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DESAFIO DE OLHARES

PARA A SOFIA

«Pupile ouverte sur l’abîme».

ST. JOHN PERSE

«Porque a tua alma foi visual até aos ossos.»

SOPHIA DE MELLO ANDERSSEN

DESAFIO DE OLHARES

I

Letícia Câmara e Augusto de Almeida passavam aquele fim- de -semana numa quinta, recém adquirida, ainda em fase de remodelação e limpeza, a cerca de quinze quilómetros da cidade, onde exerciam medicina hospitalar, e privada, numa clínica que
lhes pertencia. Na casa, que fora dos caseiros da anterior proprietária, de nacionalidade alemã, Letícia instalara o seu atelier de pintura e uma pequena biblioteca, apenas com livros de poesia e romances clássicos. A arte era, para ela, uma terapia eficaz para o estresse do exercício da sua profissão.
No Sábado, depois do jantar, Letícia levou o marido a ver a tela que havia concluído
naquela tarde. Antes, porém, de a mostrar, o perfume das flores dos limoeiros, bebidos,
ebriamente, no espaço que separa a vivenda do atelier, levou-a a abrir uma janela. Não
chega a fazê-lo. Empalidece, e espalma as mãos contra os vidros, como se algo lhe tivesse a roubar a força para se manter de pé.
- Que se passa, Letícia? Estás pálida…
Segura-se ao parapeito, imóvel, com as pupilas dilatadas fixas no céu. Aterrada, leva
alguns segundos a expressar o que está vendo. 
- Olha para o céu! Vês? A Lua tem um buraco no peito e está girar de cabeça para baixo. Estás a ver? Põe os óculos, Augusto! Olha, por favor!
- Vá! Não te faças de louca! - Exclama, sem olhar para a Lua.
Diante dos seus olhos, num canto do vidro da janela, acolhera-se uma constelação de
aranhas, cada uma, de patas finas, longas, peludas, pretas, no centro de toalhas de teias heptagonais, debruadas de franjas de frioleiras verde-azuladas.
- Louca?! Eu?! Toma este espelho. Que vês dentro dos teus olhos? Diz lá, Augusto?
Não são aranhas e teias? Atenta bem! Têm olhos vermelhos, as aranhas. Olha! Não te
parece que já não segregam babas para tecerem? Vês algum tear?
- Já te disse, Letícia, que não te fizesses de louca! Chega de desvarios!
- Dá-me, por favor, o espelho! Louca? Eu?! Os meus olhos estão alvos e sóbrios. Não
direi o mesmo dos teus…
- Guarda o espelho! Fecha os olhos! Fecha-os! Peço-te… Queres um café forte ou um
chá verde? Depois… Prometo-te que vamos observar os dois, ao mesmo tempo, o peito
esplêndido da Lua.
- Tu é que enlouqueceste de vez! Não! Obrigada! Não me apetece nem café, nem chá.
Nem nada! Ouviste? - Di-lo, com agressividade acutilante.
- Acalma-te! Deixemos este desafio de olhares incoincidentes!
Deixam o atelier, em silêncio, e dirigem-se ao seu quarto, na vivenda. Com a mais macia ternura, Augusto começa a desnudá-la, beijando e lambendo, ao mesmo tempo,
cada ínsula de pele que vai aflorando à superfície das suas águas agitadas. Assim, esgarçadas as nuvens espessas e negras que os enovelavam, agora, só se ouve o silêncio
da fusão de duas respirações, borbulhando nas vagas vermelhas do prazer mais sublime do Universo.

