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NECRÓPOLE PAGÃ
Asas mutiladas, tombam, abruptos, desbussolados, bandos
De pássaros, no lajedo tosco do poema inconcluso: necrópole
Pagã em ruínas. Pouso, debalde, a caneta, olhos aprisionados
Pela surpresa sangrenta. O escrito faz-se a si mesmo, ou, dito
De outro modo, os dedos grafam o insólito, gravam no lajedo
Basáltico do corpo nunca concluído do poema. A custo, me
Levanto. Apanho, cuidadosa e candidamente, o que resta dos
Mortos e dos moribundos: asas esbranquiçadas murchas, bicos
Retorcidos, patas, sem penugens, curvadas, debitando fios
Grossos de sangue, vívido ainda, quilhas quebradas; olhos
Negros, se bem que abertos, cegos e mudos e absortos.
De súbito, decido-me pelo óbvio: adorno o guardanapo
Branco do escrevo, sem que me escreva, a mim, com
Coágulos excêntricos de sangue carmesim. O poema, esse,
O se faz só, prossegue o seu curso, alheio à vontade da
Poeta sádica, e, no agora, ao mesmo tempo, extasiada,
Lagrimando, embora, a bizarra e sórdida mortandade.
Violeta Teixeira (inédito- ORGIAS DE ESQUECIMENTO)
Publicado por Violeta Teixeira em 30/06 às 09:11 AM
Categoria • Poesia •
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