Serena Lua
Vogo sem rumo entre a espuma dos dias e o luar azul dos sonhos. Escrevo-me numa neblina de palavras, rasgando as noites brancas e as claras madrugadas...
the morning stares - going home
Quinta-feira, Junho 28, 2007
Poesia

Get this widget | Share | Track details

Assinado por: aziluth • 12:21 PM • (0) Comentários
Domingo, Junho 24, 2007
Poesia

Gostava quando as palavras caíam do cimo do céu como estrelas cadentes e acendiam serpentes no meu seio. Às vezes o meu olhar estalava de espanto e respondia com a voz mergulhada em profundas raízes desconhecidas. Foi quando senti a luz das palavras e percebi que há fortes ligações entre elas e a vida. Antes do primeiro impacto eu via apenas meras palavras nas palavras. Serviam para falar, diziam o mundo e era fácil acreditar na fidelidade das palavras. Depois passei a encará-las como recados da natureza, ou do amor. Guardava as palavras em pequenos cofres, como se fossem únicas e irrepetíveis, perdi-os em dilúvios vários, incêndios passionais. Depois vi que as palavras podiam ser precisas e cortantes como mão de alfaiate a desenhar os fatos da moda. Vestidas de organzza ou seda ou linho ou caxemira, as palavras não permaneciam muito tempo no palato. Fugíam-nos. As palavras podiam ser apenas um caminho assinalado a rosas. Um caminho para a morte. Estudei as palavras e separei-as como naipes. Havia palavras em jogo e palavras que jogavam por nós o jogo das almas. Perdi algumas palavras importantes e os jogos todos que jogava. Algumas jogadas foram minhas e ganhei-as nas palmas das minhas mãos cegas.  Recolhi as fichas ganhas e troquei-as pelas palavras indispensáveis, as que uso junto ao coração, cofres de coral, nas fundações do sangue. Lá dentro a paixão, intocável, intensa. As palavras e eu formamos uma espécie de domínio, rodeado de altas muralhas, paredes grossas e frágeis ferrolhos, uma cidade secreta entre montanhas de eternas neves e um deserto de lava substância. Recolhi-me entre palavras, esperando que um dia elas chegassem ao ritmo da pulsação e se me fizessem o rio do sangue. Eu e as palavras vivemos densamente fundeadas num lago sem mistério, afogo-as entre os dedos, já não as interrompo, quero-as ancoradas nas areias, as palavras têm vida, movem-se pelo meu corpo, respiram-me na fala, as palavras colam-se na pele, as palavras têm gente dentro, as palavras são belas e eu tenho medo que um dia, inesperadamente, as palavras me sucedam e me devorem o corpo como vermes.

Assinado por: aziluth • 02:49 PM • (0) Comentários
Sexta-feira, Junho 22, 2007
Poesia

vivemos dentro da luz
férvida fonte

ao longe
chamamos perto
e ao perto longe

vivemos
o verso e a medida
a métrica curta
a tónica do gesto
a ave viva
ausente

sobrevoamos
vitrais
nas lânguidas
catedrais do deus
silêncio

sabemos
as lajes da morte
os ecos
dos passos idos
as frágeis
asas do tempo

mas vamos
ainda assim
de mãos nos olhos
demoradamente
jovens
até Dezembro

provavelmente
adiados ossos
um dia velhos
mas eternos
no tempo
que nos pára
não sabemos…

ao certo
só temos a demora

nada nos prende
tudo nos solta
um sopro nos guia
no belo bosque
até ao corpo
que buscamos
entre lírios
sempre

sem olhos
vemos mais dentro
por entre
as intensas
mós
o pálido trigo
a melancolia

e o moinho mói
lentamente
os nossos dias

o amor
mói-nos a nós

sabias?

