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DAS CRIANÇAS DE RUA DO FUNCHAL
DAS CRIANÇAS DE RUA NO FUNCHAL
Viajo. Viajo-me. Aqui, sentada numa mesa da cafetaria de uma livraria, com um jornal aberto e um guardanapo branco para a escrita. Desta vez, não poética. Viajo-me, depois da leitura de uma notícia sobre crianças de rua no Funchal. Como faço a viagem?
Sou uma menina de treze anos, saindo do Funchal, onde nasci e resido, acompanhada pelo pai, com destino a Câmara de Lobos. Chego a esta belíssima e paupérrima vila pis- catória. Sou a menina rica que só quer pintar um quadro, cujo cenário é apenas o da na- tureza física. Estou a ver, é certo, muitos miúdos sujos, mal vestidos e pedintes, mas, la- mentavelmente, que sei eu da pobreza? O meu pai guarda-me numa redoma dourada, e, com desprezo, chamo-lhes garotos, vilões, por oposição à menina rica e urbana.
Agora, passados séculos, deixei de ser a menina rica, e, solidária com os mais des- protegidos de todas as sociedades da Terra, querendo, utopicamente, pôr fim às mais gritantes iniquidades do mundo, onde a maioria da população é pobre ou vive abaixo do limiar da miséria, viajo e choro. Choro para dentro. Choro os milhões de mortes de cri- anças. Crianças que morrem devido à fome, às doenças, às guerras. Órfãs de tudo. Co -mo me indigno e grito para dentro!
Viajo. Viajo-me. Estou no Funchal. Vejo, já não os garotos, os vilões, dos tempos de
menina rica. Vejo crianças. Vejo adolescentes. Vejo, em suma, seres humanos iguais a mim. E deixo, aqui, neste suporte de papel jornalístico, a minha mais feroz e dolorosa indignação. Como é possível que, volvidos tantos anos, desde aquela visita de turismo cultural, haja crianças dos bairros daquela vila, pobres do ontem, ainda pobres no hoje, mais de duas dezenas, com idades compreendidas entre os quatro e os catorze anos, que se dedicam à mendicidade no centro do Funchal? Como é possível que nesta cidade de- senvolvida e, desde há muito, cosmopolita, existam crianças de rua? Como? Crianças de rua, homólogas dos sem-abrigo das grandes urbes?
Viajo. Viajo-me. Choro e grito para dentro. Recordo-me da obra «Capitães da Areia do Nobel Jorge Amado, e derramo lágrimas para o dentro da minha revolta. Tenho a sua fome, o seu frio. Sinto o sentimento de exclusão social, a imperativa necessidade do fur- to, do assalto. Enfim, o ímpeto legítimo da violência. Sim! Não vale a pena me chama- rem à atenção, neste caso, para a ilicitude. Quem pratica ilícitos são os responsáveis políticos. Sim! Estes deveriam saber que a pobreza gera violência, porque a pobreza é uma das múltiplas formas de violência. Quando compreenderão o óbvio? Para eles a solução é o internamento em lares da Santa Misericórdia, muitos sem qualquer mise- ricórdia, em Casas Pias, sem piedade, ou, então, as prisões, escolas excelentes para pre- pararem a reinserção social. Ignóbil hipocrisia! Sim, caro leitor! Assim, oculta-se dos turistas a intolerável e inestética realidade da mendicidade das crianças de rua.
Viajo. Viajo-me. Estou, neste momento, na minha cidade natal e, não posso deixar de me dirigir ao meu ex-colega liceal, Presidente da Região Autónoma da Madeira, que, graças ao alto patrocínio que me concedeu, foi-me possível publicar, há um ano, a min- ha quinta obra poética. Dirigir-me ao João jardim para quê? Reiterar o meu agradeci –mento? Sim. Mas, muito mais importante do que tudo isso, fazer-lhe um apelo urgente. Inadiável. Apelo, esse, no sentido de fazer com que, tendo desenvolvido extraordinária- mente a nossa ilha, elimine, de uma vez por todas, as causas que provocam a existência de crianças de rua.
Fecho o jornal. Guardo o guardanapo da escrita. Levanto-me, com lágrimas invisí veis, guardadas no bolso da memória.
Agora, sentada comodamente no meu escritório- biblioteca, viajo, vendo, com saudade e tristeza, as imagens, oferecidas pela Net, do arquipélago da Madeira, da vila de Câmara de Lobos e da cidade funchalense.
Viajo, igualmente, neste escrito, e espero chegar a bom porto, com as «armas» das palavras, armas de dois gumes. Ferem e acariciam. Viajarão, também, até ao Gabinete da Presidência do Governo da Região Autónoma Da Madeira, de modo a ferirem a consciência política do meu amigo João Jardim, e, com certeza, acariciarem o projecto da exérese do cancro social em causa.
Violeta Teixeira
Publicado por Violeta Teixeira em 24/12 às 03:30 AM
Categoria • Crónicas •
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ta bue de linda a imagem ta linda tb a montagem
Comentado por em 07/11 às 05:44 PM