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PESADELO POÉTICO

(...)preciso de me contaminar
para suavizar esta solidão…

CARLO LUCARELLI

PESADELO POÉTICO

I

Acorda, às cinco e trinta da manhã, colada às costas de um corpo gélido. Assustada, com arrepios de frio, apesar do quarto aquecido, salta da cama, e, num gesto instintivo, empurra-o para o chão. Tomba. Hirto. Arroxeado. Não ousa, a escritora, cerrar-lhe as pálpebras, nem cobri-lo. Num rasgo lúcido, passados que foram uns segundos estupe -factos, reconhece a identidade do corpo, com um grito de surpresa.
- Não! Não! Não é possível!
Estivera a escrever um conto até às duas, mas não o havia concluído, como era sua intenção, dado que o protagonista silenciou-lhe o desfecho.
- Mal consigo manter os olhos abertos! «Merde! Merde»! - Grita, enraivecida, enquanto veste um «robe de chambre», em seda vermelha.
Corre até o escritório, e liga, apressada, o computador. Busca o ficheiro do conto inacabado, e vai se dirigindo àquele corpo, com palavras de uma ironia embebida de amargura.
- Que pintor maldito! Por que escolheste a minha cama para dormires? Não te deixei, ontem, de madrugada, no teu atelier? Sim! Não vale a pena me enganares! Acabavas de pintar um tela plagiada de Salvador Dali! Não gostaste dela, e a retalhaste, porque nenhum «marchand» ta compraria, para a revender como autêntica. Julgarás que ignoro o teu talento de plagiador?! Enfim! Mudemos de assunto. De acordo? Sim! Achas delicado, seu terrorista emocional, o me teres acordado a esta hora lavada da manhã, nesse estado assustador? Estás à espera, com certeza, que seja eu, a tua criadora, a cerrar-te essas pálpebras visionárias? Olha para mim, seu pintor maldito? Fechá-las-ias se fossem dois sóis cegos. Julgas que sou eu o médico que te vai passar a certidão de óbito? Ou o legista que te há-de fazer a autopsia? Fica sabendo que é o teu amigo Luís quem vai tratar de todos esses pormenores macabros. Vou levar-te, daqui a pouco, ao teu atelier, e é lá que ele te vai encontrar. Interessante! Dá uma gargalhada, e acrescenta, sarcástica: 
- Sabes, é lá que vou encenar uma «overdose» poética. No «décor» haverá uma lagoa de sangue, pista falsa, obviamente, para intrigar a polícia judiciária. Um pintor maldito, como tu, merecia uma perversidade com mais requinte, não achas? Mas, vá, não te lamentes! Colocarei sobre o teu peito jovem e «sexy», com um prazer elegíaco, um búzio rosáceo, que terás trazido, creio, da fundura do mar, e um fio de sangue, serpenteando o teu corpo, fio, esse, que vai desaguar no teu sexo, « phallós» idêntico ao que vês nas estátuas gregas. Não! Não tomes esta analogia como um elogio! Ouviste? Ah! Já me esquecia de te dizer que vou orquestrar uma sonata marítima. Querias algo de mais artístico, seu elitista?! Falta, eu sei, um grande coroa de anémonas, seu Adónis! Não achas? Não te preocupes! Vou colocá-la sobre o teu corpo, quando estiveres adormecido no caixão. Bem! Vamos para o «atelier»! Não vá chegar antes de nós o Luís… Vamos!

II

A narradora deixa o pintor no seu atelier, e regressa, rápida, a casa. Mete-se na cama, depois de ter fumado um cigarro, e adormece. Ás nove horas, desperta, carregando o peso bruto de um pesadelo, paradoxalmente, poético.
Levanta-se, com um poema «tout fait» digno da excentricidade de Pedro de Almeida, o que prova, pensa, que algumas personagens colam-se como as lapas, aos rochedos, à mente dos contadores das suas histórias, mesmo depois da sua morte.
- Que personagem esta! O poema já saiu da impressora, mas não julgues que irei to dedicar. Vou rasgá-lo, e lançar, solenemente, pétala a pétala, sobre o teu féretro. Não estás à espera que alguém o vá envolver, como derradeiro abraço, a bandeira da pátria, que, aliás, não tens? Ou a da Associação De Artistas, à qual nunca quiseste aderir? Vês o que te valeu a tua tenaz marginalidade «snob»?! Não desesperes? Terás, apesar de tudo, um elogio fúnebre. Quem o proferirá? Não me perguntas? Ora, seu pretensioso, não adivinhas quem o fará? Não me importo de to dizer. É o teu amigo Luís, o que só pinta trechos de paisagens « popularuxas », termo que não utilizavas, é certo, mas nele pensavas, não é verdade? Não mereces qualquer elogio, mas… Olha, além do mais, só assistirão ao teu enterro o coveiro, o Luís, e esta escrevente que, se bem que seja mais marginal, mais rebelde e perversa do que tu, costuma acompanhar as personagens que mata ou lhe aparecem mortas, à terra de que são feitas. - Descasca o silêncio, como se o pintor ainda lá estivesse.
Aqui, se silencia a escritora. Saiba, o leitor, que vai hibernar, debaixo do linho bordado a prata, do seu «édredon» de penas de ganso. Já tomou, há meia hora, a dose adequada a esse fim. Não lhe pergunte de que psicofármaco se trata. Dir-lhe- á, tão- somente, que se considera uma serpente em vias de extinção. Uma vipera seoanei. Assustou-se? Não vale a pena, é um réptil tranquilo e tímido que apenas morde em casos de legítima defesa. Tenha cuidado, sempre que dela se aproximar, com vis desígnios, como fazem alguns bruxos, que utilizam as cabeças desta espécie para as suas bruxarias. Não deixa, por esse motivo de o informar que, apesar de tranquila e tímida, como lhe disse, há pouco, é uma víbora venenosa.

