§ Comentários:


ANIVERSÁRIO DA MORTE DE VIRGÍLIO FERREIRA

28 de Janeiro- 01 de Março de1996


Nasceu em Melo, Serra da Estrela, e faleceu em Lisboa. Frequentou o Seminário do Fundão (1926-1932) e licenciou-se em Filologia Clássica na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (1940). A par do trabalho de escrita, foi professor de Português e de Latim em várias escolas do país.
Inicialmente neo-realista, depressa Vergílio Ferreira se deixou influenciar pelos existencialistas franceses (André Malraux e Jean-Paul Sartre), iniciando um caminho próprio a partir do romance Mudança (1949). É considerado um dos mais importantes romancistas portugueses do século XX, tendo ganho vários prémios, entre eles o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (ganho duas vezes, primeiro com o romance Até ao Fim e depois com o romance Na tua Face), e o Prémio Femina na França com o romance Manhã Submersa.

«Todas as tardes ela vinha com o cesto da costura para o sol do corredor, se a tarde era de Inverno, ou para a sombra da figueira, se era nos calores do Verão. Ali estava agora, direita ainda, frente ao vento da tarde funda de Agosto, um vento largo e calmo de céu e de montanha. Mas tão grande era a certeza de sossego à sua volta, tão aberta de paz e de sinal, que a cabeça lhe tombou para o tronco da figueira e as mãos e os olhos se entregaram à unção de uma morte merecida. Quanto tempo? Abriu os olhos e sentiu-se verdadeira no seu corpo fatigado, como fora verdadeira toda a dor que conquistara.

- Mãe Genoveva!

Há quanto tempo? Um dia, ele voltara da fábrica mais cedo que de costume. Tinha as mãos certas, o olhar certo, uma certeza tão presente em todo o seu corpo forte, que era quase como se não tivesse um destino. Assim Genoveva o foi esperar ao limite mais extremo da sua confiança, serena, branca e loura, alta e loura como a glória. E tendo-se apenas fitado longamente um ao outro, reconheceram-se por detrás da sucessão dos séculos, húmidos de origem, infindáveis de apelo, como tocados, para sempre, de um esquecido indício divino.

- Vicente!

Depois veio o Inverno e a baba do vento e as noites sem fundo como o capuz de um condenado. A montanha espadaúda combateu brutamente contra o céu, caíram sobre o mundo tumultos de trovoadas, chuvas e nevoeiros esmagaram a terra de pavor. Mas havia para Genoveva, no centro de tudo isso, uma oculta defesa, não bem contra o perigo do céu e da montanha, não bem contra o terror do mistério, mas contra uma pálida suspeita de morte, que se alongava pelas noites solitárias. Vicente dizia-lhe que uma nova fiação ia ser posta a trabalhar ou que se falava em aumentar a féria, ou até mesmo que sentia o corpo fatigado. E tudo isto, saído da sua boca, era tão forte de perfeição e de verdade, tão como o bafo quente de quem nos aconchega a roupa, que o mais era a memória de um pesadelo morto. Assim, como toda a sua vida falava de promessa e de futuro, quando depois do Inverno voltou a Primavera e, depois da Primavera e do Verão, o Outono lhes trouxe um filho, ela não se surpreendeu. Só o marido pareceu embaraçado de medo e deslumbramento, diante de um prodígio maior do que ele e que, no entanto, incrivelmente, tinha o destino do seu sangue e sua raça. Ou talvez que nesse olhar longo e calado em que envolvera o filho, ele quisesse apenas trasvasar-lhe tudo quanto julgava não lhe ter dado ao nascer; porque, dez dias depois, o correão do tambor das cardas apanhava-o pelo casaco e arremessava-o contra os caibros do tecto. Três vezes o corpo desconjuntado de Vicente atravessou o espaço, três vezes os companheiros clamaram sobre o estrépito das máquinas. Quando, por fim, alguém parou o motor, Vicente foi desprendido da correia e deitado em silêncio no chão. Tinha os ossos todos britados, o corpo numa papa sangrenta. E tão desfigurado de tortura e de sangue, que os companheiros não ousavam reconhecê-lo nem tocá-lo. Só as mãos seguras da mulher, tão certas como se as não comandasse, conheciam o lugar da sua boca, dos seus olhos e do seu olhar. E pousando-as longamente naquela face destruída, aí as esqueceu, confraternizando com o sangue, como se esperasse que Vicente adormecesse enfim, ou que ela fosse investida, de algum modo, numa parte daquele sofrimento.

