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DA INTERRUPÇÃO ( IN )VOLUNTÁRIA DA GRAVIDEZ

Assumo que me não é fácil invadir este terreno do foro íntimo, sobretudo pelo facto de estar minado de hipocrisia. Não deixo, todavia, de correr o risco de pisar alguma mina e, com certeza, sofrer as inevitáveis consequências de estilhaços explosivos.
Não seria mais cómodo me instalar na poltrona do silêncio? Sim. Eu sei. Mas não me
posso permitir, apesar de tudo, mergulhar este meu corpo de mulher nas águas glaucas da covardia, corpo amante de águas límpidas, com cardumes de peixes verdes, sobre-
voadas por asas brancas. Não! Antes prefiro enfrentar todos perigos do que sufocar o
grito ígneo da indignação. Sim! Como sufocá-lo, ao ter conhecimento que os PPs e os
PSDs, no seu amigável projecto comum da revisão constitucional, inseriram um artigo, cuja ambiguidade pérfida visa impedir a viabilidade de descriminalizar a mulher que, voluntariamente involuntária, recorre à interrupção da gravidez, como única saída para um acto não programado, logo, indesejado.
Dado que não gostaria de enveredar por um discurso recorrente, dispenso-me de enu-
merar os múltiplos factores, de todos conhecidos, que pesam, intoleráveis, na decisão de interromper, abruptamente, a germinação de uma vida, como arrancar, cerce, o rebento de uma semente de uma planta que promete vir a ser flor, vir a ser fruto.
Com efeito, os machos hipócritas do PP e do PSD ignoram que nenhuma mulher faz,
com gosto ou prazer, um aborto, acto de um sofrimento psicossomático atroz. Acto, esse, cujo trauma perdurará durante toda a sua vida, e, na pior das hipóteses, a colherá nas malhas que a morte tece, silenciando, cruelmente, dois corações.
Os ditos políticos terão, alguma vez, ouvido as primeiras badaladas, num ventre ma-
terno, do pequeno pêndulo do sangue? Saberão quanto é, indizivelmente, exultante?
Tendo em conta o que acabo de afirmar, aparentemente, paradoxal, perguntar-me-ão, com semblante angélico: como explicar ou justificar, então, que milhares de mulheres pratiquem o aborto? Fazem-no, caríssimos políticos, por razões mais poderosas do que as do coração. Dispam-se, por isso, da sua hipocrisia! Nenhuma mulher, repito, diz
sim à pergunta referendária sobre a interrupção da gravidez. Nenhuma. Pergunte-se, antes, se se é por ou contra a despenalização do aborto. Entre os dois tipos de pergunta
abre-se um abismo semântico abissal, como qualquer cidadão de boa fé compreenderá.
Se os referidos machos hipócritas pretendem que sejam julgadas e condenadas à pri- vação da liberdade, por detrás de grades, as mulheres que não respeitem as leis por eles
cerzidas, manifestam uma crueldade requintada. Estarei a ser injusta? Não! Sou, em muitos domínios, insurrecta, mas, por mais duras que sejam as leis, defendo o seu estrito cumprimento, embora, muitas vezes, delas discorde, com a legitimidade que me assiste como cidadã livre, dotada de espírito crítico. Eis porque pugno pela descrimi- nalização do aborto. Desejarão os PPs e os PPDs pena mais pesada do que o sofrimento atroz, acima afirmado, que todas as mulheres experimentam, ao entregarem o seu corpo a uma mutilação, como considero o acto de interrupção de uma gravidez? Não ousarei responder afirmativamente, mas confesso que declarações e intenções expressas oral -mente ou em suporte de papel jornalístico por aqueles políticos me levam, incrédula e estupefacta, a pensar que sim.
Dou por findo este escrito, gritando para dentro, mas registado neste espaço, que voto sim à despenalização do aborto. SIM!

Crónica publicada no REGIÃO DE LEIRIA (não foi actualizada, para a publicação de hoje)

Publicado por Violeta Teixeira em 31/12 às 11:15 PM
Categoria • Crónicas

e para um pessoa muito especial que e deise

Comentado por  em  06/07  às  02:35 PM


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