansaço pode vir de carregar este rio e nenhuma foz, nenhum barco para me amordaçar na corrente até permanecer. transporto o cansaço dos dias, não de olhar as tuas mãos sempre que as estendes. colheria hibiscos do teu olhar, se as manhãs ainda viessem a tempo. nada vem a tempo, nem eu sei como vinhas dantes a tempo. como nos empoeirámos tanto nestas teias da casa? cresceram com o excesso de bichos que andavam pelo tabuado, uma janela virada para o pinhal que acabámos por fechar, tanto os insectos que buscavam a nossa sombra. mergulhámos a voz na penumbra, deitámo-nos na cama e deixámos os corpos soltos a preencher os minutos do dia. foi assim que começámos a sonhar que existíamos. eu ainda sonho que sonho sonhar a existência. por isso busco entre as teias que nos enredaram o fio condutor da tapeçaria antiga, e só encontro este fio umbelical, por isso é inútil filmares a tua cegueira porque a tesoura enferrujou, não consigo rachar-te cá dentro, a boca não corta tanta lenha, e a câmara íntima do olhar apenas vê o negativo da noite. esquecer. dormir. celebrar-te-ei com deleite quando a chuva me esvaziar esta vaga sensação de doer-te em algum lado sem saberes.
frágil, tão frágil o teu corpo violino. frágil a nota que grita o teu nome para dentro do corpo e me rasga em silêncio o vestido. frágil eu nas tuas mãos, o corpo em tiras inclina-se à razão do desejo, em cada ínfima partícula da pele a respiração suspensa num vagar de seda, uma demora dos sentidos pela orla dos gestos. é como a corda distendida nos teus dedos, frágeis notas humedecem os poros numa dança de água pela pele ardente, em magnético harpejo. a corda tensa o arco arqueia-se para dentro, demorando-se no meu peito. vertes o que o tempo te reteve. amassas o tédio no meu corpo, expressas o ritmo do teu sangue no vestido enquanto te esquecem as palavras prestes a quebrar os espelhos, és uno enquanto me segues na penumbra do desejo, nas demoradas notas de fogo a consumir o tabuado em passos leves, convulsos, ao ritmo do sentimento. inclinado consomes a nudez frágil dos meus ombros. sabem a linho as tuas palavras, insanas flores demoradas no pescoço. circundam-me com os teus braços de violino rouco. sempre em volta da cintura, o tango encena a dança da alma escondida em corpo. a tua ferida rodopia longe, esse círculo que trazes desde cedo. escondes retesas os nervos, os músculos, os primitivos passos do mundo. frágil este tango sem rosto. frágeis silêncios nos enternecem a dança entre palavras e beijos loucos. a vida dança-se por dentro do corpo, somos na dança outros, talvez no deslumbramento da subida, talvez na vertigem da calçada, talvez porque os candelabros nos amparem na queda, talvez porque voamos livres sobre essa mesa onde reservas a deslumbrante ceia das memórias. talvez porque nos queremos todos à boca da verdade, múltiplas serpentinas se desprendem dos corpos e caem sobre os olhares vagarosos, da assistência adormecida. Não sabem que é o desejo que nos tange o ritmo, a intensidade, o vagar e o sopro. Não sabe a dor e a origem desse voto supremo, o do caçador de pérolas que encontrou em toda a sua vida apenas uma verdadeiramente bela. sim, é uma dança de lantejoulas, brilhos foscos, reflexos alucinantes no círculo dos pés quando te ouço. mesmo quando o medo se aventura entre nós e te encena o rodopio da morte. o desejo marca o diapasão, ouves? é tempo de reabrir o tempo, hoje. frágil a dança do (teu) corpo. ainda não sei por que dançamos tantas vezes a alma no chão encerado dos sonhos…
A carta entra pela noite vestida de insónia e as linhas enchem-se de razões sem produzir palavras. Inércia suprema despir uma insónia. Deixá-la correr o mundo descalça e voltar ao lugar onde se apresentou sem ser convidada. O cansaço de um dia profundamente cheio, o turno da tarde buliçoso e violento, o turno da noite no sono impenetrável dos olhares, uma broca nos neurónios das salas vazias, um silêncio de têmporas a rasgar-se, bátegas rígidas nos vidros e a escola presa no tempo. Será meia-noite em breve e eu continuarei gata borralheira, mas regresso cinderela na urbana carruagem rumo ao sono. Viajar a caminho do sono é a metáfora suprema da globalização dos tempos. E somos felizes nesse sonambulismo afoito, senhores da noite e do silêncio. Conquistadores sem mérito de uma suspensão do corpo. Não ter de pensar, nem de explicar, nem de fazer, nem de fazer fazer, nada. Mas a carta. A carta veio depois quando a insónia decidiu que ficava. Porque a carta é o sonho. E escrevi-te. Com a mente vagabunda que não foi capaz de fechar um a um os neurónios despertos. Não ficou uma só palavra. Lamento. Nem uma só porque não existes, nem o teu remetente vinha certo, nem a minha mão tinha a inclinação da escrita. Os dedos imóveis sobre as cobertas, resgatam-se do pó do giz e sacodem a existência para onde nada se diz. E não disse. A manhã encontrou-me assim. Com a carta por escrever e a memória proscrita, impenetrável, molhada por esta chuva febril de palavras inúteis.