§ Comentários:


PIRÓMANA

Fico, por aqui, a cismar…
Descerro as mãos. Sorvo
O silêncio do lugar.

Imagens bivalves
Abrem-se-me
Nas veias ferventes.

Saem das valvas feixes
de fenos, de trevos,
De carqueja, secos,
Incendiados pela mão
Pirómana de um moça,
Absorta nas chamas.

Evolam-se, leves, no ar,
Miríades de fagulhas,
Entontecidas
De luz de laranjas.

O vento brando lavra
O fogo numa faixa extensa,
De forma alongada.

Como lhe cheira a terra
Queimada! A fenos, a trevos,
A carqueja, secos.
A moça delicia-se. Delira.

O incêndio extingue-se…
Como lavrar em pedras?
Bela, a Lua derrama sobre
As figueiras-da-Índia,
Uma luz de leite cremoso.

Lava-se as mãos, a pirómana
Da moça, inclinada à porta
De uma gruta, donde saem
Bandos de morcegos, para
A peregrinação da noite.

Regressa a casa, às escuras,
Com olhos luzentes, como
Gatas com cio, pingando
Sangue nos regos, moles
E frescos, de cultivo.

Só adormece tarde,
Enrolada no medo de
Assaltos, roubos, criados.

Sonha com fenos e trevos
E carqueja, secos, devorados
Pelas labaredas. E sonha também…
Morcegos cegos, com óculos.

Lava-se as mãos no leite
Da Lua e aprisiona-a,
Numa rede, dentro de um poço.

Violeta Teixeira, in LÂNGUIDAS FÚRIAS, Magno Edições, 2000

Publicado por Violeta Teixeira em 27/09 às 02:41 AM
Categoria • Poesia

{ ...

vista para fontes

de fundo violeta.
faz-nos bem. ornamentadas palavras, e é nelas que melhor se vive. retrato de espírito livre. cheias de sentidos e vida. majestoso local (blog, todo ele). fervilha.
admiro-te.

parabéns.

© ricardo biquinha

... }

Comentado por © de[mente]  em  27/09  às  09:53 PM

Bom dia, Ricardo!

Obrigada pela visita ao meu desamado espaço e às tuas poéticas palavras.

Um abraço amigo,

Violeta(s)

Comentado por Violeta Teixeira  em  28/09  às  09:34 AM


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