II

Letícia desperta mais cedo do que habitualmente, e, atónita, verifica que havia adormecido com as portadas abertas, ela que só colhe o sono num campo onde só se cultive a escuridade nocturna. Num súbito «élan» erótico, enrosca as pernas nas do marido, que acorda, e, sem desfolhar os olhos sobre o corpo amado, semeia-o de beijos. 
- Dormiste bem esta noite, ou eu não me dei conta de te teres levantado, para leres e fumares, como sempre acontece, quando tens insónias?
- Sim, Augusto, apesar das portadas terem ficado todas abertas.
Emudece, com um ar aterrado.
- Que se passa, Letícia?  Voltas aos teus delírios poéticos! Líricos?!
- Augusto, por favor!… Tão céptico! Tão prosaico!
- Ah! Que aconteceu ao Sol?! Olha bem para ele! Tem um olho cego! - di-lo, num tom gritado. Fluem, lentos, uns segundos. Escorre um silêncio frio pelas paredes. De repente, Letícia lança uma seta de terror:
- Augusto! Augusto! O céu vomita ovos negros! Espreita pela janela! Vês? Quebram-se, mal caem naquela varanda. Não te cheira a ovos podres? Olha! Estão a boiar os que caem na piscina. Negros! Negros!
- Por favor, Letícia, não recomeces! Que visões descosidas, as tuas! Ontem, à noite, desfiguravas a Lua… Hoje, o Sol. Agora, é um vómito cósmico de ovos putrefactos. Não achas que te faria bem tomar um banho bem quente? Estás a delirar. Terás febre?
- Por que haveria de ter febre?! - Grita, enraivecida.
- Acalma-te, Letícia! Vamos tomar banho. Vá! Faço-te umas massagens com óleos relaxantes. Não queres? Depois do pequeno - almoço, vamos ao mesmo tempo para o hospital. Hoje, é 2ª feira, sua lunática! Sabias?
- Vês! Continuas a não me levares a sério. Lunática, na tua boca, tem um sentido tão azedo, que me queima os ouvidos. Só te falta dizer que eu sou uma psicótica! Não dizes?! A tua frieza fere-me. Sabes, seu primata insensível!
- Por favor, tenta ter calma, Letícia! Quando te irritas, perdes de todo a razão. Depois, pedes-me desculpa, é certo, mas… Bem! Olha, antes, para a nossa cama!
Com efeito, a cama, ainda desfeita, é uma sementeira de grânulos auríferos. Dádiva dos testículos do Sol, que Letícia não vê. E Augusto parece ter tido um rasgo de poesia.
- Augusto, por que hei-de olhar?  Está desfeita, e, com certeza, fria. Achas que sou uma criança? Que consegues desviar os meus olhos do que não queres que eu veja? Ingenuidade, a tua! Concede que o Sol não só tem um olho cego, como, esta manhã, perdeu o senso. Não te dás conta de nada! Vês o que não vês, e insistes que eu desvario. Por que não dizes, como, há segundos, que tudo quanto digo é poesia?! Ou algo que desenhei ou pintei? Fá-lo! Que gozo sádico, esse, de me irritares! Que racionalidade insensível!
- Desculpa! O que te digo é que estás a perder o senso e não o Sol…
- Ofendes-me, Augusto! Eu vi o Sol dar à luz no Oriente. Sim! Vi! Quer acredites ou não! E a luz, deu-a pela metade… Quanto aos ovos, estão lá…
- Que sensibilidade mórbida, a tua!  Só falta que me digas que a Via Láctea se descarrilou! Talvez mesmo todo o Cosmos…
- Estás cego, como o Sol! Sabes? Insistes, teimosamente convicto, que sou eu que distorço tudo quanto olho? Chega, Augusto! - Exclama com uma tonalidade aspérrima, na voz rouca, que a caracteriza, nos momentos de crise e de confronto.
- Basta de exageros, Letícia! Se continuas com esses desvarios ou vertigens, sei lá, não tardará muito tempo que me digas que estamos no Pólo Sul… Que a Terra fez, esta noite, uma acrobacia extraordinária, digna de uma ginasta olímpica..., de uma daquelas chinesas minúsculas, vítimas de bárbaros ensaios clínicos…
