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SERIA, HOJE, DIA DO SEU ANIVERSÁRIO
«Joseph Brodsky. 1940-1996. Poeta russo, expulso da URSS, cidadão americano a partir de 1972, mais (e melhor) bilingue que Nabokov, recebeu o Nobel em 1987. Publicou em russo e em inglês, sendo Peizah a navodneniem (Paisagem Inundada) a sua última recolha em russo (1996). Traduzido por Carlos Leite.»
«Iosif Brodskii, ou Joseph Brodsky (conforme se queira grafar), nasceu em Leninegrado em 1940. Mal os seus primeiros poemas começaram a circular entre a juventude artística que o poeta frequentava, a grande poeta Anna Akhmatova reconhece nele uma voz nova e diferente, moderna.
No seu primeiro poema conhecido (‘Os Errantes’) está já presente a posição fundamental de Brodskii perante o mundo e a vida: um apolitismo que acaba por ser profundamente político e lhe vale um processo e decorrente expulsão da URSS em 1972. Como nota Carlos Leite, na Introdução: «Recusando a escola, recusando os círculos oficiais do ensino da literatura, sem ocupação reconhecida, autodeclarando-se poeta, frequentando boémios notórios, praticantes de ioga e outros personagens mal afamados, não tardaria em chamar a atenção das autoridades com os seus estranhos poemas apolíticos e asociais. O que as autoridades estatais e literárias soviéticas não podiam aceitar era a ausência de uma ideologia…»
Brodskii fixa-se nos Estados Unidos e, «autodidacta visceral, aprendeu o inglês por si próprio, começou a traduzir a sua poesia para inglês e por fim a escrever directamente em inglês, conseguindo uma capacidade literária nessa língua que é ainda mais impressionante do que a de Vladimir Nabokov, pois este foi educado em inglês desde a mais tenra infância.»
Em 1990 foi nomeado pela Biblioteca do Congresso ‘Poet Laureate’ – o primeiro não americano nativo. Morreu em Nova Iorque em 1996, sem ter voltado ao seu país.»
Oh, se as aves cantassem e as nuvens suspirassem de afecto
e o olho, acentuando o seu azul ao perseguir a coloratura,
pudesse distinguir as chaves na porta e, por cima, um tecto,
e aqueles que agora já estão em parte nenhuma.
Caso contrário, tudo não passa duma mudança de cadeiras
e de sofás. E de flores encaixilhadas nas paredes e em vasos.
E se houver no mundo uma abelha sem colmeia
e com excesso de pólen nas patas, essa abelha és tu.
Oh, se um dia lá no azul profundo as coisas transparentes
conseguissem separar a rédea à sua invisibilidade
e se condensassem numa estrela ou lágrima neste
lado da estratosfera, e depois, em todo o lado.
Mas, visivelmente, o ar parece ser apenas o fio com que se fez
a renda no bastidor, no parque onde o czar se dava ao pastoreio.
E as estátuas gelaram como se no pátio das alunas nobres
houvesse um decembrista, posteriormente executado, e chegou Janeiro.
Joseph Brodsky, (1940-1006) “Paisagem com inundação” (tradução de Carlos Leite, edição da Cotovia)
JOSEPH BRODSKI - USA –russo- falecido a 28 de Janeiro
Querida, hoje saí de casa já muito ao fim da tarde
para respirar o ar fresco que vinha do oceano.
O sol fundia-se como um leque vermelho no teatro
e uma nuvem erguia a cauda enorme como um piano.
Há um quarto de século adoravas tâmaras e carne no braseiro,
tentavas o canto, fazias desenhos num bloco-notas,
divertias-te comigo, mas depois encontraste um engenheiro
e, a julgar pelas cartas, tornaste-te aflitivamente idiota.
Ultimamente têm-te visto em igrejas da capital e da província,
em missas de defuntos pelos nossos comuns amigos; agora
não param (as missas). E alegra-me que no mundo existam ainda
distâncias mais inconcebíveis que a que nos separa.
Não me interpretes mal: a tua voz, o teu corpo, o teu nome
já não mexem com nada cá dentro. Não que alguém os destruísse,
só que um homem, para esquecer uma vida, precisa pelo menos
de viver outra ainda. E eu há muito que gastei tudo isso.
Tu tiveste sorte: onde estarias para sempre - salvo talvez
numa fotografia - de sorriso trocista, sem uma ruga, jovem, alegre?
Pois o tempo, ao dar de caras com a memória, reconhece a invalidez
dos seus direitos. Fumo no escuro e respiro as algas podres.. .
Oh, se as aves cantassem e as nuvens suspirassem de afecto
e o olho, acentuando o seu azul ao perseguir a coloratura,
pudesse distinguir as chaves na porta e, por cima, um tecto,
e aqueles que agora já estão em parte nenhuma.
Caso contrário, tudo não passa duma mudança de cadeiras
e de sofás. E de flores encaixilhadas nas paredes e em vasos.
E se houver no mundo uma abelha sem colmeia
e com excesso de pólen nas patas, essa abelha és tu.
Oh, se um dia lá no azul profundo as coisas transparentes
conseguissem separar a rédea à sua invisibilidade
e se condensassem numa estrela ou lágrima neste
lado da estratosfera, e depois, em todo o lado.
Mas, visivelmente, o ar parece ser apenas o fio com que se fez
a renda no bastidor, no parque onde o czar se dava ao pastoreio.
E as estátuas gelaram como se no pátio das alunas nobres
houvesse um decembrista, posteriormente executado, e chegou Janeiro.
Joseph Brodsky, (1940-1006) “Paisagem com inundação” (tradução de Carlos Leite, edição da Cotovia)
Publicado por Violeta Teixeira em 24/05 às 04:46 PM
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