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ENALTEÇO

Registo fotográfico de Violeta Teixeira/Pandora.Olhares.com

Enalteço os fiéis autopatas, com olhos
De um sujo esplêndido, dedos lisos,
Exactos, falas frescas, fluentes,
Evidentes, sem o mínimo recuo ou desvio;
O tédio das veias, irrigadas de fumos tóxicos,
Latejando em chagas recônditas,
Côncavas e oblíquas, isentas do dispêndio
Químico do fútil sofrimento. Enalteço o esterco
Retórico, os lexemas vazios de sentido,
As sílabas ferrugentas, os fonemas tatuados
De resíduos malignos; os espólios
Melancólicos de pergaminho ou de papiro,
Preservados em museus invisitados;
Os restos de ossos dos membros
Do pasmo néscio, e dos crânios belíssimos,
Esfacelados por coevos afáveis.
Enalteço as orgias de Calígula e dos seus
Crimes lícitos; os vandalismos gratuitos,
Perpetrados sob céus de lumes cetinosos;
As sinfonias excêntricas, tenebrosas
E satânicas dos oceanos, contra
Os rochedos da persistência; o pavor
Compulsivo do apocalipse dos neurónios
Sapientes; a luz pertinaz, vomitada
Das crateras extintas dos cérebros;
O bafo do negrume benéfico da ignorância;
O lixo filosófico, metafísico, teológico
E poético, coroado de labaredas
Magníficas, exalando aromas libertários;
Enalteço as folhas putrefactas,
Disformes, enlameadas de respirações
Poéticas e de heresias lascivas.
Enalteço a ruína das falésias,
Das ravinas da memória histórica e do
Património cartográfico das sensações;
A perdição definitiva do semblante
Rútilo da felicidade do coração humano;
Os despojos estonteantes dos fracos,
Dados à costa da vida, sem vida.
Enalteço a estranheza absurda
Da rebelião de um corpo castrado,
Ruminando raiva convulsa; as névoas
Benévolas de todas as crenças;
A claridade álacre dos nobres ascetas
E místicos da carne; as vindimas pérfidas
De sangue nos rubros campos de batalha.
Enalteço as roturas de todos os canos
Dee esgoto da cultura e das vias desviantes
Do ensino; a transgressão das regras
Da aprendizagem kúcida e aliciante
Dos fardos de palha, distribuídos aos
Discentes, atados dee arames, para deleite
De equídeos. Enalteço a morte da ética
E da moralidade, em nome da suprema
Liberdade da natural- natureza humana.

Aqui, sentada na minha cátedra da sanidade
Ignorante, enalteço, enfim, a beleza do zero babilónico,
Como único suporte heróico da humanidade.

Violeta Teixeira, inédito

Publicado por Violeta Teixeira em 16/08 às 11:30 PM
Categoria • Poesia

Violeta,
permita-me: no verso 50 penso que há um erro. Onde se lê “kúcido”...ms

Comentado por  em  19/08  às  10:15 AM

Obrigada pela visita a este meu espaço do desamor, e pelo facto de me ter chamado a atenção para uma gralha.

Violeta Teixeira

Comentado por Violeta Teixeira  em  19/08  às  11:53 AM


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