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ACASO

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«O Acaso Introduz e Acaba as Nossas Acções
É de um sadismo soberbo pensar que deveríamos ser julgados pelas nossas boas e más acções, uma vez que só de um pequeníssimo número das nossas acções podemos decidir. O acaso cego, que se distingue da justiça cega pelo simples facto de ainda não usar venda, introduz e acaba as nossas acções; o que podemos fazer e, bem entendido, o que devemos fazer, em virtude da existência tantas vezes negada da nossa consciência, é deixarmo-nos arrastar numa certa direcção e mantermo-nos depois nessa direcção enquanto conservamos os olhos abertos e estamos conscientes de que o fim em geral é uma ilusão, pelo que o fundamental é a direcção que mantivermos, pois só ela se encontra sob o nosso controlo, sob o controlo do nosso miserável eu. E a lucidez, sim, a lucidez, os olhos abertos fitando sem medo a nossa terrível situação devem ser a estrela do eu, a nossa única bússola, uma bússola que cria a direcção, porque sem bússola não há direcção. Mas se me disponho agora a acreditar na direcção, passo a duvidar dos testemunhos relativos à maldade humana, uma vez que no interior de uma mesma direcção - em si mesma excelente - podem existir correntes boas e más.»

Stig Dagerman, in ‘A Ilha dos Condenados’

«Stig Dagerman:
o anarquista melancólico»
«No dia 4 de Novembro de 1954 Stig Dagerman trancava-se na garagem na sua casa em Enebyberg, ligou o motor e recostou-se à espera da morte. Tinha trinta e um anos e era a jovem estrela das letras escandinavas. Ou, pelo menos, tinha sido: entre 1944 e 1949 escreveu quatro romances, quatro obras teatrais, um livro de memórias, uma reportagem sobre a Alemanha do pós-guerra (“Outono Alemão”, editado em Portugal pela Antígona – ndt) e centenas de artigos, crónicas e poemas.

Nesses cinco anos de escrita brilhante e compulsiva (houve noites em que completava cerca de sessenta páginas) bastaram-lhe para alcançar o êxito. Foi declarado o herdeiro de Strindberg e a crítica comparava-o com Kafka e Faulkner. Em 1950 os seus nervos já se encontravam em farrapos. Era incapaz de terminar os projectos que iniciava, passava as noites a conduzir por estradas solitárias e a sua vida junto à sua esposa, a actriz Anita Björk, assemelhava-se a um sangrento melodrama. “A depressão é uma boneca russa”, escreveu então, “e na sétima boneca encontramos uma faca, uma lâmina, um veneno, águas profundas e um salto no vazio”.

Com a sua habitual mistura de audácia e de bom gosto editorial, Pepitas de Calabaza resgata aquele que é considerado o testamento literátio de Dagerman, um breve texto intitulado “A Nossa necessidade de consolo é insaciável”. Trata-se de uma das poucas obras às quais o autor sueco conseguiu dar forma nos seus últimos anos de vida: um ensaio sobre a angústia que nos recorda um Cioran a desconfiar das metáforas, ou quiçá um Camus a quem tivessem retirado a reverberação do microfone.

Mais que um sereno adeus à vida, estas páginas podem entender-se como uma síntese do pensamento do seu autor. No coração da obra de Dagerman palpita um negríssimo átomo de opressão. A sua principal temática é a impossibilidade do ser humano conseguir ser feliz nas sociedades modernas. “para mim, perdeu-se para sempre ou por muito tempo um certo tipo de liberdade: a liberdade que procede a capacidade de conseguirmos dominar o nosso próprio ambiente”.

Dagerman recorda Thoreau no seu bosque de Walden. “Onde se encontra agora aquele bosque no qual o ser humano pode provar que é possível viver em liberdade longe das formas congeladas da sociedade?”. Essa insatisfação, que talvez seja um carácter meridional gerado pelo enésimo existencialista ‘malgre lui’, levou Dagerman ao anarquismo.

Desde muito jovem frequentou círculos libertários e começou a publicar textos em revistas como a “Storm” ou a “Arbetaren”. O volume da Pepitas de Calabaza inclui em jeito de anexo alguns textos que lançam luz sobre a sua relação com o anarco-sindicalismo.

Para o leitor espanhol o mais curioso será uma descrição de Dagerman escrita em 1954 pela sua amiga Federica Montseny na qual, entre exclamações maternais e devaneios românticos, surge um parágrafo revelador: “A sua literatura traduz um estado de ânimo, uma crise profunda: demasiado jovem para saber esperar; demasiado absoluto nos seus sentimentos e pensamentos, Stig foi um dos que não podendo acreditar em Tudo, não podia acreditar em Nada.”

Dagerman foi um exemplar político raro: um anarquista anti-romântico. Demasiado inteligente para deixar-se levar pela propaganda, pôs à prova os clichés do pensamento da sua época, ou nas suas palavras, cruzou “o bosque do convencionalismo que todo o poeta deve atravessa”.