Depois partiu dali desvairada, atirada num grito, e precipitou-se, com um ciúme assassino, sobre o filho que era seu. E subjugada pela voz absoluta da morte e da criação, o amor ao filho grudava-a a si própria, atirava-a contra o futuro como uma força escura da terra. Só três meses depois, corroída de cansaço, consentiu que um senhor que lhe viera pôr na mesa um envelope fechado, lhe levasse o filho, o registasse, o baptizasse e lho trouxesse, enfim, com o nome inteiro do pai. Só depois consentiu que a vida recomeçasse.

Já o vasto silêncio do Inverno caía de novo sobre a aldeia e o vale. Era agora uma lúcida aridez de prados de gelo, uma alegria mortal de longas neves, como a inocência de um cadáver de criança em urna branca, era o sol rápido e triste, os cavernosos urros da tormenta. Mas agora tudo clamava, duramente, pela angústia de Genoveva, perseguindo-lhe os dias e as noites. E umas vezes chorando sobre o filho, com o desespero de um amor impotente e desgraçado, investindo, outras vezes, de coragem alta, contra o ódio da morte, a promessa renasceu-lhe finalmente no coração. Contava os dias nos segundos, pelo esforço dos trabalhos avulsos - casas lavadas, carregos, sol a sol no campo - com o suor da sua entrega pedido a cada parte de si. Mas, repentinamente, a virgindade de um mundo nasceu em roda do filho. Com uma voz que já não era a dela nem a do silêncio indefeso da criança, surgiu um dia, ali, diante de si, na certeza irrevogável dos muros negros da casa, a enorme verdade de um ser que falava, que pedia, que pensava. De si até ao filho, ia agora o milagre de uma fraternidade nova, ia quase uma surpresa de dois ausentes que se encontram, como aquela que Genoveva sentira em face do marido, quando reconheceu que o amava. Com um espanto que nunca supusera, ela via crescer, à sua face, o prodígio de um deus que impetuosamente recriava a terra e os céus. O pequeno dizia “mãe”, “pão”, “lua”, e a lua e o pão e ela própria existiam realmente, levantavam-se para a vida pela primeira vez, ou surgiam tão diferentes e tão novos que era como se só então tivessem sido criados. Porque a lua era o apelo de uma inocência inteira, e não um cansaço do fim; o pão, apenas uma forma que se cumpre, e não um ódio necessário; e tão nova era agora nela a verdade de ser mãe, porque tão-só ela e tão a medo até agora o soubera, que Genoveva se curvou de humildade e gratidão, diante de si e do filho, como um mistério de uma vontade divina anunciada.

in Antologia do Conto Português Contemporâneo,

- selecção,prefácio e notas biobibliográficas de Álvaro Salema,

Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Ministério da Educação, Lisboa 1984, pp. 1

«Um autor fixa um tema. Mas esse tema,revelando, como revela,um interesse,revela sobretudo que foi só em torno dele que o artista pôde realizar-se como tal.»

Morre em Lisboa, a 1 de Março.
«Virado para a Serra», como sempre desejou, é sepultado em Melo.
É publicado o romance, que deixou incompleto, Cartas a Sandra.

Publicado por Violeta Teixeira em 01/03 às 07:32 PM
Categoria • Citações

Não existem comentários.

Nome:

Email:

Localização:

URL:

Ícones Expressivos

Recordar a minha informação pessoal

Notificar-me em caso de comentário?

Submeta a palavra que vê em baixo:


Seguinte: SOLIDÃO

Anterior: CAVAQUISTÃO: NÃO SERÁ A HORA?

Voltar