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CONGÉNITA INSATISFAÇÃO
Para a minha nora Sofia.
Aprendi que depois do horizonte,
Há mais horizonte.
Aprendi que não existe limite,
A não ser o nosso próprio limite.
In Antologia da Nova Poesia Brasileira, Biafra, 1992
Remonto a um tempo antiquíssimo, ferida pelas furtivas
Feras, ébria de um fascínio, dulcíssimo e feroz. Busco
Um primevo e congénito, creio, gosto humano de ser
Pássaro, com asas velozes e olhos vorazes de
Espaços estelares, plenos de um mistério, forrado
De medo e de hipnótico chamamento. Imperativo.
Urgente convite a voos, sem retorno, talvez, ao chão
Seguro, mas, ao mesmo tempo, assustador, como o
Escuro das noites, sem searas louras, semeadas nos
Céus nevoentos. Ser terreno e erecto, caminhante em
Chão conhecido, remador em águas fluviais e oceânicas,
A abóbada celeste, semeada de fogos fulvos reluzentes,
Fascinam-no profundamente, como se Dédalo ou Ícaro
Fosse, aprisionado no Labirinto de Creta, do déspota
Minos. Sensato e aventureiro intrépido, projecta asas
Voantes, mecanismos e engenhos, como quilhas
Aerodinâmicas de aves de grande porte, com desígnios
De cobiça interdita e lícita, corpo livre no berço terreno,
Mas preso ao sonho obsessivo de esgarçar o limite infinito,
Com garras afiadíssimas de tigres ou de linces. Viajante
Entre a terra e os céus, vime frágil e rijo, efémero e eterno,
O « homo Sapiens» inventa o fogo, amanha o chão que pisa,
Cozinha a caça e a pesca, aquece a gruta ou a caverna, mas
A liberdade aprisiona-o na rotina aracnídea dos dias.
Sossego precário, provisório, o da sua mente, num
Desassossego permanente! Mergulha nas águas
Glaucas de um tanque, e, pescador nato, lança a rede
E aprisiona a Lua na sua trama. Embala-a, como quem
Dança, mas, embora exultante, insatisfeito, logo projecta
O como exercer o domínio de todo o Cosmos.
Tamanha ambição assusta-o e incita-o
A ser o senhor supremo do Universo. A Lua, essa, já é sua.
Exulta o astronauta: fiapo, fragilíssimo, este,
De feno, e corda de cânhamo, a tudo resistente!
Violeta Teixeira, inédito ( ORGIAS DE ESQUECIMENTO)
Publicado por Violeta Teixeira em 23/06 às 07:52 AM
Categoria • Poesia •
Muito obrigada, querida Sofia, pela visita que fizeste ao meu blog, pelo conteúdo semanticamente rico do teu comentário, além do elogio deste espaço.
Para, aqui, publicar o poema em causa, fui forçada a dar-lhe um corpo gráfico diferente daquele que utilizaste ma defesa excelente da tua tese de mestrado, porque alguns versos eram demasiado longos ( recusados pelo espaço do blog).
Uma vez mais, obrigada, Sofia. deste-me um incentivo para continuar.
Um beijo recheado de carinho,
Violeta(s)
Comentado por Violeta Teixeira em 24/06 às 12:45 PM
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Muito obrigada pela homenagem. A Violeta sabe que teve um lugar de destaque na minha dissertação, pois a sua transfiguração discursiva é fascinante e inspiradora.
Do que mais gostei neste poema foi a forma sublime como nos revela a crueza do facto de estarmos aprisionados no nosso próprio desejo. Somos irremediavelmente terra.
Parabéns pelo blog.
Um beijo - Sofia
Comentado por em 24/06 às 12:23 PM