Em 1946, com os campos da Europa ainda fumegantes, arremete contra Adam Smith, contra Churchill e contra o Papa, mas também contra Marx e Estaline. Casado em primeiras núpcias com uma filha de emigrantes espanhóis, a sua visão da Guerra Civil lembra algo de Orwell. “Em Espanha, entre 1936 e 1939, o anarquista era considerado tão perigoso para a sociedade que esta lhe disparava de ambos os lados, não esteve exposto, pela frente, só aos fuzis alemães e italianos mas também, pelas costas, às balas russas e dos seus aliados comunistas”.

Embora se trate de um exercício melancólico, é difícil não fantasiar com quem terá sido capaz de fazer com que Dagerman tivesse decidido colocar um fim à sua vida tão prontamente. Em poucos escritores encontramos a combinação de sensibilidade exacerbada com a capacidade de análise que encontramos nele. Como qualquer grande escritor, o autor sueco é, antes de mais, um ponto de vista, mas dir-se-á que é algo mais: um temperamento, uma peculiar energia que amalgama valores aparentemente antagónicos como a fragilidade e o arrojo, o génio e a humildade, a paixão e a inteligência.

Stig Dagerman era delgado, tímido e nervoso. Pensava que a vida era uma “viagem imprevisível entre dois lugares inexistentes” e que o pior dos males era “ter medo dos homens e escrever em troca de dinheiro”. No início d”A nossa necessidade de consolo é insaciável” encontramos um parágrafo que, desde a sua publicação, surge ligado à sua posteridade: “Não me foi dado em herança nem um Deus nem um local firme na Terra a partir do qual pudesse chamar a atenção de Deus e nem tampouco herdei o furor dissimulado do céptico, nem a astúcia do racionalista, nem a ardente candura do ateu.

Por essa razão não me atrevo a atirar a pedra a quem crê em coisas das quais duvido, nem a quem idolatra a dúvida como se esta não estivesse rodeada de incertezas. Esta pedra iria alcançar-me a mim mesmo já que estou convencido de uma coisa: a necessidade de consolo que o ser humano possui é insaciável.”

Anos antes num dos seus relatos mais conhecidos, Dagerman sonhava com o seu próprio epitáfio: “Aqui descansa um escritor sueco, caído por nada, o seu crime foi a inocência, prontamente esquecido”. Esse relato, tal como grande parte da sua obra, permanece ainda inédito em espanhol. Quem descobrir agora o encanto deste anarquista atormentado e brilhante entenderá por que é esse um dos luxos a que não nos podemos permitir.»

Pablo Martinez Zarracina

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Stig Dagerman ou l’innocence préservée
Article paru dans Le Matricule des Anges Numéro 19 de mars-avril 1997

Le Suédois Stig Dagerman a mené un dur combat contre lui-même pour se délivrer de ses obsessions. Biographie d’un “vaincu de la vie” courageux.
Dans une courte nouvelle d’inspiration autobiographique, Stig Dagerman rêvait d’un lieu où les hommes pouvaient “vivre à la fois une vie hors nature et mourir de mort naturelle”. Une existence accomplie, engagée, créatrice, libératrice, en sorte. Il y avait tant de choses à faire pour ce jeune écrivain anarchiste, ce “politicien de l’impossible”, comme il se définissait lui-même. Davantage idéaliste qu’activiste, Dagerman voulait mettre un peu de justice et d’équilibre dans ce bas monde, lui qui rendait l’Etat responsable de la névrose du peuple et qui attribuait à l’écrivain “le rôle modeste du ver de terre dans l’humus culturel.” Cette vie extraordinaire, au sens où il l’entendait, porteuse de lumière et d’espoir, cet enfant prodige des lettres suédoises ne l’a guère connue de son vivant. La mort naturelle, non plus, du reste, puisque Dagerman se suicida dans son garage, au volant de sa voiture, asphyxié par les gaz d’échappement, à l’âge de trente et un ans.

Pareil à ces jeunes fous qui ont brûlé rapidement leur vie (Kleist, Rimbaud, Sa-Carneiro...) sa production littéraire fut d’une incroyable fécondité. A 22 ans, il écrit son premier roman, Le Serpent. Suivront trois autres (L’Ile des condamnés, L’Enfant brûlé et Ennuis de noce), un recueil de nouvelles, des pièces de théâtre1, des scénarios de films, des poèmes satiriques, des reportages, et une kyrielle d’articles, de critiques, le tout entre 1945 et 1949.
Puis une longue période de silence, -la peur de décevoir, la faillite de ses convictions, muées en une détresse inhibitive- jusqu’à sa mort en 1954.

