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DA ( IN )TOLERÂNCIA
Foto da autoria de Hugo Tinoco-Olhares.com
DA ( IN )TOLERÂNCIA
O meu nascimento não foi planeado. Sou o fruto de um sonho genésico do progenitor e da complacência óbvia da sua companheira. Depois de ter visto os primeiros gorjeios de luz, fui colocada num berço, onde não havia deus algum. Nem alma. Nem biberões de pecados. Nem Céu. Nem Inferno.
Por que motivo começo este escrito pela génese da cidadã do cosmos que sou, como «cidadãos do cosmos», se diziam, já no século V a. C. Diógenes e Sócrates?
Faço-o, porque defendo que tudo quanto somos de essencial nasce no berço. Foi no berço, com efeito, que o meu progenitor me leu e releu a «bíblia» de uma moral cívica. Interrogava-me, com frequência, sobre o sentido dos inúmeros « versículos ». Bebia-a, àquela « bíblia», como bebia leite. Com o mesmo empenhamento. Considerava o meu progenitor que não era possível formar um cidadão digno, sem aqueles nutrientes. Com fesso que dele herdei esta nobilíssima educação.
Como é óbvio, aquela «bíblia» consagrava um sem número de princípios, entre os quais o da tolerância, o objecto temático deste escrito. Este, como o leitor pode supor, tendo em conta o que, acima, foi dito, era trazido à superfície de todas as sessões con- sagradas à cidadania e à história das religiões abraâmicas. Inteligente, culto e conhe- cedor da realidade social daquela época, o meu pai previa que o facto de ser, na ilha da Madeira, onde nasci, única em vários aspectos: pelo nome, por não ser baptizada, por não crer na alma, nem em deus algum, e, além de tudo isto, ser filha ilegítima, dado que os meus pais viviam em regime de união de facto, situação única na ilha, previa, dizia eu, que a sua filha iria ser vítima de uma feroz intolerância.
Assim sucedeu, efectivamente. Quando, aos seis anos, saí das fronteiras da minha quinta, na zona urbana do Funchal, para frequentar a escola, era tratada como um ani- mal de quem ninguém se aproximava. Não era baptizada, logo não tinha alma, dizia-se. Era saudada pelas outras crianças com um coro de latidos. A cadela saudada era eu; aos dez, o mesmo ocorreu , quando comecei a frequentar o Liceu, e a intolerância feriu-me durante toda a minha vida. Nem sempre por motivos religiosos, mas também literários (aos 14 anos, um poema foi-me censurado por ter a palavra beijos; outro, publicado, mas o título Infinito foi substituído por Deus ); e até por motivos ditos fúteis, como vestuário, cosmética, adornos, tabaco, boquilha, etc.
Nem a alvorada redentora da democracia suscitou, como havia esperado, a aceitação, pelo outro, das minhas diferenças, sendo, por isso, aconselhada, por vezes, caridosa-mente, a me integrar no « rebanho »…
A que propósito me decidi retirar do baú das minhas memórias estas revelações?
Em primeiro lugar, com uma intenção pedagógica; em segundo, porque, com a idade que não tenho e uma carreira docente concluída, estava convicta de que, apesar de mui- tos epítetos com conotações de intolerância, nunca mais seria alvo de actos intolerantes graves. Engano feroz! Uma correspondência anónima e obscena, recebida recentemente, veio fazer sangrar as feridas do passado e trazer de volta a criança de seis anos solitária e triste, saudada com o referido coro de latidos.
Quanta falta de educação cívica ainda reina neste início do 3º milénio! É como pedagoga que, com tristeza, aqui deixo esta exclamação. Se aquela matéria não é fornecida no berço, que fazem os agentes de ensino? Limitar-se-ão a cumprir a aprendizagem dos conteúdos programáticos emanados do Ministério da Educação?
Apesar da tolerabilidade a tantas agressões, concluo, perguntando- me: «tolerar a in- tolerância, sem protestar, não será, de facto, aceitar a injustiça?»
Violeta Teixeira
Poetisa
Publicado por Violeta Teixeira em 11/09 às 10:26 AM
Categoria • Crónicas •
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