Assinado por: aziluth • 11:51 PM • (0) Comentários
Quarta-feira, Junho 20, 2007
Poesia

não me olhes com o teu olhar apascentado
como se fosses guardador de rebanhos
e de rosas cuidasses entre os dedos

banha-me com a fonte cintilante das
madrugadas que usamos ao deitar
e vem morar-me nas noites do deserto

porque as areias segredam-me receios
e os teus olhos, inadvertidos, tocaram-me
cedo, muito cedo, e já os pendurei
entre as estrelas por serem belos
e verdadeiros e me clarearem as noites
quando me caem os medos

não me olhes como se me embalasses
os ombros inacabados para depois
me retirares o xaile dos teus afagos
quando estes rasam os meus lábios
como rosas de repente frias

já desceu sobre nós a hora alada
quando o tempo despe o tempo
e a terra se enlaça à alvorada

sem pudor o tempo vem e o teu olhar
tão alto apenas se ergue sobre o meu
e não pressente que o corpo fala

e rasga em nós as madrugadas mudas
amplifica a pele na pálida luz dos espelhos
e nós juramentados seres ainda assim
rubras rosas esmagamos entre os dedos

falo de ti como de um rio de rara raiz
um rio plantado entre os sulcos da pele
e a estratosfera funda do olhar
um rio lavado e limpo a nado no silêncio
no meu corpo submersamente
o teu rio afluente lavra, imenso

Bom dia!

Assinado por: aziluth • 11:25 PM • (0) Comentários
Segunda-feira, Junho 18, 2007
Poesia

Nas brandas algas do teu corpo
É que eu me movo
É que eu me banho

Nas louras lanças dos teus braços
É que eu me faço e me desfaço
E mais me enlaço

No sólio assento do teu corpo
É que eu me entranço
E me entreteço

Sou a serpente subindo a pele
sou a maçã no teu cabelo
por te tentar me tento eu

tentada caio eu primeiro…

Assinado por: aziluth • 10:35 PM • (1) Comentários
Domingo, Junho 17, 2007
Diário

Música: Bon Jovi “You want to make a memory”

afago a tua inquieta solidão sem mais dizer, desculpa, mas é este o meu modo de dizer-te que estou presente. ouço o rumor da tua noite e é como se ouvisse ao longe o mar a romper a escuridão. não é um canto de apelo, o que te ouço, nem o estertor último das estrelas ao porvir da madrugada, é o momento em que me amas em segredo, nas tranças das minhas palavras. e eu fico a ouvir-te, cisne e poeta, a beber com gelo a última lágrima que me emprestas. desculpa, não te disse antes, mas a noite é o momento em que me pertences, como me pertence o luar e o lume das estrelas. é verdade. é tarde, tudo escureceu e só restaram as minhas mãos, que vim conjurar sobre o teu corpo. sei sem saber as palavras e as penas do branco linho do teu leito e guardo o sabor do teu corpo como se guarda o aroma das manhãs no zumbido álacre das abelhas. conheço-te nas palavras poupadas que me dizes
quando a noite te consome a espera. nesses momentos, em que me tinge o veneno da doce poesia quisera ser um manto e da mais pura caxemira, para te tapar os males do mundo e envolver os teus sonhos, que sonhas sem saber, porque o sonho que sonhamos não nos perdura.

desculpa dizer-te tão tarde que hoje a noite não me chega para ficar a olhar-te entre as frestas da poesia. queria ser ave da noite e nunca ser dia, vestir-me de um voo tão altivo que todo o tempo da paisagem fosse nosso d’ora em diante. mas não navego a noite pelo centro, nem o teu coração me pressente assim tão dentro. trago-te só as minhas mãos, assim tão leves, para que as tomes como duas rosas rente ao coração. prende-as como um diadema que te dou, quando pouco mais te posso dar, tanta a noite cansada sobre os ombros. muitas ainda me sobram irisadas de fogo ou de degelo, mas contenho a noite, como um glaciar que quer despenhar-se no oceano sem ser tempo.

desculpa se te surpreendo com a minha fala a meio de uma noite apagada e bela, mas enquanto o vento do deserto me soprar para dentro da minha tela tudo que posso fazer é deixar ficar as mãos e dizer-te o que tanto já te disse. nenhuma estrela me cintilará nova na palavra e porém tudo se espalha em teu redor, como o meu corpo de mulher. eu sei, é inútil esforçar a fala, a brisa hoje é só levemente cálida, a tua voz chegou-me estava eu já no outro lado da noite, nas ternas ameias do teu castelo. sonhava. deixo-te as memórias que te quero presentes, no dia em que me chamares e eu seja outra, ou já não seja. quero que me prendas os cabelos com as flores do sonho para lá da morte e que exista em todos os lugares esta fuga para o lugar do corpo. sobre as areias do deserto viveremos sempre ocultos como rochas, eu sei, ainda é cedo para o fim nos chegar sempre, e hoje há este tapete que nos flutua dentro, sempre dentro do olhar para esperarmos o sol que venha ver-nos, esperando que cedo nos chegue o amor ao tempo.

