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PORTUGAL: POBRE E OBESO
Gravíssima doença, esta, a da obesidade. Doença epidémica, já considerada pela Organização Mundial de Saúde como a doença do século XXI. Com efeito, ela ameaça, actualmente, metade da população mundial. Trata-se, na verdade, de uma patologia devastadora, na medida em que engendra um leque de outras doenças, nomeadamente diabetes, problemas cardíacos, hipertensão arterial, cancro, etc. Não se pense, todavia, que ela é, digamos, um perigo exclusivo no universo dos indivíduos adultos, pois ela alastra, também, numa progressão assustadora, no das crianças. Uma criança obesa será um jovem obeso, que entrará na idade adulta já com esta patologia, e, neste caso, tem riscos maiores de morrer prematuramente. Alertou o presidente do Grupo de Trabalho Internacional sobre a obesidade « que se os jovens continuarem obesos até aos quarenta, a sua esperança de vida será reduzida em sete anos e, se fumarem, a redução será de catorze».
Ocorre-me perguntar: que se passa em Portugal, onde se celebrou no dia 22 de Maio o Dia Nacional da Luta Contra a Obesidade, país no qual a pobreza está a tornar-se, igualmente, uma doença epidémica, com dois milhões de pobres (tão-somente!), de acordo com os mais recentes dados estatísticos?
Antes, porém, de responder a esta pergunta, faço um apelo ao leitor: em primeiro lugar, observe a imagem eloquente, que encontrei na Internet, e, como pedagógica, ilustra o tema deste escrito. O homem obeso que está a ver é português. É natural. Além do mais, quanto a mim, é obscena. Exibe uma realidade medonha, se bem que seja, julgo, um aviso seríssimo a todos quantos, sendo obesos, façam por mudar o seu estilo de vida, e, aos não obesos, a terem cuidados específicos, de modo a não virem a sê-lo. O seu médico poderá indicar-lhe o regímen dietético que deverá adoptar. Informe-se!
Vejamos, agora, o que se passa em Portugal, relativamente à patologia em questão: se tivermos em conta o maior estudo de investigação, realizado em Portugal, sobre o peso da população nacional com idades compreendidas entre os 18 e os 64 anos, coordenado pela endocrinologista, Isabel do Carmo, estudo, esse, que decorreu entre Janeiro de 2003 e Junho deste ano, chegamos à conclusão de que 57 por cento das mulheres e homens com mais de 30 anos é obesa. Acrescente-se que este estudo é actualíssimo, pois decorreu entre Janeiro de 2003 e Junho do corrente ano. Actualíssimo e cientificamente indiscutível.
Como explicar que um país, com dois milhões de pobres (tão-somente!), de acordo com os dados estatísticos mais recentes, ou, mais concretamente, seis em cada dez portugueses sejam obesos? Como explicar, repito, que 50% da população lusitana esteja afectada pela obesidade? Em princípio, pensava eu, que esta doença afectava apenas os países ricos, aqueles onde reina a superabundância, mas a verdade é que estava plenamente enganada. A minha ignorância dizia-me que os indivíduos sem recursos para adquirirem os bens alimentares essenciais não podiam ser obesos. Atrevo-me, por isso, a perguntar: será a nossa superabundância de luz solar a responsável por tão grave doença? Sim! Porque, segundo a minha perspectiva, é o único bem gratuito que possuímos em abundância. Bem, esse, precioso. Tão precioso que nenhum feliz Bagão se lembrou de instituir uma taxa solar. Seria uma medida política inteligente que evitaria a persistente alienação de património estatal, isto é, de todos nós. Permito-me, por isso, deixar, aqui, ao ministro das Finanças, a sugestão que consiste em obrigar todos os portugueses, independentemente dos rendimentos que declaram, a pagarem uma taxa solar. Nada de taxas moderadoras, como as obrigatórias pela prestação de cuidados de saúde. Uma taxa desta natureza, essa, sim, seria positivamente obesa. Feita a referida sugestão, permito-me, antes de me silenciar, informar o leitor que o peso deste escrito situa-se dentro dos parâmetros da normalidade, assim como a escrevente.
Quanto lamento este Portugal pobre e obeso! Obeso nos sentidos literal e metafórico. Não entremos, contudo, em pânico! Creio mesmo que devemos ter orgulho da nossa posição no «ranking» da obesidade, porque, neste único domínio não estamos na cauda da Europa, e, para mais acentuado júbilo, alinhamos em perfeitíssima consonância com a população mundial, afectada 50% por esta patologia, como já sabemos, e a nossa, um pouco mais. Não tenhamos, pois, a tentação nefasta de cairmos numa situação de desnutrição por causa do espectro da obesidade! A tão falada globalização não abrangerá aquela epidémica realidade?
Crónica publicada na TRIBUNA DA MARINHA GRANDE
Publicado por Violeta Teixeira em 31/12 às 11:41 PM
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