- Não estou a suportar a tua ironia, sabes?! Vai tu tomar banho. Eu não me demoro… Já venho… Se vier…
- Sim! E se ouvisses as notícias na rádio? Fá-lo, Letícia! Confirmarás uma catástrofe cósmica…
Com a garganta e a mente secas de azedume, perde a vontade de dizer seja o que for. Subitamente lembra-se de olhar para o relógio.
- Estou atrasada! - vai dizendo, enquanto entra na casa de banho, - acrescentando que, assim sendo, não sairiam de casa os dois ao mesmo tempo.
- Então! A rádio confirma alguma catástrofe cósmica? - Pergunta, com um acento sarcástico.
- Julgas que vou responder ao teu sarcasmo?! Não! Olha, vou arranjar-me na casa de banho dos filhotes. Ainda bem que passaram este fim-de-semana com os teus pais… Quando estiveres pronto, não me venhas, por favor, dizer que estou atrasada. Ouviste? Não preciso de me submeter aos teus horários rígidos! A cada um, felizmente, o seu espaço físico e psicológico, o seu ritmo, o seu carro!
- Claro! Nesse aspecto, tens razão...Em todo o caso, vê lá se não te enganas no percurso!
- Que aviso tão sem sentido! Guarda a tua fria ironia para tua equipa médica! Sabes? Estou farta!
- Não te esqueças da catástrofe cósmica e das suas consequências! - Insiste, com um sorriso tolo, nos olhos míopes.
- E se te calasses! Por favor… Irritas-me, Augusto!
- Olha! Já pensaste na inevitável sublevação dos pontos cardinais?
Letícia sai da casa de banho privativa do casal, e, com fúria, fecha a porta. Atravessa, apressada, um corredor, e entra, raivosa, no escritório. Pega num pesadíssimo chaveiro. Abre uma gaveta e retira, com gestos de um rito sacro, um «charro» de cannabis. Era a sua terapia para a ansiedade. Aliás, a Dr.ª Letícia, defendia a liberalização do consumo da cannabis, para fins clínicos, como por exemplo, nos doentes terminais, e não só.
III
No longo trajecto, ainda dentro da quinta, as laranjas são luas minúsculas que, ora se ocultam, ora incham. Redondas. Perfeitas. Com olhos oblongos. Pára o carro. Retira os óculos escuros. Uma chuva de pinhas de pinheiros bravos cai, com um ruído ensurdecedor, em cima do tejadilho vermelho. Arranca, de novo, mas até chegar ao portão, a chuvada persiste em engelhar-lhe os nervos.
- Que sede, esta! - exclama, procurando uma garrafa que sempre traz no carro, no assento ao seu lado.
Não. Não a encontrava. Melhor seria voltar a casa, e saciar aquela sede deveras estranha, até porque nem fazia calor àquela hora da manhã.
Abre o frigorífico. Pega numa garrafa, mas, logo, lhe cai das mãos. Do plástico estilhaçado, saem hexágonos de gelo. Tenta controlar-se. Abre a torneira do lava-loiça, para encher de água o copo trémulo, mas, lentas, jorram gotas gelatinosas, cor de groselhas maduras. Estica o elástico das suas resistências, e dirige-se à sala, onde espera encontrar água tónica, que costuma misturar com whisky. Não era possível que, durante a noite, a água se tivesse transformado em florações pétreas, sem partir as garrafas. Desistia. Um cubo de gelo ia resolver o problema da sua sede selvática. Abre a porta superior do frigorífico, mas, para pasmo extremo, encontra uma montanha glaciar, de um branco ferino.
Cai num dos maples de veludo, e, ali, fica, mole e muda, ouvindo e não ouvindo o toque musical do seu telemóvel.

