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CANTO

Registo fotográfico de jomagope («lago de estrelas»)-Olhares.com

25 de Fevereiro de 2008

À Violeta Teixeira… uma imagem de brilho por analogia ao brilho que as suas palavras e sentires habitualmente partilhados na arte das suas imagens…

Infelizmente, a Direcção do Olhares inibiu esta nossa companheira de aceder à sua galeria, o que considero ser abusivo, apesar de não conhecer os contornos que rodeiam esta situação…

Apesar da subjectividade da apreciação das imagens de cada um, é muito criticável a enorme parcialidade com que se age neste serviço…

Canto deslumbramentos melancólicos:
O deleite da descoberta do sexo das pedras;
Os gemidos, os gritos, os ritos dos bichos da terra;
O murmúrio líquido das águas subterrâneas;
O fogo grávido das entranhas das rochas;
A queda espontânea das estrelas;
As querelas frívolas das fracturas dos continentes;
O humor volúvel dos rios, silente, dos sistemas solares;
A bravura dos mares e dos oceanos pacíficos;
As babas de seda das aranhas repelentes;
As pegadas fúnebres nos passeios dos poemas;
As frivolidades dos rendilhados
De mármore dos jazigos abandonados;
A beleza granítica ou basáltica das campas;
A degradação das fotos e das flores dos mortos;
As bebedeiras da Lua sobre os ciprestes
Dos cemitérios desafectos;
As folhas nimbadas de luz de cobre e de mistérios;
A ruína bolorenta dos sentimentos, nos corações
Gélidos dos solitários;
O ranger medonho de passos nos soalhos das
Sombras dos espectros humanos;
Os fenos oxidados de chuvas ácidas,
Na alma dos excluídos de um tecto de ternura
Ou de uma migalha de afecto;
As ilusões ingénuas e pérfidas das almas lavadas;
A amargura das injúrias;
Beleza sublime das traições, sem mácula;
O amarelo enxofre dos hipócritas;
As vias dos desvios conjugais, em nome da loucura
Fogosa e límpida, sem fissuras nos corações que não
Entregam a pureza de que se sustentam;
Os corpos sem Sol, que se entreguem a corpos - outros,
Por uma migalha de luz, por um leito belo de frases
Efémeras, por um punhado de inverdades, por um novelo
De calor, com uma lucidez de pedra, anunciando,
A breve trecho, a morte de um agasalho,
Que vale toda uma vida, sem amor, bebendo,
Com avidez feroz as mais ínfimas gotas de prazer,
Sofridamente, sem queixumes fúteis e inúteis;
Canto as mãos vazias de exilada, as gretas da geada
Nos dedos dos sentidos, os calos do pensamento
E dos sacrifícios altruístas; o alvoroço das esperas,
Sem frutos, sem colheitas de pão, de broa ou
De cápsulas de papoulas; os moinhos que moem nada,
Mas as águas os movem; canto as navegações à volta
Do mundo, feitas por aqueles que nunca se levantam
De uma cadeira de braços, e são infelizes como
As baleias e os cachalotes que vêm dar, por vezes
À costa, num rito de suicídio colectivo; canto a solidão,
Pesando mais peso do que peso, carregando as palavras
Dos poemas, como se fossem pedras, se afundando,
Preciosas e indefesas, em poças de sangue, sem fundo.

Canto-me o descalabro compulsivo do álcool.
Canto - me a loucura. Canto-me os desvarios
Dos suicidas, sem êxito. Canto o que me não
Canto, porque também sou, ainda que me não
Diga, a ternura ilógica que se recusa
A se sentar convosco na praça pública da leitura.

Violeta Teixeira, in PARTOS DE PANDORA, Magno Edições, 2001

Publicado por Violeta Teixeira em 01/03 às 12:34 AM
Categoria • Poesia

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