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CAVALO DE FOGO
O que não sei me impressiona…
O que não sei excita-me.
JEAN JACQUES ROUSSEAU
CAVALO DE FOGO
I
A manhã despertou-o com repuxos de luzes multicolores dentro dos olhos alvos. Ei-lo, com as suas longas crinas de fogo, esvoaçando ao sabor de uma brisa macia! Passeia-se, exuberante e altivo, num vasto pasto de luzerna e de trevo farouch. Não é uma tribo feroz de moscardos que voltejam e o cobrem de picadas, mas uma nobilíssima corte de borboletas, da cor das flores dos trevos, com pontículos auríferos no rebordo das asas.
Numa abertura estreita da sebe de cânhamo, que abraça uma vasta pastagem edénica surge uma figura, com pernas e tronco de mulher jovem. A cabeça, essa, é de uma égua decrépita, cuja cabeça está envolta num xaile, de uma negrura viúva ou de uma mãe magoada, por um destino eriçado de espinhos. Sedentos de algum sangue sacrificial?
O cavalo de fogo passeia-se, alheio às teias que, porventura, o destino lhe tece. Que pode ele saber dos desígnios inelutáveis da fortuna? Como activar símbolos inertes da memória se os não sabe que tem? Tê-los-á? Vai bebendo a claridade sensual da manhã, e as suas narinas gozam, gostosamente, todos os aromas dos campos, esvoaçando em torno. Não tem olhos para ver aquela espécie de espectro, que se oculta, algures, por detrás da fronteira interdita da sebe. Pareceu - me, há pouco, que não retirava as mãos de um tear, sob o olhar implacável de um qualquer deus.
A narradora, amante da beleza daquele equino, fecha os ouvidos às vozes, talvez iníquas, de oráculos, que voltejam nos ares, sussurradas por alguma Pitonisa, e toda se entrega ao fantasmar acasalamentos e crias, com uma volúpia sacrílega, sabendo, embora, da justiça crua dos deuses. Lembra-se da Cassandra insubmissa, primeiro, e revoltada, depois. Não deixa, por isso, de, louca e lúcida , de recear pela sorte daquele cavalo de fogo, pastando, pagão decadente, cego e surdo a sinais, que não decifra, a vozes sinistras, que não ouve, e, ainda que as ouvisse, não saberia o como as descodificar.
- Não conhece a sua história?- Solta-se esta fala, por detrás da sebe de cânhamo.
Relincha, e sacode, com desprezo rebelde, a longa e cintilante cauda, como se um insecto tivesse perturbado o seu carpe diem. Continua, por isso, hedonisticamente, com passos dançantes, o seu passeio.
- Não finja que ignora a sua história!
Reaparece aquela figura, e, logo, se oculta, atrás dos galhos de cânhamo, sem que o
inocente pagão a veja ou, muito menos, a ouça.
Feliz é a ignorância, ou melhor, só os ignorantes e os inocentes, como este cavalo, são felizes, diz, convicta, a céptica e infeliz narradora cogitante, num tom inaudível.
- Insiste no fingimento? - Pergunta, insistente e sarcástica, agora, bem visível na fissura da sebe, sentada numa pedra de xisto luzente, arrancada, segundo crê a escrevente, do leito do riacho ou ribeiro, ali próximo.
- Parece-me que é surdo… , além de mudo… ou, então, é um exímio fingidor - con-clui aquele vulto, arrancando, com raiva, punhados de folhas da sebe, supostamente protectora, do belíssimo equino, cujo dono, suponho, ainda não o acariciou naquele início de manhã de uma pureza primordial.
- Olhe-me! Olhe-me! - Grita , enraivecido, o espectro. Também é cego?! Não! Creio que não… Então, por que não me vê ? - Grita a figura híbrida, dando três passos no inte- rior da pastagem.
O ávido cavalo bebe, despreocupado, lagoas cheias de água e de luz laranja. A narra-dora, por seu turno, rejubila, e treme de medo, não sabe ainda porquê, ou quer, talvez, à viva força, não o saber, com o peito roído de mistérios.
- Não conhece a sua história? - Pergunta, com olhos acesos de incredibilidade, invadindo a pastagem, com passos pesados, passos de quem julga que é detentor de uma única verdade.