IV

- Então, Letícia, por que não atendeste as minhas chamadas? Conta-me o que aconteceu para teres faltado toda a manhã? O que sentes?  Vamos lá medir essa tensão! Desmaiaste? Fala! Como queres que eu te ajude, se não me dizes nada, nem te levantas? Vá! Levanta-se, a custo, sussurrando um não valia a pena, porque em nada ele acreditaria.
- Sê razoável, Letícia! Algo de sério aconteceu, senão não estarias aqui nesse estado. Conta o sucedido quando quiseres, mas, por favor, ajuda-me a tentar um diagnóstico, apesar da minha especialidade. Precisas de ser tratada… Sabes tão bem quanto eu. Ou achas que os teus comportamentos, desde Sábado, são normais? Diz-me, Letícia!
- Conheces, porventura, os parâmetros da normalidade? Distingues as fronteiras que separam o que denominas normalidade das da loucura?!
- Deixa-te, Letícia, de filosofias!
Que, assim sendo, nada do que ele pudesse fazer valia a pena. Só precisava de descansar umas horas. Que fosse tratar dos olhos dos seus pacientes.
-Bom! Não vamos discutir. Se é isso que queres, vou levar-te para a cama. Tomas um ansiolítico e vais dormir sossegada. Não penses que te deixo só. Vou já cancelar as consultas do consultório. Dá-lhe um beijo em cada face e sai do quarto.

V

Letícia acorda já passavam das dezanove horas, mas o rosto que vê não é o de Augusto. É o de um dos psiquiatras da clínica, o Dr. Jacinto Faria.
- Boa noite, Dr.ª Letícia! Sente-se melhor?
- Boa noite? Quantas horas terei eu estado a dormir?! Desculpe-me, Dr., mas ainda não sei… Acabei de vir à tona de uma espécie de hibernação.
- Foi o Dr. Augusto que me pediu que aqui viesse… Ele acha que eu sou o médico indicado para tratá-la. Espero que aceite o propósito do seu marido. Diga-me, Dr.ª, se está de acordo.
- Sim… Por que não? Já nos conhecemos há muitos anos.
- Onde está o meu marido? Sabe, Dr.?
Que tinha sido chamado de urgência ao consultório. Uma criança espetara uma agulha numa das vistas. Não deveria demorar.
- Uma criança! - Exclamou, pensando nas suas pacientes habituais.
- Então, já me pode responder se se sente melhor? O Dr. Augusto não teve tempo de me indicar os seus sintomas. Já se sente capaz de me falar sobre eles?
- Que lhe hei-de eu dizer, Dr.? Foi tudo tão estranho! Aterrador e belo, ao mesmo tempo…
Letícia sentou-se na cama e, com todos os pormenores, contou ao colega tudo quanto lhe tinha acontecido, estendendo-se, de novo, num gesto a roçar volúpia, certamente, sem disso se aperceber.
- É a primeira vez que tem essa espécie de alucinações?
- Acha, Dr., que é disso que se trata?
Era, efectivamente, a primeira vez que tinha visões daquela natureza, se bem se lembrava. Tinha estado a pintar durante todo o fim de semana, tão compulsivamente, que até se esquecera de se alimentar.
- Trabalhou, Dr.ª, com o atelier arejado?
- Não me recordo, mas creio que não, que não abri as janelas, a não ser naquele momento ao qual, há uns minutos, me referi. Creio que devo dizer-lhe que ainda não foi feita uma limpeza conveniente ao atelier, após a saída dos caseiros da antiga proprietária. Como sabe, adquirimos esta quinta há pouco tempo. A minha pressa em ocupar aquele espaço era tão grande, que não pensei em mais nada, a não ser em estar só, entregue inteira às minhas telas ou à escrita poética.
Que compreendia aquela pressa de estar só. Todos os artistas eram como ela. A produção artística, qualquer que fosse, era, segundo se dizia, um acto solitário.
