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«O CARÁCTER É INALTERÁVEL»

Henry Moore

«O que é que se pode perguntar das pessoas com palavras? O que vale a resposta que uma pessoa dá com palavras e não com a realidade da sua vida?… Vale pouco (...) São poucas as pessoas cujas palavras correspondem por completo à realidade das suas vidas. Talvez seja esse o fenómeno mais raro da vida. Na altura, ainda não o sabia. Agora não me refiro aos mentirosos, aos safados. Só penso que conhecer a verdade, adquirir experiências, de nada serve, porque ninguém consegue mudar o seu carácter. Talvez não se possa fazer mais nada na vida que adaptar à realidade com inteligência e cautela essa outra realidade inalterável, o carácter pessoal. É a única coisa que podemos fazer. E mesmo assim, não seríamos mais sábios, nem mais protegidos… »

Sándor Márai, in ‘As Velas Ardem Até ao Fim’

Publicado por Violeta Teixeira em 28/04 às 02:30 PM
Categoria • Reflexões

O que me sobressalta nas palavras, como materializações de focos de pensamento ou fluxos de reminiscências, é o facto de, as memórias, as lembranças, serem tal como a máscara dos ditos, passageiras e pretensiosas. Acho que Saramago disse algo como: “as palavras tal como as pessoas, mudam facilmente de opinião”; e ao recordar-me do pouco que li de António Damásio, ocorre-me reflectir de que forma, a reformulação, a reinterpretação, a organização disposicional das recordações, se sobrepôem, como mil folhas que substituem a indumentária velha das convicções, e se tornam novas convicções. Eu já revisitei inúmeras vezes o relicário das minhas memórias, e assusta-me pensar que, mais do que perder rostos na neblina da poeira, os pintei e moldei à imagem das interpretações do meu corpo e da minha mente.

Um sincero obrigado por este espaço.

Comentado por Guilherme Gomes  em  28/04  às  05:06 PM


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