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«A ORTOGRAFIA TAMBÉM É GENTE»
Começarei por recordar uma expressão, recorrentemente à flor da fala de pessoas, sofrendo de iliteracia literária ( e não só), da autoria de Bernardo Soares, semi-heterónimo dos Fernando Pessoa(s), autor do livro, cuja capa ilustra esta peça jornalística, a saber, «a minha pátria é a língua portuguesa». Também é do mesmo autor o título que pari.
Por que o dei à luz? Quer o leitor sabê-lo? Por mais insólito que possa parecer, a verdade é que aquele Pessoa ele mesmo, mas mutilado, se ergueu, ferido, no meu monitor. Ferido? Sim. Porque, tendo lido o título de um texto da autoria desta escrevente ( também ) cibernauta, publicado num «blogger», solidário com ela, explodiu de ódio ao editor daquele espaço da blogosfera, responsável por um atentado à ortografia. Com efeito, onde havia grafado SINTÁCTICO, belo signo linguístico, quer quanto aos corpos visual, fónico e conceptual, surgiu, em ostensivos caracteres negros, o grafema sintático. Mais: «minusculado».
Saiba o leitor que aquele atentado é de uma gravidade gritante, em todos os aspectos, ou seja, todos os corpos, aos quais, acima, me referi, foram feridos. Ora, assim sendo, como evitar uma hemorragia, jorrando de tantas feridas, se «a ortografia também é gente«?
Voltando à referida expressão recorrente, faço questão de dizer, sem a mínima dose de inverdade, que «A minha pátria é a língua portuguesa.», porque foi nela que nasci. Além do mais, sempre me senti, como se diziam Diógenes e Sócrates, cinco séculos a. C., « (cidadã) do Cosmos».
Desculpar-me-á o leitor este texto manchado de sangue, mas , como estou convicta de que compreende, eu não seria capaz de pôr termo à vida do recém-nascido filho de uma poetisa parideira, linguisticamente purista, não só, portanto, patriótica, como defensora acérrima do direito à vida de todos os seres viventes. Poetisa, esta, para quem até Não dormem as pedras./ Têm lumes nos olhos./ Aquecem o sono dos pássaros/ E pulsam nas palavras do poeta.
Por outro lado, como se não me tivesse bastado a raiva sofrida pela cibernauta, com o parto de risco do desamado texto, em consequência de um acidente pedonal, cuja responsável política é a Isabel Damasceno, Presidente laranja da Câmara Municipal de Leria, autarquia, essa, das mil e uma histórias, de um realismo fantástico, mas que nenhuma delas ficará na História, salvo o monstro de betão multicolor (?), o mesmo será dizer o estádio, tão bem gerido pelo competente autarca Rabaça, que recentemente, se demitiu, para vir a ser treinador de futebol ( acidente, esse, diga-se entre parêntesis, que me fez prisioneira da casa e da cama durante meses, como bem se deve recordar o leitor), aquele responsável pelo, acima, aludido «bloguista» ainda provoca feridas na minha escrita. Já agora, de modo a que seja mais bem compreendida a raiva rubra que explodiu em mim, revelo que a minha produção poética e jornalística ficou totalmente bloqueada, durante os meses em que, após o grave acidente, estive enclausurada, com raras e curtíssimas saídas precárias, para me deslocar de automóvel a um centro hospitalar, e ainda, no agora, não logrei parir poesia, como no antes de…, facto sem a qual não me respiro.
Dou por terminado este escrito catárctico, com uma esperança, lamentavelmente ténue, de que a minha única pátria seja cada vez menos alvo de atentados terroristas, piratarias e raptos, crimes sempre impunes, facto que receio que aconteça ao respeitantes à pedofilia e ao rútilo Apito Dourado. Em relação aos primeiros, pergunto-me: terão sido assassinados os agentes policiais da língua mátria?
Violeta Teixeira, in TRIBUNA DA MARINHA GRANDE
Publicado por Violeta Teixeira em 17/06 às 11:59 PM
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