Assinado por: aziluth • 09:17 PM • (1) Comentários
Sábado, Junho 16, 2007
Poesia

The Re-Membering
Colocado por MarinaOfLight

Music by David Arkenstone - Atlantis

recordo a casa plantada à chuva num laranjal distante. vemo-la lá no horizonte, louros os olhos do trigo que nos espera no regresso. a viagem ronda a ilha numa esperança posta nas origens do sangue. dizia-se que os primeiros atlantes haviam surgido do nada, com a pureza original dos filhos de Eva e o brilho metálico dos génios ou dos poetas. a ilha sabia-se também emersa de um caos no avesso profundo do mundo. navegou em vagas de ouro durante milénios, até se fixar naquele límpido oceano, onde finalmente os seus profundos seios haviam encontrado o peito amantíssimo do mar. a ilha aromática e bela como uma mulher coberta de flores e de estrelas, a ilha era um novelo de nuvens e brumas que apenas o capricho do sol vinha quebrar em rasgados horizontes. sabíamos-nos os filhos dilectos de um deus distraído que nos soube ungir a fronte com as estrelas do levante, sem nos iluminar os passos em direcção à sua luz evenescente. recordo a pequenez da nossa espera na grandeza do horizonte. a ilha envolta nas brumas róseas de mistério, as estrelas no avesso da memória que então não tínhamos. era bom existir apenas no fundo do amor, em zénites que nos uniam na velocidade isocrónica do pensamento. a rosa de chá que tu tocasses viria afagar-me o seio, por vontade expressa do teu corpo e se eu respirava para te sentir, todas as partículas do ar se irisavam para te levar esse momento. éramos o próprio mosaico do tempo, feito de luas, atrás de luas e de sóis atrás de sóis e tudo era o prodigioso milagre da ténue existência das flores.

um dia o céu tingiu-se de vermelho e o sol chorou lágrimas de prata e de lava, ácidas facas no colo diamantino das nuvens e a cintura de bruma escureceu na cinza da partida. as nossas túnicas ondearam pela última vez o linho da sua brancura no cimo de rochas avançadas sobre a espuma. respiramos em conjunto aquela lonjura e, à distância, ainda pude ver o aceno que o mar logo te tragou. abracei um artefacto flutuante, era talvez um deus de bambu, cortado por mãos atlantes, os deuses haviam abandonado os homens na sua riscada coroa de amores deambulantes e, no curso de um instante de tremura, toda a nossa ilha nos afundou, mármores e colunas, torres e construções gigantes, tudo ruiu nas estacas sensíveis das coralíferas fundações. não mais vi sob a complacência do sol a arquitectura formidável de um presente que não parecia ter fim. ficámos de repente tolhidos a meio de um gesto e então conhecemos o tempo. nunca mais te vi, nem as marcas dos nossos passos, nem a flora luminosa dos anilados campos, tudo o mar bebeu na fome das fragas, a lembrar gárgulas gigantes.

a lenda vive dentro de mim que a aportei no naufrágio dos olhos, em terras migrantes. recordo como éramos felizes sem sonhos, porque nos sonhos vivia a luz do dia e os dias eram os próprios sonhos. no veio dos corpos luminosos e na transparência dos cristais, o pensamento fluía-nos através da chuva, ou dos maiores temporais. mesmo agora, sempre que o céu se derrama sobre nós, na sua líquidez piedosa e as brumas cerram memórias de ruínas e de gestos, nestes momentos de agora, a ilha beija-me e tu unes-te a mim no mistério que ainda nos respira. cerco-te em cada lua estival, em cada solstício, em cada fonte. às vezes no mar é que te encontro, no carinho suave das águas quentes do mar desértico. deixei-me perder por dunas vivas sem memória, sou uma austera forma de vida crestada de erosões que vive a pele no vagar com que nos alimento. bebo a energia das pedras, a ideia de nós, nos rebentos raros e nos musgos que a seca poupa. mas ao respirar as rosas, apenas então, algo na tua tez atlante, loura e leal como o trigo de antes, algo à tua volta sorri, porque eu sei que a ilha se ergue comigo de rompante e o nosso mundo torna a estar presente. estou segura que te ouço sorrir levemente agora que a fala também me floresce, sim, sorrirás cindido pela fala, pela palavra impronunciável, sabes como a ilha é o espelho que nos precede. se me encontrares um dia, entre altas sebes, diz-me, ensinas-me o caminho de regresso para o fundo do tempo, o lugar onde os dias não tinham história e os laranjais nos frutificavam (tanto) nas raízes de dentro?