- Como se existissem verdades e certezas! - Exclama, sorrindo, irónica, a narradora.
O cavalo, esse, relincha ébria euforia, e, dos lábios rosáceos, saem, silentes, cachos azulinos de constelações. A sua cauda é, agora, um feixe de caules retorcidos e macios
de bambus, cor de baunilha, orvalhados de pérolas cintilantes. Põe-se, de repente, a galope, num ímpeto inflamado, as orelhas sacudidas, marginando toda a cerca. A cauda veloz levanta e atira pelos os ares o xaile do rosto intruso, sem que se aperceba que, na- quela abertura da sebe, faíscam de febre maligna uns olhos, pingando sangue, por certo, vingador.
De súbito, liberta-se, do ventre inchado da terra, onde, há pouco, fincou, com fúria, os pés, aquela insólita figura, agora, com cachos de cactos carnudos, com uma penugem de espinhos, no cimo da cabeça descoberta, um coro atormentado, de relinchos. Quantos cavalos se anicham no seio grávido da natureza? Vivos? Mortos? Ressuscitados, depois de um morte cruenta - imagino -, pela mão de alguma benigna divindade? Res- suscitados para fazer algum apelo àquele cavalo de fogo? - Pergunto-me, inconvicta, ou, por mãos mágicas de mães, inconsoladas?- Interrogo-me, vendo o Sol a perder, paulativo, o senso. Mas, nenhuma fonte fidedigna, me debita uma resposta credível, a mim, inepta fiandeira, talvez alvo do bafo de alguma maldição. A mim, que me vou sentido perdida na trama da minha escrita, emaranhada de laços vis, e de nós cegos. Irremediavelmente? Como o saber? Limito-me a suplicar a cumplicidade da luz solar que, como, acima, vos disse, está a perder o senso, e faço-o, porque creio que o Sol deveria ser sempre cúmplice de quem ama. E eu estou apaixonada pelo cavalo de fogo, que, neste momento, estanca o seu galope, e me acaricia com as suas crinas ceti- nosas e a língua salivada de mel das flores, de um encarnado claro e vivo, dos trevos. Excito-me. Exulto. Esqueço-me, por momentos eternos, que estou empenhada em arrancar a casca da história do equino, que me parece hermeticamente lacrada. Alheada fico, também, da visão daquele sinistro espectro, que se oculta, algures, preparando, suponho, presa de um medo gélido, uma estratégia eficaz do como atacar, ou - quem sabe? - degolar o meu cavalo.
- Que suposições, estas!- exclamo, com perplexidade.
A terra incha cada vez mais e mais, e o coro de relinchos ganha um fôlego de insultos ciclónicos, que emudecem os pássaros, sacodem, com uma brusquidão inaudita, os galhos da sebe, os troncos dos álamos, erguidos nas redondezas. Ouço o choro convulso dos choupos que bordam o ribeiro, que serpenteia a encosta, onde vive o casal proprie- tário de um haras esplêndido, e, segundo creio, deste «meu» equino.
- Cínico! Não está a ouvir os relinchos dos seus irmãos? Que surdez!
- Irmãos! Que quer dizer aquela fala? - Inquiro-me, aproximando-me do cavalo.
- Julga que consegue, seu garanhão pretensioso, não se deixar apanhar nas teias tecidas pelo destino? Desengane-se! A sua história, não a conhece?! Está a ouvir-me?
Senta-se, de novo, na pedra de xisto luzente, com as pernas cruzadas, fingindo, se bem entendo de psicologia, a descontracção que não tem, nem sabe como consegui-la.
O cavalo empina-se, exibindo, sem pudor, a sua fogosa virilidade, a poucos metros do vulto falante.
- Pretensioso? Não! - exclamo. Olhos cegos, sim, e ouvidos surdos à figura e àquele discurso descosido. Inclina o longo e esbelto pescoço, saciando o voraz apetite de verde e o sumo de amoras, que pinga dos céus.
- Vá! Devore toda a pastagem! Sim! Aproveite… enquanto… - diz, num tom frio de ameaça velada.
