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SE CAMINHOS HÁ

Imagem ilustrativa de Raphael Veronese -«Caminhos»

Se caminhos há, não vejo pegadas
De quem os tenha percorrido. A brisa
Tê-los-á rasurado? Ou as vagas marítimas,
Nas areias? Terei os olhos cegos? Nunca
Dei um passo em caminhada alguma?
Raiz tenaz enterrada na profundeza da terra,
Jamais lavrada? Mas tronco cortado, cerce,
Sob os olhos da Lua? Abertos? Velados
Por nuvens cinzentas ou negras, no cimo
De um céu deserto, sem astros luzentes?

Se caminhos há, alguém os terá percorrido,
Sem deixar marcas, sem deixar vestígios do
Haver caminhado? Ou terá ocultado, a cada
Passo dado, no espaço, aparentemente, alisado,
Pelo desconhecido. Egoísmo feroz! Correrá
Algum lençol de água, roendo a raiz? Apodrecida
Na mente de quem se crê que sangue alaga
A lava de veias inexistentes? Mas, lucidamente,
Louca, as alimenta de nada. Também se vive
De ilusórias inverdades. Também se vive,
Se viver existe, dentro de um ser que se
Não move, salvo na saga do se escreve, sem
Se escrever, sem se dizer da morte antecipada.

Se caminhos há, pegadas foram deixadas, nas
Manchas gráficas do corpo de poemas nunca lidos,
Por mentes amorfas ou adormecidas. Incultas, talvez.
Dou, porém, humildemente, o benefício da dúvida.

Violeta Teixeira, inédito

Publicado por Violeta Teixeira em 23/04 às 01:24 AM
Categoria • Poesia

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