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PORTUGAL: FALTA DE LÍDERES

PORTUGAL: FALTA DE LÍDERES

Como, na última crónica, os meus dedos foram egoístas! Tão incoerentes! Hoje, dizem-me que uma semana de férias passada no meu escritório lhes foi suficiente. Incitam-me, imperativamente, a produzir escrita «engagée», além de me indicarem o objecto temático do texto a haver, recordando-me, ao mesmo tempo, o conteúdo da obra ( por mim lida, mal foi lançada no mercado) «Portugal, hoje, O Medo de existir», da autoria de José Gil, filósofo, ensaísta, professor universitário, considerado um dos 25 grandes pensadores do mundo. Aceito, com agrado, voltar a ser a cidadã empenhada político, social e culturalmente, embora, como sempre, apartidária.
Já porque está na ordem do dia a problemática de candidaturas às eleições presidenciais, passo a lembrar, bem a propósito, o que afirma o referido grande pensador: « Há uma descrença, uma falta de credibilidade dos políticos em toda a Europa e em Portugal, em particular. Isso vem do facto de, cada vez mais, se verificar que aquilo que se promete não é realizado. Temos uma classe política cada vez menos apta e com menos sentido de Estado. Não há líderes. Há uma crise de liderança e um líder é uma pessoa fundamental. Ele deixa de ser um cidadão comum para congregar uma série de forças temporariamente e a dar um rumo. Tem que ter um sentido de Estado, de causa, de dedicação à comunidade. Não é só ao Estado. É ao estado como comunidade. Isso perdeu-se. Vivemos numa sociedade, cada vez mais atomizada, em que cada um pensa só no seu bem-estar, no seu futuro, na sua segurança, face a um exterior cada vez mais inseguro. Há uma baixa de nível e de qualidade dos políticos em Portugal, que é confrangedora.»
Depois desta longa transcrição, direi, de passagem, que, há duas semanas, num outro semanário, foi publicada uma crónica da minha autoria, intitulada Dos Políticos de Plástico, cujo conteúdo está em conformidade com o que, acima, transcrevi. Já lera, nessa altura, a obra supra referida, mas não a entrevista, da qual retirei o transcrito que o leitor acabou de ler. Consonância de pensamentos, estes! Melhor, mera coincidência. Sim! Sou uma humílima pensadora, além de tudo o mais poetisa.
Bem! Volto ao assunto das eleições para a presidência da República. Num país de políticos de plástico, onde, quanto a mim, apenas dois o não são ( o terceiro, Álvaro Cunhal, com cuja ideologia marxista leninista nunca concordei, faleceu recentemente). Faço questão de não revelar os nomes daqueles dois políticos, para não levantar nenhuma polémica, e, sobretudo, porque, como todas as opiniões, a minha é discutível.
Tendo em conta tudo quanto até aqui foi dito, ocorre perguntar-se: que candidatos às eleições presidenciais têm o perfil de líderes, ou seja, apresentam as características, atrás transcritas, segundo a opinião de José Gil?
Após longa e amadurecida reflexão, quanto a mim, humílima pensadora, repito, só Mário Soares. Vejamos, para além do que dele sabemos, o que, recentemente, afirmou: «Contudo, uma aceitação minha, terá de ser tomada numa perspectiva nacional destinada a unir os portugueses e a contribuir para lhes dar estabilidade, segurança e uma nova esperança quanto ao futuro.»
Antes de concluir, direi que nutro um grande respeito pelo ex- Presidente da República, «animal político» desde o berço. Penso, todavia, que a altura chegou de dispensar a espada e pegar apenas na pena, ao contrário de Camões épico, num contexto diferente, ter afirmado:« Numa mão sempre a espada, noutra a pena/».Acrescentarei que o facto de Mário Soares estar disposto a continuar a lutar, apesar da sua provecta idade, só vem provar que o partido socialista não tem nas suas fileiras nenhum líder.
Mas…, e Manuel alegre não apresenta perfil de líder? Embora sabendo que o seu partido o não apoia, nem Soares, não afirmou ele que «parte para a luta sozinho, porque, enquanto se bate a guerra não está perdida (…) um homem não se rende.»? É certo que não é um político de plástico, mas, na minha modesta opinião, faltam-lhe as características de líder. Nem me refiro ao inculto economicista Cavaco, sempre com vestes de 1º Ministro.
Em suma, creio, firmemente, que comprovada está, pois, a tese defendida por José Gil: em Portugal há falta de líderes. «Há uma crise de liderança.» Confrangedora constatação, esta! Somos um país adiado para as calendas gregas. Estarei eu a ser exageradamente céptica? Responda o leitor, se o quiser.

Violeta Teixeira ( crónica publicada no REGIÃO DE LEIRIA - antes da pré-campanha eleitoral)

Publicado por Violeta Teixeira em 08/01 às 11:33 AM
Categoria • Crónicas

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