- Sim, Dr., tem razão.
- Como não efectuou uma limpeza conveniente ao seu atelier, ocorre- me perguntar-lhe se deu conta da existência de produtos tóxicos não removidos pelos tais caseiros? Pesticidas? Sulfato de enxofre? Sei lá que mais. E os óleos acrílicos ou não, dissolventes ou diluentes, etc, nunca lhe provocaram perturbações, como náuseas e vómitos? Dores de cabeça, tonturas ou perdas pontuais da visão?
- Não, Dr. Do que me recordo deste fim de semana é que não só me esqueci de me alimentar, como não saí do atelier.
- Apenas, Dr.ª?
- Não. Estou a lembrar-me que tomei vários whisky…
- Desculpe, costuma tomar bebidas alcoólicas enquanto está a pintar ou a escrever?
- Sim, Dr., também fumo cannabis… O meu marido não tem conhecimento do vício do Whisky, nem desta droga.
- Não se preocupe, Dr.ª, nada lhe direi. Como sabe, seria deontologicamente grave, se o fizesse.
- Claro! Não pensei no nosso código deontológico. Desculpe-me, Dr.!
- De nada!
Ficou em silêncio, olhando para a beleza do rosto, e do corpo da colega, ondeando por debaixo dos lençóis. Um brilho lúbrico acende-se no seu olhar, a boca é um morango maduro, que se dá a devorar, e os braços são dois longos remos , prontos para uma navegação, num oceano fantasmático. As mãos tremulam. São duas folhas de álamos. Ensopado de pudor, levanta-se da cadeira, numa tentativa de esgarçar aquela casulo do desejo, tecido na borda da cama da paciente. Ou de um abismo? Lança, desesperado, apelos à ética, estendida na esteira da indiferença ou, talvez, da impotência. Volta a sentar-se, mas não consegue articular um palavra.
Letícia, em vão, se esforça por fingir que se não apercebe que o colega é um náufrago, esbracejando, num mar revolto. Oculta-se num véu de bruma, mas o certo é que se permite a rendição ao gozo daquele jogo erótico, jogo que a incita a entrar a bordo, sem hesitar um gesto, se o colega explicita verbalmente os seus desejos. O barco, esse, balança nas águas deontológicas.
- O meu quadro clínico é assim tão grave, Dr.? - Pergunta, ironicamente.
- Não me referi a isso… Parece-me que a colega não está a atribuir alguma importância ao sucedido. Achará que se trata de algo de pontual, de passageiro, de normal?
- Sim, Dr. Jacinto. Não lhe vou ocultar o que penso… Mas, diga-me, calou -se com receio de me ditar uma pesada sentença? Tive essa impressão…
Boiando, agora, à tona das vagas que, enfim, sossegou, afasta os olhos dos da Letícia.
- Que pessimismo, Dr.ª! Ou, continua a ironizar?
- Sim, de facto. Por que não? Digo-lhe, porém que sou, por natureza, optimista. Então, por que me não revela já o diagnóstico, Dr. Jacinto?
- É mais difícil do que retirar, sem lesões, uma agulha da vista de uma criança de sete anos. Não se importa de, amanhã, ir ao meu consultório?
- Com certeza, se acha que é necessário… A que horas? Estarei toda a tarde na clínica, a dar consultas. Pode, por favor, mandar-me chamar à hora que lhe for mais conveniente?
- Sim! Farei, como me está a pedir. Tome, uma hora antes de se deitar um comprimido dos que o Dr. Augusto lhe deu ontem. Vai dormir bem, e, amanhã, conversamos. Antes, todavia, se tiver oportunidade, seria aconselhável que, acompanhada do Dr. Augusto, investigasse, digamos, toda a casa que fora dos tais caseiros. Boa noite, Dr.ª! Não se preocupe. O seu marido não deve tardar.