Ouço-a. Incrédula. Ou, melhor, infectada de ignorância. Colo os olhos à beleza do fogo do cavalo, para, deste modo, exorcizar o medo que persiste em me correr nas veias túmidas, sem, contudo, entender das razões, como se a beleza fosse o refúgio mais seguro do cosmos, beleza, essa, que advém sempre da arte, qualquer que seja a sua natureza. Ingenuidade? Que sei eu do que não sei? Gravo, no entanto, numa pedra esta provisória e precária convicção. E a pedra pulsa, como se fora um coração. Ou, não serão as pedras que pulsam nas palavras da narradora?- pergunto-me, pensativa, e triste com aquela ameaça, ainda que tudo faça, com vista a conseguir ficar imune, aos ditames do destino, em que não creio, mas…
- Que pena! Não tem um espelho, seu garanhão! Saia desse espaço da sebe! Conhece a saída? Não se faça ingénuo! Venha! Saia por aqui! Venha mirar-se nas águas límpidas do ribeiro que corre aqui próximo! Vá! De que está à espera?
Olho para o cavalo. Todas as crinas estão a ser levadas pelo sopro do vento que, de repente, se levantou, com fúrias vingativas, e os pêlos da cauda começam a voar na mesma direcção. Grito. Grito. Grito. Em vão.
- Mas, Mas… que se passa? Não! Não posso crer no que acontece. Como rasurar todo este horror da escrita? Como? Que narradora influenciável! Que narradora impotente? Quem me tiraniza? Quem me escreve? Quem me molha os dedos na tinta? Afastem de mim este tinteiro! Amarrem-me os dedos e os braços à uma aresta de uma pedra! Ati- rem- na, à pedra, sem demora, para o mais fundo mar, penhasco ou abismo! Tragam-me de volta as crinas de fogo do meu cavalo! Tragam-me os pêlos da cauda, orvalhados de astros! Façam-me, depois silêncio! Cozam com fios de cânhamo a boca daquela figura satânica! Já! Não deixem o cavalo sair do espaço da sebe! Já! Enlouqueço?! Calem, para sempre, aquele coro de relinchos! Ensurdecem-me! Enlouqueço! Ouviram? Que esperam de mim? Que entregue o meu cavalo àquela louca? Não! Não! Eu não tardo a pegar, de novo, na meada da escrita. Verão! Não tolero a tirania! Eu já volto! Hão-de ver quem controla o exercício dos meus dedos?! Esperem um pouco! Estou cansada! Ou - por que não vos confessar? - estou morrendo de medo de mim mesma, do curso ou doleito onde navegam, sem bússola, os meus signos.
II
- Aqui estou! Pego de novo, na meada da escrita! Sim, mas armada contra as ciladas de quem escreve ou me escreve. Atravesso a pastagem, segura dos passos que dou, nãová cair em alguma armadilha. Vou em direcção daquele vulto tirânico, sentado no xisto.
Já não reluz, a pedra. Fez-se preta. Ei-lo, que se levanta, mal lhe metralho os olhos, com
os meus.
- Não se atreva a proteger aquele cavalo de fogo!
- É uma ameaça?! Diga! Não me assusta! Trago comigo um feroz exército. Não vê?
Faz explodir uma gargalhada, e, em seguida, lança-me um desafio:
- Nenhum exército vence os desígnios do destino, do qual sou eu a emissária. Cale -se! Ouviu? Ou…
- Não! Não me calarei! As minhas armas, se quer saber, são as palavras.
Nova explosão de gargalhadas.
- Sente-se! Sente-se e esteja atento, seu monstro!
Cai em cima do xisto, desajeitadamente, e as pernas são dois galhos secos, fustigados por um vento furioso.
- Saiba que só existe o que é nomeado, e, para nomear o que quer que seja, não se po- de pôr de parte as palavras. Já entendeu? Se eu quiser faço-a inexistir. Basta-me tão- só não a nomear. Mas, antes, vai retirar a casca da história do meu cavalo de fogo. Já! Comece! Vá! Por que o quer aniquilar? Perdeu a voz?! Está surda?! Não me faça espe- rar! Não tenho tempo para ter tempo, nem muito menos, paciência!
Baixa a cabeça. Levanta as mãos, as mãos que não tem, para apanhar o xaile, caído aos seus pés. Só, então, abre a boca, com vagares que me enfurecem.
