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CRÓNICA TRANSGÉNICA XIII

CRÓNICA TRANSGÉNICA XIII

Lamento. Os meus dedos recusam-se, soberanos, a remexer na lixeira a céu aberto deste país, que fora um jardim à beira-mar plantado. Recusam-se, com idêntica tirania, a molharem-se no sangue humano derramado, quotidianamente, em imensos palcos de violência, nas mais variadas partes do mundo, quer longe, quer perto da nossa congénita lixeira. «Basta!», dizem-me. E acrescentam: « Por que não ficcionamos a sórdida realidade? Por que não nos deixamos ficar aqui, no escritório?» Terão razões consistentes os meus dedos? Não precisarão eles de gozar umas férias? Meras perguntas retóricas, estas! Sim! Não tenho modo de lhes desobedecer, ainda que, neste espaço, férias signifique fechar a porta do pensamento, ou, mais explicitamente, a porta que dá para a lixeira e para as poças de sangue, supra referidas.
Não podendo, portanto, agir de outro modo, aqui permaneço. Se o leitor lhe apetecer, poderá visionar o local das originais férias dos meus dedos. Comecemos a descrição: as persianas do meu escritório são, quer nasça, quer não nasça o Sol, pálpebras cerradas. Prefiro a iluminação artificial no meu universo, ora constelado de emoções feéricas, ora, talvez mais recorrentemente, nublado de novelos negros, pingando grossas gotas de apelos de fuga.
Oiço, dizendo-me, neste instante, num tom cálido, saboreando um cigarro, introduzido numa longa boquilha prateada, que, amante da beleza, gosto mais de extasiar os olhos na contemplação das flores de vasos, colocados sobre uma laje de granito, do que ver a luz do Sol banhar uma floresta de cimento armado e o tapete do meu bairro esburacado, com remendos negros, aos quais tenho acesso, se fizer abrir os olhos das persianas ou se me debruçar em qualquer uma das três varandas do meu apartamento.
Agora, em férias, os dedos acariciam a escultura floral que exibo sobre a mesa da escrita, como se fosse o peito perfumado de um amante. Deslizam, divagam, sensuais. O xisto luzente e a rocha magmática pingam feixes de luz rosácea e arroxeada das flores exóticas, respingando-me as mãos. A ponta dos dedos são dez luas redondas e púrpuras «nuancées» de gotículas policromas, reluzindo como minerais preciosos.
De súbito, o meu olhar é uma ausência e, em vão, me esforço por estrangular um grito insurrecto, espetado na garganta do tempo. Deixo cair, pesada, a cabeça, sobre a mesa. Os dedos imobilizam-se, e a solidão invade, galopante, este meu espaço de reclusa voluntária. Findo, por consequência, esta crónica transgénica, com um poema inédito, há séculos, em perfeita conformidade com o clima emocional que, neste agora, se respira. Oiça-o o leitor, porque a poesia deve ser sempre lida em voz alta:


A solidão
São impresenças
Nos espelhos;
São passos de sombras
Sinistras nos
Corredores; são uivos nas veias
Vermelhas do desejo;
São bolbos de bolores de ausências;
São bisturis gélidos de silêncios;
São musgos nos
Muros de todos os medos;
São coágulos de babas
De lesmas, nas paredes da mágoa;
São feixes de lumes
Salgados da salivas dos astros,
Que não vejo,
Ou numa colecção da pedras
Fantasmadas,
Num não sei onde, aquecendo
O sono dos pássaros,
Ou pulsando
No plasma das palavras,
Sussurradas,
Em vão, aos ouvidos
Do silêncio.

Violeta Teixeira, crónica publicada na TRIBUNA DA MARINHA GRANDE

Publicado por Violeta Teixeira em 29/07 às 07:57 AM
Categoria • Crónicas

Querida Violeta, cada vez mais sou uma amante devoradora da sua prosa fantástica. Da sua sublime escrita, esta forma é a de que mais gosto. Uma vez mais o imobilismo pontua o tempo, que, apesar de ser interpretado como estagnador, não deixa de exercer a sua acção destruidora na geografia da solidão, que é tão bem simbolizada na clausura.
Um beijinho, da sua leitora assídua. O meu silêncio na escrita-comentário não quer dizer inelegibilidade do seu magnífico trabalho.
Sofia

Comentado por  em  29/07  às  02:00 PM

Obrigada, querida Sofia, por todas as visitas e pelo comentário excelente. Só tu me sabes ler. Não tenho modo de te agradecer.És a minha melhor leitora.
Uma ves mais, te agradeço, Sofia.
Um grande abraço,

violeta

Comentado por Violeta Teixeira  em  01/08  às  05:30 PM

Corrijo:uma vez mais....

Comentado por Violeta Teixeira  em  01/08  às  05:32 PM


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