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«AMBIGUIDADE E ACÇÃO»

«A Mentira é a recriação de uma Verdade. O mentidor cria ou recria. Ou recreia. A fronteira entre estas duas palavras é ténue e delicada. Mas as fronteiras entre as palavras são todas ténues e delicadas.
Entre a recriação e o recreio assenta todo o jogo. O que não quer dizer que o jogo resulta sempre. Resulte seja o que for ou do que for.
A Ambiguidade é a Arte do Suspenso. Tudo o que está suspenso suspende ou equilibra. Ou instabiliza. Mas tudo é instável ou está suspenso.
Pelo menos ainda.
Ainda é uma questão de tempo. Tudo depende da noção de tempo ou duração ou extensão. A aceleração do tempo pode traduzir-se pela imobilidade pois que a imobilidade pode traduzir-se por um máximo de aceleração ou um mínimo de extensão: aceleração tão grande que já não se veja o movimento ou o espaço ou a duração.
Tudo está sempre a destruir tudo. Ou qualquer coisa. Ou alguém. Mas estamos sempre a destruir tudo ou qualquer coisa. Ou alguém.
Os construtores demolem. No lugar onde estava o sopro, pormos pedras ou palavras: sinónimo de construção. Ou destruição. Ou acção. »

Ana Hatherly, in ‘O Mestre’

Ana HATHERLY (1929)
Poeta, romancista, ensaísta, tradutora e artista plástica, Ana Hatherly nasceu no Porto em 1929, mas mudou-se para Lisboa desde muito cedo, onde ainda vive e trabalha. Licenciada em Filologia Germânica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, diplomada em estudos cinematográficos na London Film School e doutorada em Literaturas Hispânicas na Universidade de Berkeley, foi professora no Ar.Co em 1975 e 1976, e na Escola Superior de Cinema do Conservatório de Lisboa, de 1976 a 1978.
É professora catedrática de Literatura Portuguesa na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, desde 1984, e presidente do Instituto de Estudos Portugueses, por ela fundado na mesma universidade.
Hatherly inicia a sua carreira literária em 1958 com o livro Um Ritmo Perdido e, um ano depois, faz as suas primeiras pesquisas no campo da poesia concreta. Em 1965, liga-se à poesia experimental e, em 1969, a exposição Anagramas, na Galeria Quadrante, marca o início do seu percurso no domínio das artes plásticas. O título da exposição remete para uma série de outras obras em que o nome da artista surge inserido. Tal será o caso de Tisanas, Anagramático, Anacrusa, Leonorama…

Desde muito cedo, toda a sua obra manifesta o interesse por questões que se desenvolvem na ambiguidade entre a escrita e o domínio mais puramente visual, sendo por vezes muito difícil estabelecer as fronteiras entre estes territórios e definir onde termina a poesia e começa o desenho ou a pintura. Estas questões são sobretudo evidentes quando a artista trabalha em pequenos formatos e com tintas de escrever, algo que é muito frequente em toda a sua produção, desde meados dos anos 60 até aos dias de hoje.

O interesse pela poesia visual portuguesa da época barroca (à qual dedicou uma série de estudos e ensaios), assim como pelas escritas orientais (durante os anos 60 foram muito importantes os seus estudos da escrita chinesa e do Budismo Zen, visível sobretudo nas Tisanas), vai ser fundamental para as suas pesquisas, tanto no campo da poesia experimental e concreta, como no das artes plásticas.

Na sua obra visual, a artista realiza constantes abordagens e reflexões em torno da escrita e do acto de escrever, e explora as potencialidades gráficas da sua própria caligrafia, trabalhada mais como desenho do que como portadora de mensagens e conteúdos, de modo a “colher o inesperado dentro do conhecido”, e aproximando-se dos signos verbais orientais.
Na sua poesia, articula igualmente visualidade e conteúdos, ligando o texto à sua aparência final na página. Partindo desta profunda articulação entre mensagem e imagem desenvolve séries de Caligramas, que revelam influências de todas estas preocupações. Isso é visível tanto nas obras mais antigas como nas mais recentes: A Imagem da Mulher Invadida pelo Tempo (Homenagem a Henry Moore) (tinta-da-china s/ papel, 1998, col. do CAMJAP). Numa pequena folha vemos como a frase que dá o nome à obra desenha os contornos de uma figura feminina (cujas formas lembram as do escultor britânico). As mesmas palavras repetem-se inúmeras vezes em linhas ondeantes que definem formas e volumes e em que o conteúdo significativo se perde quase totalmente.

O período do pós-25 de Abril revela-se muito criativo para a artista, que se desdobra em intervenções. Participa na Alternativa Zero, organizada em 1977 por Ernesto de Sousa, com uma instalação intitulada Poema d’Entro. Esta obra tinha sido pensada originalmente para ser uma pequena câmara de paredes pretas, totalmente forrada a cartazes brancos e onde incidia uma luz intermitente. Contudo, recebeu a participação inesperada do público, que rasgava constantemente os papéis brancos, numa atitude de libertação violenta, que expressava a euforia da Revolução. Os cartazes tiveram de ser refeitos inúmeras vezes pela artista.

Na sequência da Alternativa Zero, Hatherly realiza, um mês depois, na Galeria Quadrum, a instalação/performance Rotura. No espaço da galeria dispuseram-se em labirinto treze grandes painéis de papel de cenário (1,20 m x 2,20 m cada). A intervenção da artista consistiu em rasgar as enormes folhas, enquanto era fotografada e filmada por duas equipas de cinema. O gesto destruidor da Alternativa Zero era aqui repetido, num formato diferente e com uma violência já plenamente intencional.

No mesmo ano, a artista produziu uma série de nove painéis de Descolagens da Cidade, hoje pertencentes ao CAMJAP. Na senda do trabalho com papéis rasgados, Hatherly saiu para a rua e dilacerou grandes pedaços de cartazes que se encontravam afixados por Lisboa. Reuniu-os depois em painéis, colocando lado a lado imagens de propaganda política com anúncios de circo e publicidades diversas.
Num deles, observa-se a imagem icónica de Che Guevara ao lado do excerto de um anúncio do Congresso da Juventude Comunista de 1977, tornado hoje num documento histórico raro. Mais abaixo, um leão e um acrobata remetem para a cartazística circense, e inúmeras frases rasgadas lembram as suas pesquisas e jogos com letras. Lembrando o trabalho de alguns artistas filiados directamente no Nouveau Réalisme, como Mimmo Rotella, a obra de Hatherly situa-se, no entanto, no ambiente vivido nos anos seguintes à Revolução e celebra de modo agressivo e eufórico este acontecimento.

As mesmas pesquisas são tratadas no vídeo Revolução (com o qual participou na Bienal de Veneza de 1976), em que a artista filma, com uma câmara de 8 mm, os graffitis e os cartazes políticos que enchiam a cidade de Lisboa.
As suas obras mais recentes continuam a articulação entre escrita, pensamento, gesto e produção de imagens. O CAMJAP mostrou algum desse trabalho recente numa exposição individual no ano 2000.
Esta mesma convocação de texto e imagem é visível nos graffitis que realiza em 2002 e em 2003, que criam imagens esfumadas e saturadas de cores fortes e que mantêm a mesma matriz experimentalista comum a todas as pesquisas, tanto na literatura como nas artes plásticas, fundidas e tornadas uma só através do seu gesto criativo.

ANA FILIPA RAMOS.

Publicado por Violeta Teixeira em 27/04 às 11:24 AM
Categoria • Reflexões

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