§ Comentários:


ESTILHAÇO PEDRA-DO-SOL

Grafito todos
Os muros da noite,
Com cardumes
De escamas acesas,
E cachos de lábios
No oceano do encontro.

Incendeio os olhos
Da Lua, a penugem dos
Pássaros, a polpa dos frutos
E as sombras nómadas,
Do mosto do vinho
E do mistério.

Fantasmo navegações,
Sem norte, queda de astros,
Naufrágios de lumes,
Orgasmos de vagas.

Mas não vislumbro
O teu rosto
Desertor,
No rumo do meu
Navio, a fervilhar
Nas águas visionárias.

Recolho-me, a custo,
Ao fundo do fracasso,
Mutilo-me, cerce,
As raízes do sonho,

Que sobem
Inebriadas,
Os costados das
Embarcações
Lacustres.

E, ao alcance
De dois braços mortos,
Estilhaço, com dor,
Pedra-do-Sol,
Dentro das mãos,

Vendo a volúpia do sangue,
Caindo, pingo a pingo,
Num silêncio de orvalho.

Violeta Teixeira, in LÂNGUIDAS FÚRIAS, Magno Edições, 2001

Publicado por Violeta Teixeira em 31/10 às 01:03 AM
Categoria • Poesia

Rosa Pálida

em meu seio
Vem querida, sem receio
Esconder a aflita cor.
Ai! a minha pobre rosa!
Cuida que é menos formosa
Porque desbotou de amor.Pois sim...quando livre, ao vento,
Solta de alma e pensamento,
Forte de tua isenção,
Tinhas na folha incendida
O sangue, o calor e a vida
Que ora tens no coração,
Mas não era, não, mais bela,
Coitada, coitada dela,
A minha rosa gentil!
Curvam-na então desejos,
Desmaiam-na agora os beijos…
Vales mais mil vezes, mil.
Inveja das outras flores!
Inveja de quê, amores?
Tu, que vieste dos céus,
Comparar tua beleza
Às folhas da natureza!
Rosa, não tentes a Deus.
É vergonha...de quê, vida?
Vergonha de ser querida,
Vergonha de ser feliz!
Porquê? Porquê em teu semblante
A pálida cor da amante
A minha ventura diz?
Pois, quando eras tão vermelha
Não vinha zângão e abelha
Em torno de ti zumbir?
Não ouvias entre as flores
Histórias de mil amores
Que não tinhas, repetir?
Que hão-de eles dizer agora?
Que pendente e de quem chora
É o teu lânguido olhar?
Que a tez fina e delicada
Foi de ser muito beijada,
Que te veio a desbotar?
Deixa-os: pálida ou corada,
Ou isenta ou namorada,
Que brilhe no prado flor,
Que fulja no céu estrela,
Ainda é ditosa e bela
Se lhe dão só um amor.
Ai! deixa-os e no meu seio
Vem, querida, sem receio,
Vem a frente reclinar.
Que pálida estás, que linda!
Oh! quanto mais te amo ainda
Dês que te fiz desbotar.

Almeida Garrett (1799 - 1854)

Comentado por Carlos  em  31/10  às  10:58 PM

Boa noite, Carlos! Não sei quem seja, mas não me permito não lhe agradecer a visita a este espaço.Obrigada, igualmente, pelo poema que transcreveu, ainda que não dialogue com o meu. Não é, com efeito, quanto a mim, possível a intertextualidade.

Saudações poéticas,

Violeta(s)

Comentado por Violeta Teixeira  em  02/11  às  04:54 AM

NÃO EXISTE VIDA, ESTAMOS TODOS MORTOS, APODRECENDO EM CORPOS, SOFRENDO DE AMOR E ODIO, SEGUIMOS UMA DOUTRINA,
TALVES UM ESTILO DE VIDA,
NÃO NOS PERMITEM OPINAR,
E NEM TÃO POUCO PENSAR,
ESTAMOS DE OLHOS FECHADOS,
SONHAMDO E SOFRENDO CALADOS,
PREDESTINADOS A AGIR SEMPRE ONDENADOS… SOBREVIVEMOS DE MIGALHAS E RESTOS.

Comentado por  em  05/02  às  04:24 PM


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