§ Comentários:
CORPO DE «BALLET»
São lebres de um corpo de «ballet». Ágeis, esbeltas,
Levam nas patas esguias «chaussons à pointes», e
Dançam sobre alcatifas de forragens de fluorescência
De trevos azuláceos. No palco, o ramalhar de agulhas
De abetos, iluminadas de lâmpadas astrais e de ruivas,
Cabeleiras com laivos avermelhados, de cometas.
É uma orquestra, sem maestro. Melodiza vozes
De gaivotas, de cagarras, picando peixes, ritos nupciais
De pássaros, vagidos de vitelos, gemidos lúbricos de
Éguas e de gatas, ruídos fricativos de pica-paus,
Murmúrios esmeralda de vagas bravias, apelos aflitos
De navios, gargalhadas roucas de tempestades
Cardíacas, silvos esdrúxulos de ventos, gritos
Moribundos de náufragos no oceano dos fracassos;
Sussurros inserenos de brisas matutinas; rumores
Líquidos de orvalhos e de geadas e de granizos;
Vogais brancas e abertas de neves, desflorando
Montanhas, engravidando ervas e pedras; sibilantes
Aspérrimas, ferindo as arestas das rochas e dos
Penhascos, enchendo de medo desfiladeiros e abismos,
Mordendo a polpa dos sonhos de medronhos bravos.
São vozes da Terra: húmus, lodos, minerais. São vozes
Do sol, do fogo, da água do mar, das algas, do sal, das
Lamas marinhas; vozes de todos os climas, de todas as
Latitudes; vozes astrais prolixas, vindas dos confins bárbaros
E ignotos do Universo. Vozes do Todo. Do Nada. Vozes.
Sento-me. Escuto e penso e choro e sofro, enovelando
Os gritos no vácuo do dentro. Tudo tão estranho
À estranha que me sinto! Atiro-me pelas ribanceiras
De silvas do nada sei, do nada me sou, do nada possuo,
Do em nada creio. Prossiga a dança aquele corpo
De «ballet» que, no hoje, me visita a escrita da mais
Terrífica solidão, que eu dou por findo o poema, onde
Eu mesma, sem ritos, me silencio na morada das cinzas.
Nem o meu gato se dará conta do nulo evento.
Não lhe faltam gatas. Correrá para o forro
Sedoso do seu sofá, afiando, com gozo lento,
As garras da nobilíssima e suprema indiferença.
Violeta Teixeira, in RESINAS DE ABULIA, Magno Edições, 2003
Publicado por Violeta Teixeira em 09/06 às 10:47 PM
Categoria • Poesia •
Seguinte: ORQUÍDEA SELVAGEM
Anterior: VELHO PROFESSOR