- Vá! Comece a descascar a história, senão… - digo, gritando.
O equino passa por nós, a trote, exibindo as suas crinas de fogo, a cauda cintilante.
Espuma de raiva, ao vê-lo, a dita emissária do destino. Ataco-a, novamente, com um grito, que fez estremecer a forragem, a sebe, os choupos. Tudo! Salvo o cavalo, que anda a trote, serpenteando a pastagem, com as mais exuberantes cores. Cede ao meu grito, o monstro falante:
- Sabe, aquele cavalo fugiu a uma sentença de morte irrevogável… sabe… - gagueja.
- Como assim?
- Não ouviu aqueles relinchos revoltados, vindos das profundezas da terra? Não?
- Sim! Mas…
- Oiça primeiro! Eu já lhe explico das razões… Aqueles cavalos relincham o cumpri-mento da justiça. Foram todos mortos, por serem de fogo.
- Mas… Mas por que tem de ser extinta essa raça belíssima? Vá! Responda-me!
- Não totalmente. Alguns cavalos são poupados, segundo critérios bem definidos.Este, que insiste em o manter vivo, não reúne os requisitos da existência. Logo, todos os que foram atirados para os infernos, exigem a sua morte. Entendeu?
- Não! Não aceito essa explicação! E, como já vai ver, revogo, em poucos segundos, essa lei de um legislador louco, com certeza, sádico ou amante da fealdade. Olhe, rasgo essa lei iníqua, tão depressa, como o cavalo de fogo desta pastagem recuperou crinas e cauda originais. Sente-se! Sente-se! Já disse! Não suporto de pé a sua medonha figura!
Do seio da terra, emerge, com relinchos, de uma doçura de mel de pétalas de trevos, todo uma manada de cavalos de fogo, que mal cabe na pastagem. São centenas. Curvam esbeltos, os pescoços. Comem folhas e flores. Bebem luz e água. Beijam-se. Abraçam-se. Acasalam, com ritos rutilantes. O, até há pouco, solitário, equino, não se distingue dos seus semelhantes.
Da pedra de xisto luzente, soltam-se labaredas azuladas, e, no chão, vê-se um monte de cinzas.
Retiro-me. Corto o fio da meada da escrita, e estendo-me toda num recanto da pastagem, acendo e fumo, em êxtase terreno e estético, um longo cigarro, junto daquela sebe de cânhamo.
Violeta Teixeira
Inédito (CAVALO DE FOGO- CONTOS A ATÍPICOS
Publicado por Violeta Teixeira em 02/08 às 12:06 AM
Categoria • Contos •
Tecedeira de palavras, depois do teu excelente e comovente comentário, não encontro lexemas para agradecer-te a visita a este meu espaço físico-psicológico invisitado por todos. Só tu consegues encontrar a chave com a qual abres a porta. Entras. Obversas. Nada te escapa. Só sei dizer-te: obrigada, Sofia.
Um grande beijo,
Violeta(s)
Comentado por Violeta Teixeira em 31/08 às 06:40 PM
Eu amo cavalos,minha vida é ter varios cavalos,minha vida é amar cavalos, minha vida é cavalos,eu adorooooooooooooooooooo!!!!!!!!!!!!!! cavalos!!!!!!!!!!!!
Comentado por em 21/09 às 08:41 PM
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Mais um fantástico conto! Pelos motivos óbvios, este tocou-me particularmente.
No conto, temos, então, três figuras - A Beleza, a Fealdade e a Narradora/Autora. Como esta última ama a beleza surda e muda do cavalo de fogo, como lhe perdoa o seu autismo… E como intolera a crueldade das marcas do tempo e não suporta o seu ininterrupto ruído… Curiosamente, este é um dos poucos textos em que se lê a aceitação da fecundidade do tempo futuro, em que se acredita que a fogosidade e beleza exuberante se reproduzem.
Agora, vamos à Autora/Mãe - Pelo menos fico feliz por a mãe conseguir aceitar o hedonismo do seu primogénito e por amá-lo na sua beleza impertubável. Por muito tempo (até hoje, mais concretamente) achei que a mãe só tinha um filho…
Com especial carinho - Sofia, que também ama o fogo do cavalo…
Comentado por em 29/08 às 01:38 PM