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CAVAQUISTÃO: NÃO SERÁ A HORA?
CAVAQUISTÃO: NÃO SERÁ A HORA?
Hesitantes, os meus dedos! Com efeito, se bem que tolerantes, no seu sentido etimológico, ou seja, aceitando os outros, como hóspedes, há muitas semanas que se recusam a escrever. Hoje, todavia, hesitando, é certo, estão a «teclar». Não sei se continuarão a fazê-lo. Sou a espera diante do branco. Por que motivo aquela recusa, esta hesitação?
Creio que a razão reside no facto de serem tantos os eventos que ocorrem neste rectângulo hispânico. Dificílimo é, por conseguinte, eleger um deles para tema de uma crónica. Concedo que esta justificação terá um peso exíguo mas, para quem, como eu, cuja produção escrita de qualquer índole é automática, ou dito de outro modo, não consigo escrever quando quero, nem o que gostaria, porque, aparentemente, os meus dedos escrevem sem mim. Deles sou refém indefesa.
Assim sendo, embora sempre actualizada sobre tudo o que se passa nesta lixeira a céu aberto, isto é, no denominado Planeta Azul, e, obviamente, sobre o que acontece nesta jangada ( não a de pedra da obra de Saramago), em risco de ser engolida pelas águas glaucas, nas quais, apesar de socrática, navega (des)governada. Em breve, estou convicta, a ajuda na governação por um Cavaco sensato, impoluto, trabalhador incansável, patriótico, conhecedor do cavaquistão real ( sofrendo de todas as espécies de iliteracia, paupérrimo em todos os domínios, obeso, porém, nos sentidos literal e metafórico), tomará o rumo certo.
Acho que os meus dedos, amantes de águas límpidas, as quais, até agora, escorriam lentas e negras, se têm recusado a nelas mergulhar. Tão eugénicos! Tão utópicos, os meus dedos! Lixo, na verdade, é a matéria prima, orgânica ou não, que cobre o, acima, referido rectângulo, onde os caprichos da História nos plantaram, a todos nós, cidadãos sebastianistas de um país que, não havendo, esperam o haver. Mas não será há muito a Hora? Sim! A hora da chegada de um salvador D. Sebastião, por entre um nevoeiro cinzento e macilento. O povo- povo, e não só, crê que chegou há umas semanas, mas ainda não se sentou no seu trono inteligentíssimo.
Não serei um Velho do Restelo? Responda o leitor, se lhe apetecer, apresentando-me um panorama edénico, o qual, pisando-o, os meus olhos, turvados de longas esperas frustradas, não lograram ver a aparição do rei que, morto nos areais de Alcácer Quibir, ressuscitou nos confins da Ibéria, escolhido por Deus. Ora, faleceu apenas o corpo, não a sua loucura. Não diz o Pessoa de « Mensagem», no poema intitulado «D. Sebastião», que «Sem a loucura que é o homem/ Mais que a besta sadia,/ Cadáver adiado que procria?»?
Em suma, os meus dedos concluem a produção deste escrito. Manchado de cepticismo. Conseguirá o leitor fazer-me ver uma clareira, ainda que exígua, para acender-me os olhos e aquecer-me a «anima»? Duvido e, paradoxalmente, espero. Mas… não será a HORA?
Violeta Teixeira, in REGIÃO DE LEIRIA
Publicado por Violeta Teixeira em 01/03 às 01:49 AM
Categoria • Crónicas •
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