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O ÚLTIMO GRAU DA PERFEIÇÃO COSTUMA SER O PRIMEIRO NA ORDEM DA CORRUPÇÃO

Mark Citret

«Os que crêem que sabem mais que os outros, ou se enganam, ou se persuadem bem: se se enganam, o mesmo engano lhes serve de ludíbrio; se se persuadem bem, a vaidade da ciência os faz tão ferozes, e severos, que ficam sendo insuportáveis. A ciência humana comummente se reveste de um ar intratável; imagem tosca, desagradável, e impolida. A especulação traz consigo um semblante distraído, e desprezador; quanto melhor é uma ignorância educada. Toda a ciência se corrompe no homem; porque este é como um vaso de iniquidade, que tudo o que passa por ele, fica inficionado: as coisas trabalham por se acomodarem ao lugar donde estão, e por tomarem dele as propriedades, só com a diferença, de que as cousas boas fazem-se más, porém estas não se fazem boas. Nas sociedades, o mal é mais comunicável; a perdição é mais natural; o que é bom, mais depressa tende a perder-se, que a melhorar-se; os frutos da terra quando chegam ao estado de maturidade, nem persistem nele, nem retrocedem para o estado de verdura; antes caminham até que totalmente se arruinem; por isso o último grau de perfeição, costuma ser o primeiro na ordem da corrupção.»

Matias Aires, in ‘Reflexões Sobre a Vaidade dos Homens e Carta Sobre a Fortuna’
Aires, Matias

(1705 - 1763)

«Escritor moralista português, estudou no colégio jesuíta de Santo Antão, em Lisboa, e cursou Direito na Universidade de Coimbra (1723). Viveu em Paris entre 1728 e 1733, onde estudou direito civil, direito canónico, física, química e matemática. Após a morte do pai, e já em Lisboa, herdou o lugar de Provedor da Casa da Moeda, que ocupou entre 1744 e 1761. Escreveu as Reflexões Sobre a Vaidade dos Homens (1752), obra de grande êxito na época, marcada pelo sentimento bíblico da visão do homem como joguete da sua própria vaidade e que revela as qualidades de prosador de Matias Aires. Relacionou-se com alguns estrangeirados, salientando-se Alexandre de Gusmão.»

«Estrangeirados era um nome pejorativo que era dado em Portugal aos intelectuais portugueses dos finais do século XVII e particularmente no século XVIII, o século do Iluminismo, que tinham vivido no norte da Europa ou que tinham tido contacto com novas ciências, desconhecidas em Portugal e que por terem tomado contacto com uma realidade estrangeira mais “moderna” (liberdade de pensamento, revolução científica, secularismo, democracia, nascer do capitalismo) eram desprezados por sectores influentes da sociedade portuguesa, católica conservadora, autocrática, que ainda menosprezava as idéias da Europa protestante.
Em Portugal, como em outros países católicos, o Index Librorum Prohibitorum ainda era corrente, mais de dois terços da população era ainda analfabeta e as Universidades Portuguesas ainda ensinavam matérias da escolástica da Idade Média.
Os principais aparelhos repressivos eram a Inquisição, visando os inimigos de Roma, e a polícia política, combatendo as ideias da Revolução Francesa. Os judeus continuavam a ser perseguidos, bem como os maçons, que atacavam a Igreja com o anti-clericalismo e com a filosofia do naturalismo, negando a existência do sobrenatural.
Neste contexto de um país que permanecera em estagnação perante o norte da Europa, onde a Revolução Industrial lançava a humanidade numa nova etape de prosperidade material, os “estrangeirados” constituiam uma elite que permanecia marginal à sociedade portuguesa. Em alguns casos foram alvo de perseguição política e religiosa.
A França, um país católico e como tal com uma cultura mais semelhante à nossa, com uma língua latina e menos distante do que outras nações desenvolvidas, foi o principal ponto de referência para esta geração de pensadores portugueses.

Alguns “estrangeirados”
Um português que activamente se empenhou nesta tentativa de regeneração do país foi Luís António Verney, autor do Verdadeiro Método de Estudar, base da política educativa reformista do Sebastião José de Carvalho e Melo Marquês de Pombal. O Marquês de Pombal, que viveu alguns anos na Áustria e Inglaterra era ele próprio um estrangeirado. São de mencionar também os nomes de Luís da Cunha, Alexandre de Gusmão, Jacob de Castro Sarmento e António Nunes Ribeiro Sanches, entre outros estrangeirados célebres.»

Publicado por Violeta Teixeira em 29/03 às 06:55 PM
Categoria • Reflexões

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