INVEJO-VOS
Registo de Violeta Teixeira/Pandora-Olhares.com
Invejo! Invejo com furor e raiva. Invejo-vos.
A todos os que se sabem ser seres possíveis.
Invejo-vos! A todos os que são, impossivelmente,
Exímios fazedores das vidas que se vivem. Possíveis.
Possíveis no mesmo onde, onde me não sei ser,
Ainda que, insensatamente, um ser possível,
E me sufoco nos fumos do tudo é absurdo.
Invejo! Invejo-vos, com fúrias mansas. Invejo,
com alma alva de asceta e de místico, às vossas vidas.
Sim! Isso mesmo! Alma de místico e de asceta. Por
Que vos espantais? Olhai. Sabei que me sento à vossa
Mesa, onde, exímios, jogais xadrez, e não me vedes
Como vos contemplo. Como contemplo o infinito,
De pálpebras abertas e absortas.
Invejo-vos, a vós, exímios jogadores, com todas as
Veias da raiva, túmidas e roxas, como amoras bravas,
E um gosto, azedo e verde, na boca.
Invejo! Invejo-vos. Estou ao vosso lado. Não vos dais
Conta. Nunca me chega a vez do jogo de xadrez, que jogais
Com gozo. Nunca. Exímios e felizes, conheceis as peças e as
Regras e tudo. Mesmo que se trate de um qualquer outro jogo.
Invejo-vos! Não vos comove ver umas místicas mãos.
Tão vazias! Vede. Estão, asceticamente, caídas no
Pano verde da vossa mesa de xadrez.
Violeta Teixeira, in AFLUENTES LUNARES ( 1º Prémio Literário Afonso Lopes Vieira, 1ª edição, 2000), co-edição Magno Edições/ Câmara Municipal de Leiria, 2001
Publicado por Violeta Teixeira em 15/08 às 02:59 PM
Categoria • Poesia •
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