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À ESPERA DO NADA

Registo fotográfico de Magali G -Olhares.com

As suas unhas longas
São dez alcachofras roxas.

Em cada dedo lívido
E longo, ostenta um anel
Satânico.

Ao pescoço esguio,
Que fora belo,
Exibe, pendente de um fio
Fino, quase invisível,
Uma grande caveira.

Nas orelhas pálidas,
Pendem dois esqueletos,
Orlados de vermelho,
Como, aliás, o pendente.

Espalma as mãos sobre
Uma mesa de um bar,
Tensas, trementes, como
Asas interditas de voar.

De quando em vez, puxa
Com furor magoado e macio,
O fumo de um charro,
E despe os olhos, com
Olheiras, até ao fundo da alma,
Macilenta e triste e seca.

Só. Parece ausente, absorta,
Embebida numa ideia fixa, feia,
Dolorosa, desesperada.

É nova, mesmo muito jovem.
De nada se inibe, diz-se, dela,
Aliena-se no álcool, na droga,
No sexo. Vive o Sida, agarrada
Ao gozo excessivo, como
Se, desta forma, fugisse da morte,
Embora saiba e sinta o sofrimento
Do temido desenlace. Próximo,
Dentro de todo o seu dentro.

Não consigo fechar os olhos,
Sem que aquelas alcachofras floresçam,
Num campo verde e vivo, sob um
Sol, pingando-me, azedo, sumo de laranja,
No copo do vazio absoluto, sentada
Numa tasca imunda, à espera do Nada.

Violeta Teixeira, PARTOS DE PANDORA, Magno Edições, 2001

Publicado por Violeta Teixeira em 07/05 às 03:04 PM
Categoria • Poesia

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