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SUBLIME, O SILÊNCIO
Registo fotográfico de Lucien Clergue
Sublime, o silêncio, à borda do abismo!
O céu, flocos de neve, sobre o flanco
De uma montanha, e, nos longes, desmaios
De azuis-cobalto, ferem as veias das vagas
Do oceano revolto do sem retorno. Estanco
A hemorragia do poente, e aperto o pulso,
Que não pulsa, salvo se águas murmuram
Sonatas telúricas, e os olhos, ressuscitam
Moinhos de vento, moendo grãos de centeio,
Perfumados, como o pão, no forno do me
Recordo. Sublime, o silêncio, tecido nos teares
Lunares, quando a madrugada esmaga fantasmas
De nada, e veste de veludo verde o cimo
Dos penhascos das emoções veladas. Sublime,
O silêncio, na ponte que atravesso, sobre o rio
Que fluí, silente e manso, no reverso da medalha
Que moldo, acobreada, por lumes que acendo,
Com acentos agudos; por labaredas que sopro,
Com lábios rubros, nas brasas desesperadas
Do fluxo incontido do tempo. Sublime, o silêncio,
De um branco árctico, emudecida a voz do infinito,
E o grito inaudível do coração das pedras, à borda
Do abismo. Rendilho, em vão, os pespontos de todos
Os equívocos, de todos os sonhos decepados,
De todos os amores atraiçoados, de todas as promessas
Incumpridas, de todos os juramentos falsos.
Sublime, o silêncio, à borda do abismo!
Nenhuma voz confessa, arrependida, as feridas
Feitas na pele dos dias invividos. Nenhum gesto de afecto,
Ainda que tardio e inútil. Nenhum aceno. O Universo
Gélido continua a girar impávido. Sereno. A Lua,
Essa, esconde as faces, num novelo de nuvens cinzentas,
E simula o que já não sente. Do Sol, não falo. Quando
Terei nascido, já ele estava morto, e, por mais que tivesse
Pedido, ninguém mo deu a beber na boca. Sublime,
Este silêncio, à borda do abismo. À borda do NADA.
Violeta Teixeira, inédito
Publicado por Violeta Teixeira em 15/04 às 12:06 AM
Categoria • Poesia •
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