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PARA OS POUCOS LOUCOS-LÚCIDOS

Gustavo P. Ortiz

Quando acordou já o Sol estava morto,
Dentro dos seus olhos amarelo - esverdeados,
De lagarto. Não fora ele o assassino, porque, aliás,
Se o Sol já tinha sido, ele jamais o havia visto
Redondo e dourado, rubro ou ruborizado,
Empalidecido e triste, como o haviam descrito,
No tempo em se cegara, numa cela
Escancarada de iníqua exclusão, pelo facto
Dos seus olhos reclusarem, em segundos,
Horizontes infinitos, fossem da terra ou fossem
Dos céus, do dentro ou do fora dos seus semelhantes,
Que caíssem, por um infausto acaso, no seu espaço,
Incomensuravelmente exíguo, mas sem fundo.

Quando chegou ao termo da sua condenação,
A cela toldou-se de uma cegueira de iluminado.

Passou, então, a ser acusado de demência
Esclarecida e cegante. Assustou-se o ser livre,
O vidente, e ficou para todo o sempre
Aprisionado numa cela, sem muros,
Com todo o mundo à alerta, vigiando
E protegendo os seus gestos excêntricos,
Os seus passos de «snob» satânico,
O mais ínfimo mover de lábios
Ou de olhos ou das maças do rosto.

Deleita-se, desmesuradamente, com
A derrocada dos livres, com cataclismos cósmicos,
Com reclusos - reclusos, com a decadência dos
Soalhos e dos tectos, que não pisa,
Que não vê, com todos os emparedados,
Do sem álcool, do sem marijuana, sem
Heroína, sem cocaína, sem ópios.

Consagra os seus ódios, excessiva
E comedidamente, contra o assassino
Do Astro luzente, embora não creia que tenha,
Alguma vez, brilhado uma aurora sobre a sua
Seara, ou nascido luz da boca de alguma noite
Cerrada de breu, tal como não crê
Na unicidade do eu, na existência
De um deus, nem em coisa
Nenhuma, a não ser na extinção
Radical da urbana humanidade.

Violeta Teixeira, in PARTOS DE PANDORA, Magno Edições, 2001

Publicado por Violeta Teixeira em 01/10 às 12:46 AM
Categoria • Poesia

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