III

O seu relógio biológico, se bem que o seu corpo tivesse permanecido vinte e quatro horas em estado de letargia, alerta-a para o facto de ter que se tornar activa. O funeral de Pedro de Almeida terá lugar dentro de uma hora, o tempo suficiente para se arranjar e fazer, de táxi, o trajecto até o cemitério, situado na parte mais elevada da cidade, de onde se pode beber o mar, com olhos ávidos de água.
- Boa tarde, Sr.Luís Nogueira!
- Boa tarde! Desculpe, é familiar do Pedro?
- Não. Nenhum laço sanguíneo nos liga… Dormiu comigo na noite da sua morte Apenas. Soube, por ele, do seu nome e da vossa amizade.
- Ah! Agora, começo a perceber… - Cala-se, comovido.
- O quê, Sr.Luís?
- Depois, podemos falar disso, se não se importa? Como se chama a senhora?
- Desculpe! Digo-lhe, simplesmente que sou escritora.
Coloco em cima do peito do Pedro uma cora de anémonas, como lhe havia prome- tido. O Luís faz, com uma voz verde e pastosa, o elogio fúnebre, e, fechado o caixão, espalho as pétalas do poema rasgado, na parte onde a cabeça do pintor repousa, olhando, ao mesmo tempo para a expressão do seu único amigo. Perplexo? Escandaliza- do? Chocado? Talvez uma mistura de tudo isso, perante aquele gesto insólito - quem sabe? - excêntrico e herético, para os olhos simples e cândidos do pintor de paisagens.
Despeço-me do Luís. Não suporto os sons brutos da queda das pás de terra.
- Bom! Já cumpri a minha missão, vou dizendo, entrando no táxi, que ficara à minha espera, junto do portão do cemitério.
- Achas que sim, sua serpente perversa? - Pergunta-me, agressivo, o satânico pintor.
- Sim! Que mais deveria eu ter feito? Sê, ao menos, delicado! Deves-me um agradecimento, não sabes?
- Não! Não te devo nada. Queres que te agradeça a morte que me deste?
- Eu? És louco! Por que faria isso, eu, que adoro efebos belos, como tu?! Não me digas mais nada, ouviste? Não ouses invadir, de novo, os meus domínios privados, a não ser que…
- A não ser o quê? Diz lá?
- Se não supões o que seja…
- Não! Mas, neste momento, o que apetece é fumar. Tens um «charro» que me ofereças?
- Sim! Fumemos, se quiseres, os dois. E damos, assim, viciosamente, por finda a nossa relação? De acordo?
- Nunca faço promessas, e, se as fizesse, nunca as cumpriria. Já devias saber…
- Bem! Fumemos! Depois, verei o que fazer para que cumpras o que te pedi. Fume- mos! «Charro» e vida. E morte. Afinal, tudo é fumo…
Acabado o «charro», um silêncio feito de incontáveis camadas, cai, retumbante, sobre os meus ombros. Como descascá-lo? Não sei. Começo a sentir algo que rasteja por baixo da pele de todo o corpo, como se fosse um animal, deslizando veloz.

IV

Na parte baixa da cidade, tomo um café bem forte. Fumo outro charro, e regresso a casa. Ao vazio. Ao vazio absoluto. Branco. Ao vazio, de onde nasce, perversamente pura a minha escrita poética e a narrativa, escrita da serpente e, sobretudo da aranha, que me sou, una e múltipla, de tal modo constelar, que desconheço três das vozes que se dizem, sem que me escrevam. Dizem-se, consoante a temperatura do sangue das luas, do ritmo das marés ou das dunas esvaídas. Serão serpentes? Aranhas? Como saber algo dessas desconhecidas?