V
O Dr. Jacinto meteu-se no carro, não sem antes, ter lançado um olhar a toda aquela enorme e bela vivenda. Mas, o trajecto até o portão da quinta, quem o fez foi a criança que foi. Com efeito, a variedade de árvores autóctones e as das mais variadas regiões do mundo, além de arbustos, de cactos, de plantas, de flores, o tudo exalando fragrâncias inebriantes, viajaram-no no tempo e no espaço, como se asas tivesse . O miúdo que tinha sido impediu-o de analisar o homem, médico, embora, que, de súbito, fora atraído de um modo avassalador pela colega a quem dava uma consulta. Só quando terminou o longo trajecto da vivenda até o largo portão de saída da quinta, a criança que tinha sido se evolou, como volutas opiáceas num fumoir.

VI

Quando o Dr. Jacinto chegou a casa, na cidade de Faro, esperava-o a mulher.
- Boa noite, querido!
- Boa noite, Filipa! Desculpa-me o ter chegado tão tarde para o jantar. Fui chamado de urgência à vivenda do Dr. Augusto. A Dr.ª Letícia encontra - se doente.
- Algo de grave?
- Ainda não sei… Tenho de reunir toda uma série de elementos, antes de fazer um diagnóstico. Trata-se de um quadro clínico complicado. Bem! Deixemos o assunto, se não te importas, e vamos jantar.
- Sim, Jacinto! Vamos!
Sempre bem disposto e conversador, o Dr. Jacinto jantou em silêncio, o que, como é óbvio, não passou desapercebido à mulher.
Com efeito, o Dr. Jacinto, ali, sentado, não estava, no entanto, presente. Ficara na borda da cama de Letícia, deslumbrado, seduzido, e, com uma vontade exacerbada de possuir aquele belo corpo, serpenteando sob os lençóis. Jantou, navegando nas mais eróticas fantasias, se bem que se esforçasse por pôr termo àquele fantasmar excitante e eufórico, mas ferido de ilicitude. O seu pensamento cavalgou, desenfreado, na noite intérmina. A consulta marcada com Letícia, à tarde, no seu consultório, transformara-se em todo o sentido da sua vida. Era a primeira vez que desejava fazer amor com uma paciente, além do mais colega, casada com um colega, os proprietários da clínica onde alugara o seu consultório. O encontro aliciava-o e, ao mesmo tempo, preocupava-o, por motivos deontológicos e éticos. Não saberia, pensava ele, como lidar com aquela atracção, cujas consequências ainda ignorava. Não era capaz de as realizar. Ou, no fundo, não queria fazê-lo?
Deitou-se mais cedo do que lhe era habitual, voltou as costas à mulher, que, dado o seu estado de espírito, passou a ser uma desconhecida. Aliás, ele próprio se sentia um estranho de si mesmo.
Consumara, em sonhos, todos os seus desejos, relativamente à Dr.ª Letícia, mas acordou com todos eles, de novo, acesos. Que iria acontecer durante a consulta daquela tarde?


VII

Ás dezassete horas, o Dr. Jacinto pede à empregada que vá ao consultório da Dr.ª Letícia dizer-lhe que, se estiver disponível, ele está livre para a consultar.
- Sabe, Dr., a Dr.ª Letícia, segundo fui informada, deixou a clínica, há cerca de um quarto de hora.
- Foi ao consultório do Dr. Augusto?
- Não, Dr.
- Então, vá lá, por favor! Ele deve saber onde terá ido a esposa.
Que não sabia. A Dr.ª Letícia não tinha o hábito de se despedir, quando acabava as consultas. Com certeza teria ido fazer alguma compra, e voltaria à clínica para a consulta com o Dr. Jacinto.
- Obrigada, Sr.ª Dª Irene! Pode ir embora. Eu ficarei aqui mais algum tempo.
- Boa tarde, Dr.! Até amanhã.
- Até amanhã. Tenha uma boa noite.
Letícia não voltou à clínica, o que levou o Dr. Jacinto a comunicar ao Dr. que a sua esposa tinha faltado à consulta.
- Desculpe-me, colega, deve se ter esquecido, e regressou a casa. Ansioso e frustrado,
O Dr. Jacinto senta-se, de novo, e mergulha numa tempestade de sensações multímodas, sem a mínima vontade de ir para casa.

