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CANTO O BICHO COGITANTE
Osmund Caine («Clochards de Paris»)
Canto a queda pela escada abaixo
Do álcool e do ópio; canto a sub-cave onde
Os fumos dos infortúnios não facultam a subida
Das escadas; canto os olhos esmagados do Sol
Contra as grades da vida: canto o buraco do tecto
Onde não cabe a Lua, nem o mais exíguo dos astros,
Nem o corpo de um rato que, de quando em quando,
Espreita, esfomeado, o lixo do quarto onde me
Embebedo e me hiberno, sobre os retalhos sujos
Da colcha de todos os abandonos; canto a cigarra
Que, se tendo afastado do corpo da orquestra, cai
Dentro do copo da mágoa extrema; canto os
Belíssimos insectos que me infestam muros, objectos,
Restos de nada, e me tingem de negro os cortinados
Espessos dos olhos, olhos com vastas varandas
Que dão para os infernos; canto os visitantes que me
Não visitam, mas que zumbem insultos e gargalhadas;
Canto o amarelo flamejante dos lobos, cujos uivos
Me enraiveçam, em noites de histeria degradante, de
Delírios, de gritos, de vómitos; canto, em suma, a miséria
Do vil e miserando bicho cogitante, na borda de um rio
Que não consta no mapa hidrográfico deste canto.
Violeta Teixeira, in LÂNGUIDAS FÚRIAS, Magno Edições, 2000
Publicado por Violeta Teixeira em 29/04 às 04:45 PM
Categoria • Poesia •
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