V

- Que fazes aqui, no meu atelier? Não nos despedimos para sempre, fumando um delicioso cigarro de «cannabis» Responde! Não olhes para esta tela. Queres saber que continuo a plagiar Salvador Dali ou Vieira da Silva
Emudece.
A escritora tem a impressão que está na presença de um ausente, de um ser, roçando a órbita de um planeta-outro. Para estilhaçar o gelo que se amontoa, começa a dar voltas naquele espaço, batendo, com força, os saltos altos no pavimento de madeira, que geme, sinistro, até aos confins do insustentável. Falta-lhe o ar. E a respiração do suposto ausente é o gotejar de uma torneira lassa.
- Estás a sentir-te mal? Pega num espelho. Que palidez, a tua? Não me vês, é isso? Não reconheces a minha voz? Vais desmaiar? Fala? Além da vista, também perdeste a voz? Chegaste carregada de energia cósmica, bombardeaste-me com uma série de perguntas, e, agora, estas a ficar reduzida a uma ausência. Vá! O que te provocou esse choque ou pânico? Eu? A tela? Invadiste o meu atelier, julgando que eu não estaria… não poderia estar?… Terei desmaiado. Durante quanto tempo? Nunca o saberei.
- Onde estou? Por onde orbitei? Estou a regressar de onde? Do passado? Do futuro? Do presente?
- Tanta panóplia de saberes! Afinal, para nada. Para o Nada. - oiço uma voz, vinda do infinito, filtrada por centenas da anos-luz.
Movo, com esforço hercúleo, os lábios secos e frios, mas não consigo que deles saia, senão frases ou palavras, pelo menos sons, ainda que descosidos. Avulsos. Sem sentido. Nada! O olfacto, recupero-o. Cheira-me a óleos acrílicos, a diluentes, a suor, a perfume e a esperma. Concerto excitante de odores lascivos.
- Então, estás melhor, sua réptil tímida e tranquila?! Continuas a crer que a minha voz vem do infinito? Mudaste de ideias?!
- Não… não… - articula, num tom ténue.
- O que me aconteceu..., sabes?
- Saíste do teu planeta, e andaste a viajar pelo cosmos…
- Eu? Estás mitómano? Ou queres te vingar de mim?
- Ah! Ainda bem! Já estás com os pés na Terra! E a voz te veio. A que propósito falas de vingança? Tens algum remorso te roendo essas entranhas de víbora?!
- Por que motivo?…
- Tanta inocência, a tua! Estás patética! Foi divertida a tua viagem?!
- Chega! Cala-te! Não me aborreças com a tua ironia! Irritas-me! Diz-me apenas durante quanto tempo viajei, como dizes, pelo cosmos infinito.
- Sim! Faço-te a vontade, com uma condição inócua. Se a aceitares, responderei à tua pergunta.
- Diz lá!
- Apetece-me «sniffar». Tens cocaína?
- Sim! Estás a querer me contaminar com mais um vício?!
- Não te faças de ingénua! Já estás contaminada há séculos. Por favor, dá-me uma dose da cocaína que trazes no forro de um dos teus bolsos!
- Estiveste a investigar o meu «blazer» na minha ausência? Claro!
- Mas esperei que regressasses…
- Façamos, então, pela segunda vez, um despedida, comungando um vício! 
Saboreamos os dois as delícias do éden. Cúmplices. Solidários, como todos os viciados no que quer que seja. Inocentemente, fugindo ao tempo que os tiraniza. Fuga efémera. Ilusória. Somos lúcidos. Não nos dêem lições de um moralismo de sacristia bafienta!
- Bem! Que pergunta me queres fazer?
- Tem a ver com o que chamaste, há pouco, cosmos infinito…
- Fá-la, então! Estou a ficar cansada, e com vontade de hibernar…
- Olha! Não aprendeste, nas centenas de obras que já leste, que «o finito é o infinito, e o infinito o finito.» E que «o presente é a eternidade.»?

Violeta Teixeira (inédito – CAVALO DE FOGO-CONTOS ATÍPICOS)

Publicado por Violeta Teixeira em 28/05 às 01:37 PM
Categoria • Contos

{ ...

Ufff… texto bom mas extenso de mais… smile
tens que dividir estes textos em vários post’s
é necessário tempo, investir tempo nestes teus textos o que nem sempre é possível…

© exactu

... }

Comentado por © exactu  em  31/05  às  12:09 AM

Concordo, mas não sou capaz de mutilar um «filho» Faça-o o leitor.
Obrigada pela avaliação positiva e pelo consellho, conselho, esse, que não seguirei.

Beijo, sem recheio de pesadelo.

Comentado por Violeta Teixeira  em  31/05  às  02:32 AM

Bologna hotels

Comentado por Bologna hotels  em  26/07  às  04:26 PM

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I do not agree. Go to http://www.plhotelonline.info/photels1/Belgium/Capital_Region/Brussels-hotels.html

Comentado por Brussels hotels  em  17/12  às  04:55 AM


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