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ORQUÍDEA SELVAGEM
Só as casas explicam que exista
uma palavra como intimidade.
RUY BELO
ORQUÍDEA SELVAGEM
I
Afastou-se, discretamente, do acampamento na floresta, onde fora passar uma semana impelido por uma busca desesperada da melodia odorífera do silêncio das árvores, das aves, das nascentes, dos pequenos lagos, cansado que estava da babel e do lodaçal urbanos.
Romancista medíocre, poeta, diseur expressivo e sensível de poemas seus e alheios, envelhecido pelo excessivo consumo de bebidas alcoólicas, para segurar o peso das múltiplas máscaras sobre os palcos, Francisco Teles, perdeu, naquela primeira tarde, o rumo do regresso à sua tenda, plantada, propositamente, bastante afastada das demais. Só via árvores enlaçadas e um matagal luxuriante e denso. Na terra castanha, e mole, dado o grau elevado de humidade, nem uma pegada impressa fazia crer que alguém por ali havia passado. De repente, deveras desbussulado, ouve, não sabe calcular a que distância, um murmúrio de uma nascente. Avança, apressado, com os sapatos enterrados na lama, em direcção daquela música de águas.
Sem fôlego. Uma ténue esperança, respingando-lhe o coração, encontra-se na borda de um lago. Suado, despe-se e mergulha. Vontade de lavar o corpo e a psique, sujos e roídos pelos parasitas citadinos, cinicamente civilizados.
- Quelle merde! Que água fria! Que lodaçal! - exclama com fúria.
Tem a impressão claríssima de que o sangue flui, célere, no leito estreito das veias e que se faz da cor da lama e do lodo, desde a nascente até à foz.
- Enlouqueço de vez! E se cortasse as veias?! Pintava de castanho- esverdeado a tela da existência, agora, que a sinto, sem a sentir. Ou a morte, cuja raiz é a mesma.
A imaginação delira. Febril. Crespos e lívidos, se tingem costados de barcos aprisionados sem âncoras, ao cais do seu desespero de pedra, e realiza, com uma espécie de paz absurda, de que não haverá viagem de volta. Veste-se, e, descalço, toma o rumo ou, talvez, o desrumo, ávido de um banho quente e de uma meia dúzia de garrafas de cerveja, lúcido da morte que o enreda, na trama das teias, visíveis, apesar dos olhos nublados. Uma ave canora olha-o, atonicamente. Acende-lhe a vista e o vício. Abre o frigorífico. Num gesto anuidor e silencioso, retira uma garrafa de cerveja e bebe sete goles vorazes. Acende um cigarro. Fuma-o, com um prazer feroz, convicto de que fumo e álcool afogam angústias e vazios. Continua, por isso, a beber e, como não tem ninguém a quem brindar um nada, salvo um coaxar dentro do copo, fá-lo, até os dedos estremecerem, até um jacto de fogo começar a trepar as pernas, e, da garganta azeda, um grito cósmico se soltar.
- Estou bêbado! Estou livre! Não tarda descubro o rumo… De quê?…
- Ninguém dará conta do meu desaparecimento. Ninguém! Quem viria em busca de um ninguém? - pergunta-se, enlameado, num charco de uma de abulia glauca.
II
Senta-se num pedregulho, sob um chuveiro ralo de luz, pingando por entre a copa de um álamo frondoso e imóvel. Aquece-se. Ou imagina-o. De súbito, debaixo dos seus olhos, toda se abre a vulva húmida de uma orquídea selvagem. Apanha-a. Põe-se a lamber, lascivamente, as gotículas de água daquela pele macia. Esquece-se, assim, que se encontra perdido. Encostado ao tronco erecto de uma árvore, acaricia a flor, e, ao mesmo tempo, uma das várias amantes, a que dele, com certeza, já se esqueceu, exibindo as longas pernas desnudas, nos palcos da cidade, além dos seus olhos verdes. Fundos. Hipnóticos. Penetra-a. Rega-a de sémen, mas, logo, a deixa, enrodilhada em lençóis azul- marinho. Há que fazer uma gestão rigorosa das suas energias genésicas, vai pensando, enquanto abre a porta do carro. Dentro, pega em três garrafas de cerveja. Bebe, com avidez compulsiva, sem intervalos entre os goles, todo o conteúdo. Só depois arranca, com os dedos trémulos, ao volante, como se tivesse pressa de regressar a casa, se casa se podia chamar, onde o esperavam paredes sujas e mudas, solidão e vómito. Além de cerveja, vodka, tabaco, papier ambré, para enrolar cigarros, e uma velha máquina de escrever, numa mesa pequena, contra uma parede, rendilhada de fissuras, onde, por vezes, se balançavam aranhas, na ponta de fios finíssimos e fortes, ou serpenteavam centopeias pacíficas. Incoerências legítimas, estas, pensa a narradora, com uma cumplicidade, sem casca dura envolvente.
III
Um crepúsculo ameaçador despenha-se sobre a floresta. Gotas grossas de chuva são uma sinfonia grotesca, aguçando os seus medos, e, ao mesmo tempo, libertando-o de si mesmo. Desbrava um monte de silvas, e toma um rumo oposto, parece-lhe, ao da vinda do acampamento. Segura-se às rédeas do instinto, que lhe acena com o encontro de um qualquer atalho, ainda que desviante, mas conducente à sua tenda. Avança na mata escura aos tropeções. Aquele rumo desconhecido há-de levá-lo seja lá onde for. Pouco lhe importa o onde, desde que encontre um vestígio de algo humano, pensa. Mas a verdade é que, por mais passos que vá dando, só ouve vozes de animais e o esvoaçar veloz do vento, por entre ramagens inquietas. Falecem-lhe as forças. Escorrega nos galhos secos e espetados do desespero e da impotência. Junta, com pena de si próprio, o seu choro aos guinchos dos morcegos. Chora-se, até as lágrimas abrirem regos de fogo no rosto e manchas negras na mente.
