§ Comentários:
CANTO
Foto da autoria Claudio Macedo- Superunknown-Olhares.com
Canto deslumbramentos melancólicos:
O deleite da descoberta do sexo das pedras;
Os gemidos, os gritos, os ritos dos bichos da terra;
O murmúrio líquido das águas subterrâneas;
O fogo grávido das entranhas das rochas;
A queda espontânea das estrelas;
As querelas frívolas das fracturas dos continentes;
O humor volúvel dos rios, silente, dos sistemas solares;
A bravura dos mares e dos oceanos pacíficos;
As babas de seda das aranhas repelentes;
As pegadas fúnebres nos passeios dos poemas;
As frivolidades dos rendilhados
De mármore dos jazigos abandonados;
A beleza granítica ou basáltica das campas;
A degradação das fotos e das flores dos mortos;
As bebedeiras da Lua sobre os ciprestes
Dos cemitérios desafectos;
As folhas nimbadas de luz de cobre e de mistérios;
A ruína bolorenta dos sentimentos, nos corações
Gélidos dos solitários;
O ranger medonho de passos nos soalhos das
Sombras dos espectros humanos;
Os fenos oxidados de chuvas ácidas,
Na alma dos excluídos de um tecto de ternura
Ou de uma migalha de afecto;
As ilusões ingénuas e pérfidas das almas lavadas;
A amargura das injúrias;
Beleza sublime das traições, sem mácula;
O amarelo enxofre dos hipócritas;
As vias dos desvios conjugais, em nome da loucura
Fogosa e límpida, sem fissuras nos corações que não
Entregam a pureza de que se sustentam;
Os corpos sem Sol, que se entreguem a corpos - outros,
Por uma migalha de luz, por um leito belo de frases
Efémeras, por um punhado de inverdades, por um novelo
De calor, com uma lucidez de pedra, anunciando,
A breve trecho, a morte de um agasalho,
Que vale toda uma vida, sem amor, bebendo,
Com avidez feroz as mais ínfimas gotas de prazer,
Sofridamente, sem queixumes fúteis e inúteis;
Canto as mãos vazias de exilada, as gretas da geada
Nos dedos dos sentidos, os calos do pensamento
E dos sacrifícios altruístas; o alvoroço das esperas,
Sem frutos, sem colheitas de pão, de broa ou
De cápsulas de papoulas; os moinhos que moem nada,
Mas as águas os movem; canto as navegações à volta
Do mundo, feitas por aqueles que nunca se levantam de
Uma cadeira de braços, e são infelizes como as baleias
E os cachalotes que vêm dar, por vezes à costa,
Num rito de suicídio colectivo; canto a Solidão,
Pesando mais peso do que peso, carregando as palavras
Dos poemas, como se fossem pedras, se afundando,
Preciosas e indefesas, em poças de sangue, sem fundo.
Canto-me o descalabro compulsivo do álcool.
Canto - me a loucura. Canto-me os desvarios
Lúcidos da química do corpo, sem alma.
Canto-me o que me não canto, porque também sou,
Ainda que me não diga, a ternura que se recusa
A se sentar convosco na praça pública da leitura.
Violeta Teixeira, in PARTOS DE PANDORA, Magno Edições, 2001
Publicado por Violeta Teixeira em 25/04 às 12:44 AM
Categoria • Poesia •
Boa noite!
Obrigada pela visita a este meu espaço do desamor, pela foto ofertada e pelo comentário.
Saudações poéticas,
Violeta(s)
Comentado por Violeta Teixeira em 30/04 às 11:07 PM
Seguinte: «O TRIUNFO DOS IMBECIS»
Anterior: «O CONCEITO E A IMAGEM»
Fabulosa a composição recriada por ti...lindas palavras..e obrigado por escolher esta imagem entre tantas outras ...fico realmente honrado..um abraço Violeta
Comentado por em 27/04 às 02:40 AM