§ Comentários:
MASTURBAÇÃO
Gustave Climt
«Na Grécia Antiga, de moralidade sexual muito livre, comparada à Ocidental actual, a masturbação era um acto sexual usual e aceite como natural. Com a chegada da cultura judaico-cristã no Ocidente, iniciou-se um processo de repressão, por motivos morais e religiosos. Nomeadamente, o desperdício voluntário de esperma (ou sêmen) era pecado grave, punido, algumas vezes, até com pena de morte. Este fenómeno teve dois grandes responsáveis: a Igreja Católica e a Medicina. A Igreja Católica, através do teólogo São Tomas de Aquino, classificou-a como um pecado contra natureza, mesmo pior do que incesto. Ele se baseava na interpretação da narrativa (critica-se, errónea) do Antigo Testamento sobre Onã. A descoberta do espermatozóide, em 1677, motivou a Medicina a se associar à Igreja Católica para qualificar a masturbação como uma doença abominável e um mal moral, uma vez que o espermatozóide veio a ser considerado como um bebé em miniatura.
A repressão da masturbação foi, consequentemente, a regra nos Séculos XVII a XIX. Era vista como uma doença que provocava distúrbios do estômago e da digestão, perda do apetite ou fome voraz, vómitos, náuseas, debilitação dos órgãos respiratórios, tosse, rouquidão, paralisias, enfraquecimento do órgão de procriação a ponto de causar impotência, falta de desejo sexual e ejaculações nocturnas e diurnas. Em 1758, Samuel Auguste Tissot publica o “Ensaio sobre as doenças decorrentes do Onanismo”, em que diz que esta doença ataca os jovens e libidinosos e, embora comam bem, emagrecem e consomem seu vigor juvenil.
Criaram-se mitos anti-científicos fortemente negativos acerca da prática da masturbação, visando a desencorajar o acto nos jovens ainda em desenvolvimento psicosexual, o que levou a muitos casos de complexos de culpa, medos e recalcamentos.
No entanto, no início do Século XX, surgiram novos estudiosos com Sigmund Freud, Kraft-Hebing e Havelock Ellis, com novas linhas de pensamento que levaram a uma visão diferente da masturbação.
No entanto, o peso histórico da carga negativa e pecaminosa desta actividade ainda existe em algumas pessoas, inibindo-as da vivência plena de sua sexualidade ou mesmo atrofiando o seu natural desenvolvimento psicossexual. Atualmente, o novo Catecismo da Igreja Católica classifica-a de “desordem moral” a ser vencida pelo crente.
Análise Psicológica
Alguns psicólogos defendem a masturbação na adolescência como essencial para o auto conhecimento das zonas erógenas e da sua resposta sexual, para o exercício das fantasias sexuais, e nos casos de impossibilidade de se ter um relacionamento sexual, desde que não seja em excesso ou se torne numa obsessão. Estudos científicos comprovam que o orgasmo resultante da masturbação pode ser tão intenso ou mais do que o resultante de uma relação sexual. Em geral, a masturbação tende a diminuir e até desaparecer completamente por volta dos 25 anos; mas para a maioria das pessoas, independentemente do seu envolvimento ou não em actividades sexuais, torna-se uma prática saudável complementar que permanece até a velhice, sem maiores intercorrências.
Há algumas correntes da psicologia que defendem que a prática da masturbação pode ser prejudicial à vida conjugal futura, quando um(a) jovem acostumado à rápida satisfação sexual por meio da masturbação acaba por desconsiderar egoisticamente as necessidades de satisfação sexual do seu parceiro(a), podendo gerar problemas no seu relacionamento sexual e afectivo.
Para além disto, pode constituir um problema psicológico, quando uma pessoa adulta prefere obter satisfação sexual unicamente pela masturbação, em vez de uma relação sexual. A masturbação compulsiva não é uma mera busca ocasional de alívio da ansiedade ou da tensão; torna-se numa prejudicial válvula de escape da realidade, podendo tornar-se numa dependência psicológica fortissíma. Nestes casos, a pessoa deverá procurar um acompanhamento psicológico, identificar as causas do seu comportamento e, depois, lidar com elas.
Origem do termo “onanismo” e sua crítica
Embora se use frequentemente o termo onanismo quando se fala da masturbação, muitos consideram-no inapropriado. Segundo o relato bíblico, Er, o primogénito de Judá, teria sido executado por Deus por um motivo grave não mencionado. Como ele não tinha descêndencia, Judá mandou que Onã, seu segundo filho, realizasse o casamento de cunhado (ou casamento levirato) com Tamar, viúva de Er. (Génesis 38:6-8) Se tivessem um filho, a herança de primogénito lhe pertenceria como herdeiro legal de Er. Se não tivesse um herdeiro, Onã ficaria com a herança de primogénito. Ao ter relações sexuais com Tamar, ele “desperdiçou o seu esperma na terra”, em vez de inseminá-la. Não se tratava de um acto de masturbação por parte de Onã, pois o relato diz que ele “teve relações com a esposa de seu irmão”. O que aconteceu foi, na verdade, um caso de coito interrompido. Onã, que não tinha filhos, terá sido executado por Deus por causa de sua cobiça e desobediência deliberada da Lei. (Génesis 38:9-10).»
Publicado por Violeta Teixeira em 27/09 às 03:15 AM
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Parabéns!
Gostei muito da explicação do contextos históricos e religiosos.
Comentado por em 31/01 às 07:58 AM