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SER/FICÇÃO

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O que mais a assusta, contudo, são os olhos, o que
Vê dentro deles, no espelho, sem moldura, da manhã.

São pássaros moribundos, insectos, búzios
Estilhaçados, pedras e seixos vermelhos, limos
E lágrimas escorrentes, rostos de faunos, com musgos
Verdes, nos cabelos, asas atadas com ferro velho,
Areias sujas de mazute, recebendo nas faces vagas
Ferozes, de mares bravos, capazes de rasurar todas
As pegadas e todas as ilhas do amor, despovoadas.

Como se lhe avermelham, os olhos!
Compósitas. Insólitas, as imagens.

Mas, hoje, cedo demais, para se ver, vendo,
Surge-lhe, do fundo do espelho do tempo,
A imagem daquela outra -ela- mesma, algures,
Desaparecida da sua geografia, não sabe quando.

Fixa-lhe os olhos nos olhos, verdes- água, os da outra,
Censores, embora belos, como se lhe quisesse dizer da
Perda irreversível, da separação, da dor e da caminhada,
Sem êxito, que dela fizera uma personagem, talvez
Apenas uma máscara, sem possível viagem de regresso.

Esmagada da verdade dura daqueles olhos, tão nos
Longes da ternura que tivera, estilhaça espelho
E máscara e personagem, com raivas rutilantes
De uma Hera, contrariada nos seus desígnios.

Mas, ao se ver nua, de fora daqueles olhos do ser que fora,
Não se é. Suplica, desvairada, que se lhe devolva a invenção.
O ser- ficção que se fez . Logo, que se é, diz,
Incessantemente. Ouve-se, agora, em off, a sua voz.

Violeta Teixeira, in AFLUENTES LUNARES, 1º Prémio Literário Afonso Lopes Vieira, 1ª edição, 2000, co-edição Magno Edições/Câmara Municipal de Leiria, 2001

Publicado por Violeta Teixeira em 04/05 às 05:16 PM
Categoria • Poesia

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