Assinado por: aziluth • 04:02 PM • (1) Comentários
Quarta-feira, Maio 30, 2007
Poesia

busco o lugar onde semear o amor, o meu amor apátrida vagueia vagamente indigente e cego. à minha frente as mil e uma léguas por sofrer na sofreguidão das areias. atrás de mim os ventos ruminam a ruína dos tempos. sinto no estômago o vórtice da vida mendicante, peço amor ao amor que me margina, sem que ao longe as nuvens congeminem monções. nenhum lugar me parece perfeito para despir o pó da viagem. nenhum lugar tem cascatas bastantes para me banhar contigo, nem as águas caem eufóricas sobre o selo do silêncio. queria-te num lugar onde só os olhos pudessem falar, não as bocas, nem as gargantas que, essas, de secas sucumbem sempre. nem as palavras nos satisfazem, são escolhos trôpegos atravessados nas bocas, eu e tu somos uma torre de Babel que alcançou apenas o rasto das estrelas, mas não se organizou para as absorver no corpo. isto porque as línguas fulminantes trajam tropos e as paredes desmoronam sem ogivas nem arcos resistentes, porque é imensa a área sensível da pele que a torre acende. só as nossas mãos estendidas nos circundam, só o barco imenso que navegamos em torno do amor sustenta o reino utópico do sonho. e como são fortes as veias válidas da tua carne, o rosado da tua tez, a tácita timidez da palavra, a doçura arredondada do teu olhar que, meigo, margina e sustém o meu lado da torre. do teu vêm corvos insistentes, parados ficam no meu lado, como se fossem gente. então eu sei que a nossa Babilónia dispensa o rumorejar das vozes e a rispidez das línguas vigentes. sabemos onde colocar a pedra seguinte. sempre soubemos fundear e sílaba e assentar as fundações, ao escavar nos escombros do silêncio. hoje a torre gravita à minha volta, e eu apenas sei que o meu lado é em frente, em círculos à volta do presente, no sentido único do teu olhar, na direcção dos ponteiros do tempo, a lateral sombria do teu corpo. diz-me, velho guardião da torre, como construímos o andar seguinte desta nossa altitude maior que ainda não nos alcançou dentro, nem inundou com a azul das estrelas a nudez dos nossos corpos originais, do pecado e da dor ainda isentos.

Assinado por: aziluth • 03:59 PM • (2) Comentários
Segunda-feira, Maio 14, 2007
Poesia


perdi-me no deserto do olhar
atrai-me a subliminar condição
de ser apenas um grão de areia
igual a todos os lugares

é tão fácil beber o gengibre da alma
e amor em sal o sonho e a solidão
a planura do olhar alheio ao mundo

nenascer no fundo de uma duna
como um cacto, uma palmeira
pode ser nada e ser tudo!

vejo lá longe o horizonte
a caminhar para mim
em vão tudo me busca
e eu não quero o encontro

em vão o vento vai bater na tenda
e o luar entra
inútil condição esta do sonho
quero uma ilha de damascos
e o silêncio em achas pelas tardes

não quero a fala, não quero um oásis
só o vento suão para me levar
como se fosse areia ou leve ave
até ao fundo oceano da existência
das serpentes e escorpiões que nada sabem