On a souvent rangé Dagerman parmi les écrivains maudits. A tort : il jouissait d’une grande popularité, son éditeur lui assurait de généreuses avances sur recettes, son oeuvre était même lue à la radio. A l’image de Camus ou de Sartre en France, Dagerman était la conscience de toute une génération. Porte-parole des idées existentialistes, il incarnait cette jeunesse de l’après-guerre, arrogante, lucide, révoltée parce que rejetée du grand théâtre où s’était faite l’histoire, en quête d’un vaste idéal de fraternité. Malgré son incurable timidité (il prit des cours de danse pour la vaincre), Dagerman était la représentation de l’homme nouveau : il aimait les belles voitures, adorait le cinéma (particulièrement Fritz Lang), les voyages en bateau, ainsi que le football, le jeu à la roulette… Difficile ne pas voir dans ces symboles d’évasion, une recherche de la transcendance, de l’intensité dramatique que le travail artistique ou l’idéalisme révolutionnaire (à ses débuts) lui procurait. Déjà, adolescent, il aimait respirer l’air des grands départs, à la gare centrale de Stockholm, en rêvant qu’il avait, dans la poche, un billet pour la Chine.

En 1949, dans une lettre qu’il envoie au directeur du théâtre d’Hambourg, Dagerman se présente ainsi : “Le thème central de mon oeuvre est l’angoisse de l’homme moderne face à une conception du monde qui s’écroule (...) et je crois qu’une des possibilités de salut consiste à ne pas se laisser vaincre par son angoisse, ni à fuir devant soi-même, mais à affronter le danger les yeux ouverts.” Regarder le chaos en face, quitte à se brûler la rétine…

La jeunesse suédoise voyait en ce jeune écrivain-journaliste, à la plume fiévreuse et insolente, un quêteur de vérité -les possibles conditions et en même temps les limites de ce que devait être un engagement politique et éthique. Pourtant cet homme, au faîte de la gloire, est un être pur, fébrile et exalté à la fois, sans grande assurance, rongé par une vie que la psychanalyse chérit : une mère qui l’abandonne à la naissance, une enfance paysanne à la ferme des grands-parents, un grand-père -qu’il respectait tant- assassiné par un illuminé, une adolescence grise (il dormait dans la cuisine) entouré de son père et de sa belle-mère à laquelle il ne parlait pas; un ami, emporté par une avalanche, un mariage à l’âge de 20 ans avec la fille d’un anarchiste allemand qui a lutté contre Franco, un remariage à 27 avec l’actrice Anita Björk…

Sa propre existence était une source inépuisable d’images et de symboles pour son inspiration. Et c’est avec une précision violente et poétique que ses livres rendront compte de ce désordre intérieur.

Le thème de l’angoisse -auquel répondent et s’alimentent ceux de la peur, de la solitude, de la culpabilité, de la mort-, Dagerman en a fait son moteur exclusif pour nourrir sa fibre créatrice.

La rencontre de Kafka en 1945 (comme celle de Faulkner ou Hermann Hesse) sera déterminante. Il y découvre certes son double, mais également le trouble, face à ses convictions. L’engagement politique est-il vraiment la réponse au problème de l’existence? Y a-t-il du reste une réponse? Pour Dagerman, la littérature est alors un refuge -le silence face au monde- où la quête rédemptrice est possible: “Puisque je doute toujours de moi-même, de l’originalité de mon talent, de la légitimité de mes opinions, je suis constamment obligé de chercher une confirmation ailleurs...” Cette recherche de la vérité - supporter l’idée que cette vie est vide” -, corroborée par cette incapacité à concilier sa conscience sociale à celle d’écrivain, prendra la forme d’un duel sans merci que l’écrivain mènera jusqu’à sa mort. seulement nous avions une lumière pour nous y cacher, écrit-il dans une lettre en 1954.

Rendons hommage à Georges Ueberschlag. Sa biographie de Dagerman -la première qui paraît en France2- est d’une parfaite honnêteté. Elle s’attache, chronologiquement, à expliquer l’évolution de cette personnalité si complexe, illustrée par l’écho poétique que son oeuvre renvoie (à ce sujet, on regrettera, malgré tout, les traductions de Philippe Bouquet et de C.G. Bjurström...). Une belle invite à relire ce “vaincu de la vie” pour qui et pour toujours “notre besoin de consolation est impossible à rassasier”.
1 A l’occasion des Boréales de Normandie, les Presses universitaires de Caen viennent de publier L’Ombre de Mart (1948). Dagerman y développe le thème de la culpabilité à travers la relation mère-fils (142 pages, 65 FF).
2 Seules des études sur Dagerman ont été publiées en France. La référence reste le dossier réalisé par Plein Chant en 1986 (numéro 31-32) aujourd’hui épuisé.
Stig Dagerman ou l’innocence
préservée
Georges Ueberschlag
L’Elan
(9, rue Stephenson 44 000 Nantes)
304 pages, 147 FF

Philippe Savary

Publicado por Violeta Teixeira em 19/04 às 04:34 PM
Categoria • Reflexões

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