§ Comentários:


A ESCRITORA

Semi demenciada, a escritora, devassa
As entranhas das palavras, derrama-lhes as artérias,
Raspa as manchas de tédio do rosto do crepúsculo,
Os rastros de ferrugem dos cabelos das nuvens;
Limpa o iodo acre e cálido da boca da baía,
Que parece engoli-la; desembacia a luz suja
Das suas vozes emudecidas; abre canais e calhas
E regos e rios nas encostas das luas; rega gladíolos,
Gerânios, jacintos, junquilhos e narcisos, com coktails
De seivas, de sémen e de pólen marinhos;
Sossega o vento outoniço, sacudindo fonemas musicais
E areais submissos, com dedos húmidos de ânsias,
Indecisos e brandos; entrança e destrança laços
Obscuros de memórias e de mistérios negros;
Expulsa insectos e zumbidos inquietos das margens
Do medo; redescobre barcos, lava as velas,
Enverniza os mastros, desenrola os cordames, e faz-se
Ao largo desconhecido, bêbeda de brancos sujos
E de espumas cintilantes; abre as veias dos pulsos
Dos pesadelos, e adormece-se num alvoroço
De asas e de barbatanas policromas e de astros novísssimos.
Leve e rápida, enfebrecida, se leva na voragem do gozo
Audaz de um vagabundo, sentada numa cadeira de espaldar,
Saboreando o álcool «grisant» do nenhum lugar.

Violeta Teixeira, in PARTOS DE PANDORA, Magno Edições, 2001

Publicado por Violeta Teixeira em 10/09 às 09:48 AM
Categoria • Poesia

Não existem comentários.

Nome:

Email:

Localização:

URL:

Ícones Expressivos

Recordar a minha informação pessoal

Notificar-me em caso de comentário?

Submeta a palavra que vê em baixo:


Seguinte: ESCRITA

Anterior: A ENTREGA

Voltar