Assinado por: aziluth • 12:13 PM • (3) Comentários
Quarta-feira, Abril 04, 2007
Poesia

ah, como eu gostaria de poder voltar
regressar em pompa e glória cheia de medalhas
das batalhas mudas dos dias sem história
cheia de novas estórias para contar
palavras novas que lembrem cavalos felizes
na crina das ondas que me confluem
ah, os poemas maravilhosos do mar
como eu gostaria de os saber vestir
dançar os poemas do mar a onda a vir e eu a dançar
palavras e conchas que se entrechocam
numa música de caras coradas como rosas

felizes os corpos na dança das ondas ao entardecer
ah, como eu gostaria de escrever o poema da
dança e da luz da fogueira do olhar acesa em ti!
ser cigana aia e meretriz e ser donzela
a saia na dança das flores e o fogo nas algibeiras
ah, voltar e trazer um luar pleno de traineras
trazer a barra sul e seus naufrágios
e os faróis todos num verso sem penumbra nem presságios
trazer as armas dos navegadores e os seus despojos
ser o fogo e a acha ser o luar e a lua
ser apenas voz e as mãos falarem de poesia
mas é só a minha fala que regressa do silêncio
e em silêncio procura a palavra
uma palavra sumida num papel de pratateada fantasia
entre mim e a palavra há uma raíz que não medra
e eu queria o brilho das estrelas numa só palavra
busco-a nas areias salgadas mas o mar apagou-mas todas
nenhuma me vem à mão e eu só quero dizer
que o tempo não apaga o tempo nem apaga a vontade
de pintar o perfil afogueado das ondas
a simplicidade das coisas felizes e inesperadas

Boa noite, já tinha saudades!

(Aí em baixo deixo uma musiquinha feliz!)

Red Hot Chili Peppers - Soul To Squeeze

Assinado por: aziluth • 07:14 PM • (6) Comentários
Quinta-feira, Janeiro 18, 2007
Poesia

ferido de assombro o meu corpo
com águas sedentas de terra
descubro as secretas cavernas
onde o Inverno se enamora

são da montanha os claros sonhos
rolam em lava e neve acesa
e nunca meus sombrios outeiros
se obstinaram em ser represa

peças do toque incendiadas
beijos e suaves madrugadas
diapasão dos dias que nos dá
nem só tão leves alegrias

... mas um mistério e escadaria
entre os ânimos nos balouça
onde nos crescem as orquídeas

fenecem vivas nossas bocas
e estas manhãs pérolas frias
são raios de sol palavras loucas

16 de Maio de 2003

(desempoeirando o disco rígido)

Assinado por: aziluth • 10:07 AM •
Segunda-feira, Janeiro 15, 2007
Poesia

Fecho-me no coração de mais uma noite
e é de mármore-rosa, o túmulo que ouço
na noite insone feita para olhar o mundo
de um terraço suspenso da memória
à beira de um céu de alazões de chumbo.
Suavemente percorro o caminho das tuas mãos
e encontro estrelas bordadas a silêncio
e são apenas rosas que nasceram dos teus passos.
O murmúrio da cidade traz-me vozes extintas,
como nas outras noites de todos os prodígios
quando nos cobrimos de flores do rio
e se quebram no chão todas as raízes
e nos abeiramos da morte para rir dos seus
pássaros de olhar resoluto e frio…
Resumo-me a espantar na dor o pó dos meus dias
e a ouvir aquele marulhar da memória
que escorre nas horas de cascatas desmedidas,
quando a curva do tempo me despenha as mesmas águas,
o mesmo olhar que anda perdido.
Então sei que o teu peito é de erva macia
e que os teus olhos contêm a imensidão
das montanhas e dos penhascos desfeitos de erosão.
Invoco-te assim brisa de Verão como carícia,
como verbo, como liga de metais ou fusão de pedrarias,
na incandescência de um desejo que escorre dos teus olhos
para os meus dedos indecisos, em forma de asa livre.
Sei-te na Lua peregrina que assoma ao céu do teu olhar,
quando falas e sorris para lá do vento.
E o silêncio é de seda,
como o toque dos meus dedos nos momentos de pedra,
circulares e míticos em espiral de desejo,
ou arrepio, coisa breve, mais fresca que espraiar de maresia…
Liberto os pássaros da memória e adormeço-te no meu peito
como pergaminho desfeito pelo tempo ou pelo suor acre do corpo.
E sonho o teu olhar imensamente louco…

10 de Agosto
de 2003
(imagem e texto roubados ali às heterónimas do lado)

