§ Comentários:
NÃO! NÃO DIGO MAIS NADA!
Manray
Não! Não digo mais nada!
Já disse tudo. Já me desnudei até
Aos ossos da alma, que tanto
Me doem, que parecem quebrados.
Que sejam falsas as verdades que
Desaguei no veludo do divã, nada
Importa. Tudo fica nos fundos, nos
Longes ocultos, inacessíveis. Basta!
Basta! Tenho as emoções que não tenho,
Onde quer que estejam. Não insistam!
Já disse! Não rastejo mais nesses
Túneis medonhos! Não me dissequem
Os sonhos! Basta! Estou cansada!
Cansada de tudo! De nada!
Adormeçam sobre a poltrona
Cómoda e convicta do vosso Ego pseudo
Cientifico! Eu fico à porta do desconhecido.
Fico sentada. Só. Nas escada da minha
Bisavó, contando os degraus, os vasos
De plantas, os cachos de insectos, e, se
Faz noite escura, interrogando os astros.
Como os recordo, meus deuses de fogo!
No tempo em que era bisneta, e os deuses
Já estavam mortos, embora me fascinassem
Essas rútilas metáforas. No agora, tenho os olhos
Cegos, ou, nos céus, cegos são os astros.
Faço silêncio. A sessão, não tarda, termina, mas
Como me ferem as pupilas do velho Freud!
Como me apetece arrancá-las! Desço, dois
A dois, descalça, os degraus da escada da minha
Bisavó, e vou, correndo, apanhar figos roxos, ameixas
Rainha-cláudia, mangas ainda verdes, uvas Moscatel.
Não! Não haverá próxima vez! Basta! «Merde»!
Grito-me para dentro. A Terra continuará a girar,
Sem que lhe interesse o porquê, e só acaba para
Quem se desiste. Nada se dará conta de nada. E o divã,
Que eu saiba, não se afeiçoa ao corpo de ninguém.
Violeta Teixeira, Inédito ( BOLORES DE AUSÊNCIAS)
Publicado por Violeta Teixeira em 30/04 às 05:48 PM
Categoria • Poesia •
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