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QUANDO ACORDOU JÁ O SOL ESTAVA MORTO

Joan Miró

Quando acordou já o Sol estava morto,
Dentro dos seus olhos amarelo - esverdeados,
De lagarto. Não fora ele o assassino, porque, aliás,
Se o Sol já tinha sido, ele jamais o havia visto
Redondo e dourado, rubro ou ruborizado,
Empalidecido e triste, como o haviam descrito,
No tempo em se cegara, numa cela
Escancarada de iníqua exclusão, pelo facto
Dos seus olhos reclusarem, em segundos,
Horizontes infinitos, fossem da terra ou fossem dos
Céus, do dentro ou do fora dos seus semelhantes,
Que caíssem, por um infausto acaso, no seu espaço,
Incomensuravelmente exíguo, mas sem fundo.

Quando chegou ao termo da sua condenação,
A cela toldou-se de uma cegueira de iluminado.

Passou, então, a ser acusado de demência esclarecida
E cegante. Assustou-se o ser livre, o vidente, e ficou
Para todo o sempre aprisionado numa cela, sem muros,
Com todo o mundo à alerta, vigiando e protegendo os seus
Gestos excêntricos, os seus passos de snob satânico, o mais
Ínfimo mover de lábios ou de olhos ou das maças do rosto.

Deleita-se, desmesuradamente, com a derrocada dos livres, com
Cataclismos cósmicos, com reclusos - reclusos, com a decadência
Dos soalhos e dos tectos, que não pisa, que não vê, com todos os
Emparedados, do sem álcool, sem ervas, sem heroína, sem ópios.

Consagra os seus ódios, excessiva e comedidamente, contra
O assassino do Astro luzente, embora não creia que tenha,
Alguma vez, brilhado uma aurora sobre a sua seara, ou nascido
Luz da boca de alguma noite cerrada de breu, tal como não crê
Na unicidade do eu, na existência de um deus, nem em coisa
Nenhuma, a não ser na extinção radical da urbana humanidade.

Violeta Teixeira, in PARTOS DE PANDORA, Magno Edições, 2001

Publicado por Violeta Teixeira em 29/12 às 03:04 AM
Categoria • Poesia

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