Assinado por: aziluth • 10:18 PM •
Quinta-feira, Janeiro 11, 2007
Poesia

quando amanheceres sol não temas
não quebrarás o selo da morte ou a mágoa das estrelas
mesmo que pertenças à massa inerte do universo
nem poderás preencher o peito da neblina
com as verdades que não são tuas nem minhas
não olharás para as altas vozes dos moinhos
nem brandirás espadas contra os sonhos
porque a linha elíptica do amor te fará receber no rosto
os golpes que intentas desenhar no olhar do mundo

não pisarás o regaço das flores aos pés do dia
este terá a lisura reluzente das aves garridas
as penas secas enlutadas como esparsas rugas
o vinco das águas riscado em esmalte e vidro
entre espadas entre risos lápides e sonhos
faz-te inconstante como as marés de Junho
descobre vieiras nacaradas misteriosos búzios
na pia serena do baptismal perjúrio
pois nos teus adros jazem corpos amplos
este e aquele que trouxeste aos ombros
e descarregaste como quem desfere chumbo

jamais colherás o fogo dos hibiscos
porque as manhãs já nascerão magoadas
e os teus dedos ignoram a ciência dos menires
os segredo guardados nas ânforas da idade
tens a intemporal medida das crateras lunares
berço de morte dos primeiros sonhadores
e porém as asas do poema partem voam ardem
e os teus dias mentem enquanto as tuas mãos
escrevem verdade
quando amanheceres sol não temas
a nudez dourada das musas que inventaste

Assinado por: aziluth • 09:59 AM •
Quarta-feira, Janeiro 10, 2007
Poesia

Estou sentada na beira do rio
Tentando recordar o teu nome
Cintilando nas águas um cardume
Lavrando contra a corrente
Plantando nas margens novas larvas
Perdido o leito esquecido o rumo
Um cativeiro que prende o sonho
Escrevendo eu pelo meu punho
A relatividade do mundo
Quando a vida é um prelúdio
Do nada que é o único absoluto

Meço a dimensão das águas
Que cobrem os seixos mudos
E a memória é um lago de palavras
Onde me afogo e me afundo
Sozinha nesta margem do sonho
Sem ti definho como tarde de Outono
E em ti a minha voz atormentada
Encontra abismos em vez de estradas

Meu amor, a noite é cega e grita
A tarde ardeu em chama aflita
E o dia amanhece na cor desta incerteza
Que me apaga na boca palavras indefesas
Quando antes havia paradigmas profundos
Corre agora um insalubre sabor a nada
Apenas este solitário céptico sintagma
Onde se repetem apenas as palavras

Meu amor, o teu nome é um arbusto
E eu não sei se desperto ou se sucumbo
Na corrente adversa em que me busco

(...)

(tomado de empréstimo a uma heterónima
aí do lado)

Assinado por: aziluth • 01:01 AM • (3) Comentários
Segunda-feira, Janeiro 08, 2007
Poesia

Quando a noite se vai de nós
e o dia assoma,
há nesse limbo de filigrana
um espaço em que
o sonho ainda é realidade
e a realidade ainda sonho.
Saímos de nós com a dificuldade
dos amantes apartados
ou das crianças que perdem
o doce calor do seio
e a quentura do colo materno.
Vagueamos pela casa
ainda sonho, mas já utilidade
e pragmatismo.
O sonho ainda nos pode prepassar
ao girar a maçaneta de uma porta,
ou ao erguer os olhos
do café.
Mas será uma sombra fugidia,
um último aceno,
por cortesia,
de uma encenação
para jamais revisitada.
Durante todo o dia
ainda podemos repetir gestos
sem se saber o seu destino,
ou pensar em fiapos de nada
com sentido.
Mas nunca saberemos
onde estivemos
nem porquê,
nessa via sacra entre o ser e o nada,
entre o viver e o não-viver.
o dia que nos abre os seus muros
a noite que não os fecha de vez…

Bom dia! - dizemos, mas ainda não
somos nós, nem a nossa voz
e sim talvez a de um qualquer
agrimensor de impressões…

13 de Maio de 2003

Assinado por: aziluth • 10:19 AM •

Página 1 de 11 Páginas  1 2 3 >  Último »