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MISTÉRIO
Todas as coisas têm o seu mistério, e a poesia é o mistério de todas as coisas.
Federico García Lorca, in Conversa Sobre o Teatro
MISTÉRIO
O mar era uma placa rutila de zinco. Quisera o jurista banhar os olhos nas águas, como, frequentemente, fazia, levantando-se da secretária, com processos amontoados, apelantes de pressas imperativas, para se debruçar numa janela envidraçada, na qual o Sol desenhava reflexos de águas policromas e de uma suave brisa flutuante.
Naquele fim de tarde, todavia, em vez de banhar os olhos em água atlântica, passeava-se, bebendo, ávido, a beleza do zinco rutilante. O jurista Horácio de Mendonça, diletante, dizia, para dentro, uns versos, da Ode Marítima de Álvaro de Campos. Uma brisa branca, de algodão, desabrochando de uma vagem enorme, acariciava-lhe o rosto, como se mãos fossem de uma amante.
Soaram, insistentes, os telefones fixo e móvel, mas o jurista era uma presença ausente.Ali, à janela, a imaginação tinha desfraldado as velas, e, à deriva, o barco deixara o cais, rumo a paragens exuberantes, de coqueiros, palmeiras, tamareiras e um sem- número de árvores, cujo nome desconhecia. O mar, esse, era um xaile, com franjas de corais multicolores, no qual uma esfera de fogo penetrava, com vagares, ostensivamente lascivos, como o olhar poético de Horácio percepcionava, segundo me parece.
Sem se dar conta, o jurista havia atracado o seu barco ébrio de verde, e subido os degraus de pedra negra de um cais, numa ilha, aparentemente deserta. Avançou lento e surpreso. Aventurava-se numa ruela empedrada, sem que vislumbrasse o rumo do que quer que fosse, quando, altivo, se ergueu diante dos seus olhos, tingidos de uma névoa enegrecida, uma espécie de fortaleza. Aproximou-se. Não tendo encontrado entrada alguma, deu voltas atónitas a todo o recinto amuralhado, mas sem ameias. Estranhou a falta da presença de guardas, a ausência de tochas, de placas brancas grafadas, explicativas de rotas, de entradas, de saídas. Andando, num piso térreo, por ruas nuas, estreitas, curvilíneas, das fendas invisíveis dos muros, saíam múrmuros silêncios, e, no cimo, asas sem quilhas, ensaiavam acenos ilegíveis, avisos, talvez, talvez ameaças de perigos, de interdições veladas. Não se assustou, porém. Antes, insistiu em refazer, vezes inúmeras, todo o percurso que circundava o recinto, e, seguramente, terá pensado que fosse impenetrável. De repente, uma espécie de um túnel, com uma tocha ao fundo, pareceu-lhe, iluminou a sua vista verde, e, ao mesmo tempo, uma figura esfíngica se exibiu, emoldurada de pétalas de seda policromáticas. O viajante olhou-a, extasiado. De repente, soltaram-se dedos e novelos intactos. Em silêncio. Suplicou, então, o viajante que, de uma meada acobreada, um fio lhe fosse lançado e lhe orientasse o desvario. Uma entrada se desenhou. Falsa? Perguntou-se. Desnudou-se de um medo acídulo, que começara a sentir, sem sentido, crê a narradora, e avançou em direcção a um alegado ludíbrio, recluso de uma ilusão tingida de algo oculto. Deu mais três passos. Pousou, em breves e eternos segundos incrédulos, na polpa violácea da sua mão, um fio de cânhamo acastanhado e incandescente. Não cria, o viajante, no que estava a ver, mas agarrou-se a ele, com uma força inusitada.
Onde se ocultou o fantasmástico ser, que vira ao fundo daquela espécie de túnel? Aquela figura esfíngica e serena? A mesma, julgou, que lhe lançara o fio, o qual apertado, segurava. Se bem que só vislumbrasse uns olhos verdes e hipnóticos, o certo é que eles o guiavam, o cativavam e lhe excitavam todos os sentidos. «Não! Não sou Teseu!», disse, para si mesmo. Nem havia, portanto, nenhum Minotauro naquele espaço semelhante ao labirinto de Creta. Seria uma Ariadne-outra, todavia, a figura que o orientava no interior daquele recinto amuralhado? Não! Que ideia absurda, a sua! Expulsou do pensamento aquela apaixonante história mitológica, quando, súbita, uma porta se abriu, sem o mais ínfimo ruído, e, logo, se encerrou, em segundos.
Ainda possuído de um fascínio iniludível, fez três passos, sem ter fixado, contudo, a porta por onde havia entrado. Negligência grave, realizou pouco depois. Onde se teria ocultado a sua guia? Teria saído? Segui-lo-ia, seduzida e sedutora? Aventurou-se, porém, um tanto inseguro, a percorrer um beco empedrado.
Dois olhos, o enredaram, repentinamente, na trama de um novelo, cujos fios de cânhamo, de um verde cegante, lhe ataram as pernas. Suplicou, com raiva, creio eu, que, fosse quem fosse, o libertasse. O tempo fluí desesperado. Traído, como, obviamente, se julgou, pegou num pedra, com arestas aguçadas, e atirou-a. Segundos negríssimos! Aqueles dois olhos fascinantes, logo, se derramaram. O empedrado tornou-se num poço de sangue, sem que se visse o fundo. Sangue vermelho, mesclado de fios nimbados de um ouro velho, o que, atordoado, o viajante ainda reteve no seu olhar de esteta.
Liberto, não sabia o como, era, de repente, um albatroz pousado num mastro do navio da chegada àquela ilha. Mas roído o coração pelas vingativas Erínias, segundo julga, sem a mínima certeza, a escrevente, o estrangeiro viajante regressou ao recinto do crime, para contemplar, com olhos-outros, o vermelho líquido do poço. Ou, como o saber, despojos daquela figura que o havia guiado. Enlouquecido, os dois olhos que a pedra, institiva, fizera derramar, miraram-no, demorados, rútilos e hipnóticos. Um silêncio branco e gélido tombou, retumbante, sobre os seus ombros, sempre prontos, no antes deste evento, a fazer justiça e a não ser advogado de defesa de criminosos.
Terá sucumbido de remorsos e perplexidades o viajante estrangeiro? Não sabe a escrevente, a qual perdeu o fio da narrativa, descontente com a exiguidade da «estória» inconclusa, tendo apenas guardado, com uma ternura, de uma pureza inexplicável, o rosto, e a voz, nunca ouvida, é certo, do jurista diletante.
Violeta Teixeira, conto atípico inédito
Publicado por Violeta Teixeira em 12/10 às 01:59 AM
Categoria • Contos •
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