- Morro-me! Merde! - murmura, salivando secura ácida.
Tomba, como se fora um fardo de feno seco e deslaçado. Síncope? Não. A queda é o recolhimento do escritor na sua casca de caracol, sem cornos ao Sol, que não faz. Morto de fraqueza, o homo sapiens ainda conserva umas gotas de seiva, as suficientes para fantasmar uma vulva humidamente quente, onde se abriga, como se fora a oikos primordial. Existe e inexiste-se. Está ali, sem o ser. Desconhece-se. Andrógino? Que sabe ele do que não sabe? Enrosca-se. Agasalha-se? Talvez. Não lhe peçam racionalidade! Que poder tem a razão prática sobre um indivíduo, à borda do nada? Deixemo-lo. Sim! Deixemo-lo, enleado à desrazão. Perdido, é certo, mas abrigado da adversidade, num desabrigo de seda virgem. Deixemo-lo. A saída daquele fosso, se de fosso se trata, é apenas fruto da nossa razão sensível, da nossa imaginação, lançando labaredas na oficina da estética. Esperemos que o bicho, supostamente, cogitante, encontre a porta do seu labirinto, cujo Minotauro é ele mesmo, muito embora se não dê conta. Que sabemos nós dos nós que nos aprisionam? Que sabemos nós do como os deslaçar, aos laços do invisível terribilis? Aos fios da desistência da navegação no leito das veias sinuosas? Cerremos os olhos. Imaginemos que são brancas as velas da narrativa a bordo do qual navegamos, sem destino, ao alcance da nossa vista, dada a cegueira que somos. Deixemo-lo, ao escritor, tecendo ou destecendo - não o sabemos - as teias do seu achamento, sem babas, aparentemente, à mostra. A nossa perdição é bem outra.
IV
Enrola, com vagares serenos, um cigarro, sentado à mesa da escrita. Fuma e, de um vazio fundo, um longo poema se faz, marginado ao centro da folha. É um barco encalhado num banco de areia, contra uma falésia, eriçada de cactos gigantescos.
Francisco Teles levanta-se. Os seus olhos não suportam o peso daquela forma gráfica. Talvez umas cervejas desfaçam o presságio trágico do corpo daquele poema, vai pensando, enquanto bebe, pelo bocal, duas garrafas de cerveja gélida. Retira, depois, da máquina, com raiva muda e cega, o barco da iminência da destruição. Gotas de sangue pingam-lhe da ponta de todos os dedos, e o soalho é um arquipélago de cacos de vidro e de respingos de espuma, com minúsculas manchas vermelhas. O barco, esse, é uma montanha de destroços, num dos cantos do escritório, sobrevoado por gaivotas. Colado à cadeira, pesam-lhe de tal modo os olhos, que naufraga no sono, como uma criança cansada dos deveres escolares. Ei-lo, magro e ágil, no recreio, a jogar à bola, gritando que marcou um golo, apesar de um joelho ferido, na véspera, por um adversário mais forte e mais velho do que ele. O jogo continua durante horas. A sala de aulas é a ausência da professora gorda e castigadora. Os livros e os cadernos são um alvoroço de asas, sobre as mesas e as cadeiras vazias.
Toca o telefone. Toca a campainha da porta do apartamento. Continua no recreio o exímio jogador, mas, agora, estranhamente só, atirando a bola contra as paredes, contra a sebe de pedra que circunda a escola, contra o ventre obeso da professora.
V
Finalmente, acorda, com uma dor aguda na garganta, e a noite, definitiva, instalada na floresta. Uma noite medonha, pesando-lhe sobre os ombros débeis, como se todo o Universo se tivesse despenhado em cima.
- Maldita floresta! - grita.
Grita. Inaudível. Enfurecido. Assaltam-no a fome, a sede e o frio. Bicho encurralado, procura o brilho de um astro. O céu, porém, se lá está, alguém o forrou de alcatrão.
- Maldita floresta! - grita, de novo, rouca e dolorosamente.
A garganta é um desfiladeiro áspero, seco, cheio de espinhos. De súbito, alonga um braço, despido de intencionalidade Uma mão toca numa pedra. Escorrem gotas, ao erguê-la. Lambe, com voracidade animalesca, a minúscula lagoa. A sede, agora, é uma ausência de cerveja, a fome, a de um corpo róseo de lagosta. Espicaçado o instinto de sobrevivência, põe-se a esmagar e a comer as primeiras folhas que roçam a pele flácida dos braços. Sente-se um herbívoro saciado? Um homem dos tempos primevos? Talvez, sem que nisso tenha pensado. Não ousa a escritora lho perguntar, até porque, creio, ele não poderia responder-lhe. Arrepiantes, lúgubres, assustadores e belíssimos, chegam-lhe aos ouvidos os sons musicais de um coro de uma alcateia, algures, na fundura da noite dos tempos, em que os animais seriam não seres inferiores ao homem, mas companheiros, no misterioso e complexo ecossistema do chão matricial, a cujas águas uterinas, quente e sereno retorna. Grato e conciliado com o Nada - Ser que somos.
Violeta Teixeira
Inédito ( COLECTÂNEA: CAVALO DE FOGO- CONTOS ATÍPICOS)
Publicado por Violeta Teixeira em 10/06 às 08:27 AM
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GOSTARIA DE SABER + SOBRE A FLOR E VER COMO QUE E ELA QUANDO COMEÇA A NASCER
JA FICO MUITO GRATA
Comentado por em 11/01 às 02:43 AM