VIII

Levantou-se, saiu da clínica, e dirigiu-se à vivenda da Dr.ª Letícia. Como não a tivesse encontrado, regressa à cidade, sem saber onde a procurar.
- Está a fugir dela mesma, sabendo, embora, da impossibilidade, e também de mim… - Vai dizendo, enquanto toma o rumo da Marina. O crepúsculo é um braseiro, com faúlhas azul-petróleo, rodopiando nos céus, precipitando-se, depois, nas águas incendiadas, e no seu peito, cujo pêndulo se move taquicardíaco. Encosta-se a uma palmeira. Os seus dedos são garras felídeas, ferindo as escarpas ásperas do tronco, sem disso se dar conta, até porque os fantasia, acariciando, maciamente, o corpo de Letícia.
- E se ela…
Asfixia a ideia que começa a escalar as falésias esfareladas da sua mente.
Um alvoroço de asas de gaivotas sobrevoa barcos e veleiros, que se balanceiam, com ritmos uníssonos, nas águas tingidas de nuances púrpuras arroxeadas, respingadas de flocos de cinzas.
- O Dr. Augusto, se não me engano, tem um barco ancorado nesta Marina. E se ela estivesse a bordo? Belo refúgio! - Devaneia, apesar das veias túmidas de um medo indominado. Se soubesse identificar o barco, teria ido a bordo procurar a colega, mas como nunca o tinha visto, achou que o mais sensato seria deixar a Marina.

IX
Dada a busca, sem êxito, da foragida Letícia, o Dr. Jacinto decide comunicar o facto ao Dr. Augusto, que, aparentemente, não manifestou a mais ínfima preocupação. A mulher deveria estar, segundo ele, no apartamento da cidade, onde viviam, num décimo sexto andar.
- Vamos lá a casa, Dr. Jacinto? Importa-se?
- Sim! Gostaria de fazer algumas pergunta à Dr.ª Letícia, já porque faltou à consulta.
- Vamos no meu carro, está bem?
- Com certeza. Vamos! - Exclama, com uma dose, indisfarçável, de ansiedade.
- Que terá acontecido? Olhe, Dr. Jacinto! Veja aquele magote de gente junto à porta da garagem do meu prédio! Que maçada! Vou ter que arrumar o carro aqui fora.
- Sabe, Dr. Augusto, alguma desgraça aconteceu.
- Por que diz isso?
- Ora, Dr., está a esquecer-se que é próprio de todo o se humano o gosto da tragicidade sucedida aos outros…
- Sim! Claro! - Diz, num tom neutro.
- Bem! Vou arrumar aqui, e vamos a pé. Entramos pela porta principal do prédio.
Aproximam-se daquele magote de gente. Junto à porta da garagem, o passeio é um arquipélago de sangue, e a uma pequena distância, jaz, danificada, uma grande tela, na qual um trecho das salinas de Faro exibem cores esbranquiçadas, sob um céu lavrado de ardores lunares.

Violeta Teixeira, inédito (CAVALO DE FOGO – colectânea de contos subintitulada CONTOS ATÍPICOS)

Publicado por Violeta Teixeira em 20/11 às 02:31 PM
Categoria • Contos

Mais um fantástico conto! É curioso como este é o mais abrangente, até à data, do ponto de vista biográfico daquela que, civilmente, se identifica como Violeta Teixeira. Posso aqui identificar várias “pesonagens” familiares. Letícia debate-se com linguagens, que os outros não entendem e que integram no mundo da loucura ou do sem-sentido. Letícia inventa-se no absurdo, na arte, no erotismo e na morte (tal como Giánnis Ritsos) e transforma-se numa tela que se esvai em sangue. Letícia é simultanemante fecunda de criação artística (julgo que a utilização recorrente das imagens dos frutos é um sinal desse facto) e mutilada na capacidade de dar vida (a lua esburacada, as aranhas que não tecem, o sol cego, os ovos poderes) e, por isso, vive nas fronteiras entre a razão e a des-razão, por isso é crepuscular. Neste absurdo, desaparece da vida dos comuns mortais, deixando um “arquipélago de sangue” e renasce numa tela alva e, simultaneamente, refulgente.
Um beijinho - Sofia

Comentado por  em  22/11  às  06:03 PM

Desculpa, querida Sofia, mas a tecedeira de palavras, no agora, improdutiva, só lhe resta a palavra obrigada, para agradecer a visita a este espaço do desamor e da des-razão, e a análise excelente. Só tu,como , recorrentemente, digo, me sabes ler. Obrigada!

Um abraço, com carinho especial dentro,

Vuioleta(s)

Comentado por Violeta Teixeira  em  22/11  às  06:32 PM


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