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«NADA É DRAMA, TUDO É INTRIGA E TRAMA»

«NÃO HÁ DRAMA, TUDO É INTRIGA E TRAMA»

Nesta nesga rectangular da terra hispânica nada acontece, «não há drama, tudo é intriga e trama», «escreveu alguém ao longo da escadaria de Santa Catarina que desce para o elevador da Bica. Nada acontece, quer dizer, nada se inscreve- na história ou na existência individual, na vida social ou no plano artístico.»
Se «nada acontece», se «nada se inscreve», como encontrarei eu um objecto temático de modo a que preencha uma folha virgem com grafemas de imprensa? Melhor. Grafemas, sim. Bastar-me-á ir colhê-los no alfabeto fenício-latino. Mas… Mas como acasalá-los por forma a obter semas plenos de sentido? Mais. E como organizar uma sintagmática narrativa legível, com cerca de 4 mil grafemas?
Não! Impossível desígnio, este! Resta-me tão-só, creio eu, repetir até à exaustão a dimensão daquela página, com as expressões «nada acontece», «nada se inscreve», «não há drama, tudo é intriga e trama». Que me chame o leitor louca, fundamentalista, antipatriótica! Seja. Faça-o! Ou, então… Outra ideia me iluminou neste agora. Qual? «Palavrar» sobre o passado histórico remoto, designado de epopeico, o qual, «de direito, se inscreveu já, de toda a maneira – mas onde?» Porque, curiosamente, aquele «graffiti» tentava inscrever a impossibilidade de inscrever (…)». Na verdade, o Portugal de hoje, o da «não-inscrição prolonga o antigo regime (…). Porque inscrever implica acção, afirmação, decisão com os quais o indivíduo conquista autonomia e sentido de existência. Foi o salazarismo que nos ensinou a irresponsabilidade, reduzindo-nos a crianças, crianças grandes, adultos infantilizados».
«E se tudo se desenrola sem que os conflitos rebentem, sem que as consciências gritem, é porque tudo entra na impunidade do tempo - como se o tempo trouxesse, imediatamente, no presente, o esquecimento do que está à vista, presente.».
Assim sendo, desistirei de concretizar a primeira intenção à qual, acima, me referi, e remontar ao passado histórico. Ao glorioso, obviamente. Não se tenha, contudo, a ilusão de que irei escrever um poema épico.
Começarei por ilustrar este escrito com a imagem do mapa físico e frio deste rectângulo hispânico, o qual (para nosso bem?) começou a ser desenhado por D. Afonso Henriques, a partir do Condado Portucalense, herdado pelo pai, D. Henrique, vindo da Gália para casar com Dª Urraca, acompanhado de várias famílias, entre as quais a família Teixeira, aquela que, como fizeram muitas outras da nobreza, se dividiu, aquando da Batalha de Aljubarrota. Alguns elementos lutaram ao lado dos castelhanos, legítimos herdeiros da coroa portuguesa, de acordo com a lei dinástica em vigor; outros, nas hostes do Beato D. Nuno Álvares Pereira. Aos traidores se refere Camões em «Os Lusíadas» nos versos que se seguem: «(…) no reino escuro de Sumano (inferno)/ Dizei-lhe que também dos portugueses/ alguns tredores houve alguãs vezes/». Não me importo de confessar que esta escrevente, segundo investigações genealógicas feitas pelo pai e, posteriormente, por ela, descende de um daqueles traidores a que se refere Camões, embora, séculos depois, um seu descendente tenha sido um dos (re) descobridores da Madeira, tendo sido donatário de metade da ilha, passando a residir em Machico, vila onde nasceu o meu avô materno. Já que falo do Tristão Vaz Teixeira (este último apelido pertencia à mulher), faço questão de dizer que ele ou o filho (tinham o mesmo nome) fez parte da chamada Escola Poética da Madeira, tendo poemas galantes no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende. Ocorre-me, por isso, perguntar: não terei herdado um genes poético deste meu ascendente? Se assim foi, devo agradecer às maravilhas insondáveis da genética.
Como o leitor já verificou, remontando ao passado, acabei por organizar esta narrativa. Mal estruturada? Talvez. Além do mais, sem intencionalidade prévia, incluí-me, orgulhosamente, nela. Por que não? Dado que neste país da «não-inscrição» quem demonstra talento em vida, só, depois de bem morto, vem a ser reconhecido, talvez me suceda o mesmo. No meu caso concreto, vir a fazer parte da História da Literatura Portuguesa, como o meu antepassado. Pretensiosa, eu? E se for?
Concluo, lamentando que, por falta de espaço, não me foi possível inserir, no mapa, a bandeira da Pátria Lusa. Assim, poderia «nuancer» o meu antipatriotismo evidenciado, com limpidez sincera, neste texto. Dir-lhe-ei, caro leitor, para terminar, que aquele sentimento talvez se deva à Genética ( por vezes cruel):  não fluí, nas minhas veias, uma única gota de sangue português. Sim. Sei. Não o convenci. Lamento.

Violeta Teixeira

Publicado por Violeta Teixeira em 31/05 às 12:23 AM
Categoria • Crónicas

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